sexta-feira, 7 de agosto de 2015

RETROSPECTO

                                           RETROSPECTO

            Depois de todos aqueles anos de solidão criara para si uma rotina segura, sem grandes emoções.
            Já não pensava em amores que a fizeram passar noites sem claro, há muito não molhava o travesseiro de lágrimas, há tempos deixara de sofrer de amor, enquanto procurava outro sentido para continuar vivendo.
            Num domingo chuvoso e melancólico o celular tocou de maneira nova. Eram toques rápidos e ninguém dizia nada. E na telinha viu mensagens e o número de um celular.
            “Estou com saudade de você. Vamos tomar uma garrafa de vinho para esquentar esse dia molhado e escuro?”
            Curiosa,  e já pensando em amar outra vez,  ligou para o número que estava na tela.  E uma voz impessoal disse: “Coloque o código de longa distancia, depois o seu código e o número do telefone”
            Mas como se ela não sabia quem era quanto o código!
            Desistiu. Esqueceu.
            No dia seguinte o toque ligeiro, a tela escrita.  E todos os dias ela recebia uma mensagem carinhosa: “eu te amo, por que você não responde?”
            “Hoje é dia dos namorados, vamos sair para nos amar”.
            E no dia dos amigos: “nem como amigo você me quer?”
            Depois de tantos anos, alguém ainda sentia saudade dela! Queria recomeçar um namoro! Mas quem? Pensou já entusiasmada, já cheia de esperança.
            Os dias passavam  e as mensagens continuaram. Ela pouco a pouco sentia seu coração renovado, cheio de esperança, e a curiosidade aumentando.
            As conjecturas tomaram conta de sua mente. Será o Eduardo? Não. Ele não diria essas coisas amorosas. Falaria sobre sexo, e como ela era gostosa.
            E o Elcio? Talvez ele fosse capaz de dizer que ainda lhe amava. Mas, ela sabia que ele estava bem feliz, casado com uma jovem que tem a idade da sua filha.
            E o João? Ele não faria esse mistério. Diria logo seu nome e a que veio.
            Talvez  fosse seu irmão ou  primo fazendo gozação, chegou a pensar.
            Mais tarde, o misterioso fã, insistiu para que ela dissesse o sobrenome dele.
            Ela. Com medo de parecer ridícula, arriscou escrever o nome  de seu grande amor. Acertou.
            E a mulher voltou a sonhar. Visitou o salão de beleza, pintou os cabelos, tratou dos pés e das mãos, comprou roupas novas, sapatos e bolsas combinando.
            Sentia-se mais jovem.  Voltou a sonhar e esperar.
            Esperou muito, teve crises de ansiedade e seu coração sofreu até o homem  marcar  o primeiro encontro.
            Ela  tremula de emoção entrou no carro, jurando para si mesma que não o amava  mais, seria apenas uma diversão sem compromisso.
            Ele muito magro e sem dentes. Tirou  todos os antigos, velhos e amarelos, para implantar nova dentadura. Suas nádegas eram secas e cheias de pelanca.
            Ela parecia mais jovem, mais cuidada.
            Mesmo assim, para ele, foi  diversão
            Para ela, o renascimento de um amor, que só a fez sofrer outra vez.


segunda-feira, 20 de julho de 2015

ORGULHO QUE DESTRÓI

                                              ORGULHO QUE DESTRÓI                               

                Quando a vi pela primeira vez eu tinha apenas quatro anos. Ela desceu do carro segurando uma frasqueira, caminhando como se deslizasse sobre uma esteira rolante. Seus olhos eram azuis e pintados,  que mais pareciam uma obra de arte, e dela exalava um cheiro de perfume desconhecido. Levava pela mão uma garotinha acanhada, mais ou menos da minha idade.
            Como se eu estivesse hipnotizada, corri ao encontro delas. Da mulher ganhei um olhar frio e desdenhoso, e um tímido sorriso de sua filha.
            Com o passar dos dias, Regina aproximou-se de mim e acabamos boas companheiras. Às vezes nos refugiávamos  no sótão do casarão para inventar histórias, ou juntas corríamos pelo quintal espantando as galinhas, subíamos nas árvores menores e acariciávamos meus bichinhos de estimação, ou simplesmente, quietas, uma ao lado da outra vendo o tempo passar.
            Quando sua mãe nos encontrava juntas a levava para longe de mim.
Decididamente eu não conseguia conquistar Dejanira, por mais que admirasse tudo nela. Eu ficava observando o jeito que passava um pincel fino nas bordas dos lábios e depois preenchia com um batom mais escuro. Outro pincel preto era usado para os olhos, e depois um aparelho que deixava os cílios curvos. Um dia ousei passar em mim suas pinturas. Fui apanhada em flagrante, levei uma palmada que deixou sua mão marcada em mim.
            Um dia seu marido chegou de surpresa, depois de um ano no exterior. Ela jogou-se nos seus braços chorando, enquanto ele a beijava rindo. Jamais esqueci  aquela cena que passou a ser para mim, a maior demonstração de amor.
            Vitor estava sempre de bom humor e misturando risos com uma tosse constante. Logo ficamos amigos e ele sempre me chamava para ouvir minhas  histórias. Não lembro o que eu contava mais sei que ele gostava. Outras vezes ele me colocava no colo, ao lado da filha. Sua mulher ficava irritada e saia para o quarto.
            Vitor minimizava dizendo: “meu colo é o meu coração cabem as duas.”
         No dia seguinte eu tinha que fugir das alfinetadas da mulher. Depois de algumas semanas eles viajaram e só fui reencontrá-los depois de muitos anos, já então, uma adolescente.
            Vitor chegou como comandante da Escola de Cadetes e Dejanira a mulher de uma autoridade, mas a pose era de uma rainha. Seu orgulho e prepotência eram insuportáveis e destilavam veneno.
            Eu continuei achando que ela era a mulher mais bonita e elegante do mundo, embora tivesse medo dela. Era implacável no falar e no agir. Inúmeras vezes a vi humilhar e diminuir as pessoas mais próximas.
            Sua meio-irmã nasceu cega e era a sua vítima predileta. Quando viu a viu tocando piano, ela disse: “não sei pra que o papai lhe deu este piano. Será que ele não vê que você é uma pobre cega, como pode aprender a tocar?”. A garota levou muito tempo para descobrir que podia ser um excelente pianista.
            Para Silvia, amiga de infância, depois de ouvir suas confidencias, ela disse: “Cai na real. Você acha mesmo que a mãe do João criado com tanto amor e cuidado, vai deixá-lo casar com a filha de um bêbado?” A garota chorou, e fugiu do rapaz.
            A amiga do colégio que confessou estar apaixonada por um primo seu ela disse: “Odete não educou o João para casar com a filha de um bêbado”
 A garota acreditou nela e voltou para o interior sem nem falar com o namorado.          
Quando Teresa, sua vizinha no tempo de infância, lhe disse está amando o Luiz, um conhecido de infância das duas, Dejanira quase gritando disse: Você esqueceu que é filha de uma louca?!
E a mulher bonita e amada não parava de humilhar e separar pessoas
A mim ele dizia, cheia de raiva: “você  tirou o amor do meu verdadeiro pai e roubou de minha filha os carinhos do avô”.
Regina transformou-se numa moça bonitinha, mas, tímida, apagada  e tinha dificuldade em atrair amigos e conquistar namorados. 
Para desespero da mãe e alegria do pai, continuamos gostando uma da outra.
Numa festa do melhor clube da cidade, onde todas nós pescávamos bons partidos, fui buscar a garota na mesa dos pais para se juntar a turma.
A mãe gritou: “minha filha, os rapazes te respeitam e a elas não”. A garota sentou-se ao lado dos pais e eu fui “ser desrespeitada”. Voltei para minha turma.
Quando conheci o rapaz com quem me casei, ela  disse: “cuidado, a aeronáutica é cheia de filhos de lavadeira. Esse interessado por você deve ser um deles”.
Tentei encontrar motivo para tanto ódio daquela mulher a quem a vida dera tudo. Não encontrei. Sua vida me pareceu um sucesso.
Um dia o pai morreu e a mãe, sempre encantada pela filha, decidiu passar todos os bens para o casal, únicos herdeiros.
A viúva se desfez da casa de Fortaleza e foi viver com a filha, neta e genro.
A última vez que os vi, estavam morando em Petrópolis.  Tia Antonia muito magra, arrependida da mudança e com saudade de sua casa.
A filha irritada, disse que a mãe estava sem comer para se fazer de vítima.
Regina segregou que encontrara um amor. Mas, a mãe implacável, tinha proibido seu casamento porque o rapaz era garçom do navio italiano em que o conhecera.
Mais tarde tia Antonia voltou para Fortaleza, onde morreu tuberculosa, sem dinheiro para comer ou comprar remédios. Seu enterro foi pago com uma coleta entre os parentes.
Logo Vitor, o sempre bem humorado e apaixonado marido, terminou seus dias, cheio de analgésico para suportar as dores de um câncer na cabeça;
Meses depois Dejanira descobriu um câncer no útero, que a levou em poucos meses.
Ao voltar do enterro da mãe Regina libertou-se de tudo e de todos.
Numa noite de sábado se arrumou, como gostaria de ter ido a uma festa, trancou-se tomou todos os comprimidos que encontrou, abriu todos os botões de gás.
E dormiu para sempre

  

 .          

quinta-feira, 16 de julho de 2015

ATOS IMPENSADOS

Depois de um casamento desastrado, dois filhos para criar e recursos parcos, voltei à faculdade. Dessa vez, sem a influência, quase tirânica, da família escolhi a Faculdade de Direito. Foram quatro anos difíceis. Além da responsabilidade com os estudos, as queixas dos filhos e críticas dos familiares.
               Tudo, no entanto, me pareceu válido diante do orgulho que senti no dia da formatura, fazendo o juramento, nem sempre cumprido, de bacharelato. Ainda teria que estudar muito para vencer a próxima etapa. A prova da OAB.
               Venci e minha vaidade era grande, e os projetos maiores ainda. Chegou à hora de mostrar todo o conhecimento que acumulei. Que caminho tomar? Continuar estudando para concurso público? Quase impossível. Não tinha mais recursos e os filhos reclamavam o  abandono em que eu os deixara todos aqueles anos. Trabalhar num escritório de Advocacia estava aquém  das minhas aspirações.
            Acabei me associando a duas colegas de faculdade e com a cara e a coragem, montamos um escritório no centro da cidade.
            Telefonamos para todos os amigos oferecendo nossos serviços, entregamos panfletos para serem distribuídos nas ruas, e pedimos aos colegas para nos indicarmos, caso não houvesse interesse por algum caso jurídico que lhe chegasse as mãos. As dívidas já estavam se acumulando quando nos apareceu o primeiro cliente.
              Contei tudo isso para justificar o empenho exagerado com que abracei o meu primeiro contrato.
            Uma concessionária de pneus nos procurou para descobrir quem estava desviando material do estoque. E o proprietário tinha pressa em castigar quem o roubava.
            Cheia de empáfia, cheguei ao local do crime para averiguações. Ali encontrei alguns policiais e um suspeito.
            O homem era raquítico, pálido, assustado, claudicava como se tivesse sido vítima de paralisia infantil. Os lábios pálidos, não se abriam para falar nada. Levei-o para uma sala, e sozinha o interroguei durante muito tempo. Não consegui ouvirdele uma palavra sequer.
            Irritada, pensei: “será que este bandido vagabundo vai me atrapalhar? Afinal de contas, este é o meu primeiro contrato. Vou ganhá-lo a qualquer custo”.
            Chamei os policiais e disse: “leve o ladrão para aquele galpão e só saiam de lá com a confissão”.
            Alguns minutos depois, ouvi barulho de chicotadas e gritos de dor. Fiquei assustada, mas, fui incapaz de dizer qualquer palavra para acabar com o espancamento. Só pensava no sucesso do meu trabalho e no dinheiro que receberia.
            Quando, finalmente, eles conseguiram que o homem falasse e o trouxeram para fora, vi sangue no seu rosto e vários machucados pelo corpo. E aqueles olhos molhados de lágrimas estavam cheio de ódio.
            Depois de ouvir elogios e receber um bom dinheiro, não senti o prazer que esperava. Só havia remorso. E eu precisava aceitar que certas coisas são irremediáveis e não tem retorno possível.


quarta-feira, 1 de julho de 2015

SONHO TARDIO

   

         Quando mamãe se suicidou deixei de ser a garota cuidada, de longos cabelos negros, presos por tranças entremeadas de fitas de cores variadas. As pregas da saia escolar perfeitas. Blusas sempre engomadas e eu, insanamente vaidosa, deixava minhas colegas irritadas. Por inveja ou por acharem que eu estava fora do contexto, me desarrumavam toda, e eu corria para pedir socorro aos professores.
         Órfã, guardei sempre comigo o revolver de mamãe e dei uma reviravolta no comportamento e no visual. Libertada de qualquer vaidade, me integrei ao grupo hippie, então, o preferido pelos rebeldes.
         Para desespero de papai e dos meus irmãos, agora eu vivia suja, descabelada e mal vestida. Minha pele cheia de espinhas. Meus cabelos longos e desgrenhados faziam de mim uma pessoa sem nenhum encanto. Não fazia sucesso entre os garotos. É verdade que tive algumas aventuras que não me tocaram o coração, mas me trouxeram duas filhas. Jamais dei a elas o carinho e o cuidado que recebi.
Depois, as rugas foram marcando o meu rosto, o corpo já sem curvas e os cabelos cheios de fios brancos. Eu fui tomada por uma solidão imensurável. E, assustada, senti que não vivi. A  solidão começou a incomodar.
"Preciso voltar a ser cuidadosa e procurar aceitação."
Já mudada, freqüentei lugares badalados onde reencontrei pessoas conhecidas e familiares de quem estava afastada havia anos. Agora, diferente, parecendo mais jovem e mais bonita, fui elogiada por alguns conhecidos e até por homens desconhecidos. O que me deixava feliz. Ousei sonhar com um homem que vivesse comigo uma paixão.
O tempo passava e apenas elogios. Mesmo assim, voltava feliz, porém, desejando mais. Precisava encontrar o homem certo para realizar o sonho tardio.
Já desesperada, telefonei para o marido da única amiga que me restou e o convidei para jantar em minha casa. Há muito disfarço uma atração por ele. E Bruno foi sozinho à minha casa. Confessou que sempre teve simpatia e certa curiosidade por mim. A comida estava ótima. O vinho melhor ainda.
Embriagados, fomos para o quarto. Tiramos a roupa e nos acariciamos. Ele beijava minhas carnes gordas, meus seios murchos, e eu senti um prazer nunca antes vivido. Gemia e chorava. Nunca fui tão feliz!
Ele disse que voltaria.
Agora, minha vida se resumia à espera. Liguei várias vezes e Bruno sempre adiava novo encontro.
Numa tarde, ele chegou de surpresa! Trazia salgados para acompanhar  aquele vinho que ainda estava na geladeira. E, novamente, acabamos na cama. Dessa vez ele escorregou e caiu sobre meu corpo. Senti uma dor insuportável na coluna, especificamente na lombar. Os joelhos também foram afetados. Essas dores têm me acompanhado todos os dias de sua ausência. Telefono, ele não atende. Deixo recado, ele não retorna. Surpreendo-me. Ele sempre foi um homem educado, fino. Por que esta grosseria?
E insisto, dia após dia. Coloco minhas jóias, uso vestidos maravilhosos, um perfume francês, e espero um telefonema, um toque na porta que anuncie a chegada do meu homem. Ele é meu e tem que voltar pra mim.
Insisto, marco encontro e ele ignora. Tenho certeza de que me ama e precisa de mim tanto quanto eu dele. Fico dias em casa disponível e elegante, a esperar o homem que invadiu minha vida, entrou pelo meu corpo. Eu sou dele e ele é meu. Jamais desistirei. Prefiro matá-lo a deixar com a mulher que não o merece, que não o valoriza como eu.
Tudo isso eu já disse para a secretária eletrônica. Estou cansada de esperar. Agora vou agir. Devo ir ao seu encontro qualquer noite dessas.
Finalmente, esperei por ele num cantinho da garagem e, quando ele se aproximou do carro, atirei nele com a mesma arma que a mamãe usou para se matar. Perdi os sentidos.
Quando acordei, estava num lugar horrível. Parecia uma masmorra. Bruno ao meu lado, riu e falou: “Sua louca. Você nem pontaria tem.”
Bruno saiu para sempre da minha vida.
Por que ele está fazendo isso comigo?!

sexta-feira, 19 de junho de 2015

JÁ NÃO SE FALA EM AMOR

                                              JÁ NÃO SE FALA EM AMOR

         Desde sempre, foi o meu preferido. Estranho, já que eu odiava seu pai. Quando pequeno Flavio vivia em conflito entre o amor por mim e as divergências que tinha com o pai por isso. Ele me chamava de “velha bruxa” e a ele traidor, por gostar de mim. Enquanto eu dizia que nós éramos criaturas de Deus, o pai afirmava que tudo isso era bobagem, mentira. “Cadê esse Ser? Onde Ele está? A velha caduca já lhe mostrou?”
         Um dia o menino me pediu: “Vó, me leva pra conhecer Deus”?
         A solução que encontrei foi levá-lo até a Igreja Católica, cheia de imagens e dizer: “Só posso te mostrar retrato Dele. Ele é como o vento. Está presente aqui e em toda parte. Mas nós só podemos senti-lo, não vê-lo.
         – Mas eu não sinto nada. – Respondeu.
         Nesse momento acho que perdi sua credibilidade. Ele era bom, mas tinha um gênio forte e, zangado, era um terror.  Algumas pessoas diziam que parecia o pai. E eu sempre replicava: “não tem nada a ver”. Quando ele se acalmava, eu lhe perguntava: “Por que você faz isso, meu querido”?  “Sei lá, Vó...”.
Nossas conversas eram diferentes das que eu tinha com os outros netos ou sobrinhos. Suas preocupações me surpreendiam.
         – Vó, será que algum dia uma mulher vai me amar? – Deus existe mesmo?             
– Claro, meu filho! Você é bonito, inteligente, vai ser amado e também vai conhecer Deus. – Eu garantia.
         Quando os irmãos mais velhos estavam conversando sobre suas farras, contando quantas mulheres beijaram ou “ficaram”, ele, com a voz meio rouca, meio aguda dos adolescentes, perguntava: “Nessa casa não tem ninguém que fale em amor? Só ficar, amassar, beijar...”
         Cresceu muito rápido. Magro, com pernas compridas e andar desengonçado. Agradava às garotas.
         Um dia, apaixonou-se por uma menina baixinha, filha única de pais harmônicos e requintados, que estudava canto lírico. Mas, depois de conhecer Flavio, só cantava e dançava forró. Os seus pais reclamaram e ela feliz respondeu: “foi o Flavio quem me deu o disco e está me ensinando a dançar forró”. Eles riram. Sua menina estava apaixonada.
         E os dois pouco a pouco aprendendo a amar. Beijos roubados, abraços apertados, e um sentimento maior do que eles nascendo e crescendo. Deixavam os livros e ficavam horas no celular ou na internet. Eles já não estudavam, só escreviam palavras apaixonadas.
         Ele romântico, guardou sua mesada para comprar alianças de prata, símbolo do seu namoro.
         E a paixão foi tomando conta deles. A cada novo encontro, seus corpos precisavam mais e mais, um do outro. Beijos intensos, carinhos abusados, escondiam-se no quarto fingindo estudar. A mãe dele gritava: “Saiam daí e venham estudar na sala”. E longe da garota dizia: “Cuidado, não estrague a vida de vocês. Não precipitem um casamento cedo demais”.
         Na casa de Nina, o pai, cheio de cuidados, dava conselhos. “Vocês são muito jovens e devem estudar. Deixem o namoro para os fins de semana.” Pressionados, eles resolveram esperar que os pais dela dormissem e, silenciosamente, a menina abria a janela e passavam as noites juntos se acariciando, um explorando o corpo do outro de maneira ousada, íntima. Depois, cansados, suados, mas satisfeitos, dormiam abraçados. Logo que o dia clareava, ele fugia com os sapatos na mão, e um sorriso no rosto.
         Com tão grande amor, o garoto mais seguro e vaidoso viu as garotas interessadas nele. Nina ciumenta, bisbilhotava o celular, o quarto e até os bolsos dele. E tiveram a primeira briga. Nina conheceu o outro Flavio. Aquele que se tornava violento e perdia controle. Fizeram as pazes. Outras noites de amor e sexo viveram.
         A mãe dele descobriu as fugas noturnas do garoto. O pai dela pegou os dois no quarto. Mandou a filha estudar música lírica na Itália. Ele se juntou aos irmãos e primos para contar com quantas meninas “ficou” e quantas beijos.

         E não falou mais em amor.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

ELUCUBRAÇÕES

                                                             ELUCUBRAÇÕES  

              Então Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”.
            Criou o homem, a mulher e tudo que haja sopro de vida
            “CREDO QUI ABSURDUM”           Santo Agostinho. 
            A vida é direcionada  pela energia, essa força indomável, impulso incontrolável, que nos convida a novos sonhos e alegrias indescritíveis.
            Outras vezes a vida nos arrasta e leva a lugares ermos e sombrios.  E tentamos recuperar a força perdida observando a natureza, olhando o nascer do sol todas as manhãs e seu desaparecimento todas as tardes, o mar com suas ondas oscilantes entre baixas e altas, as montanhas e planícies, as mudanças das condições atmosféricas, a densidade das nuvens que trazem chuva necessária  a transformação de minúsculas sementes em grandes árvores,  a lua cheia  e as estrelas que clareiam o céu, e nos mostram toda a beleza do universo, nos ajudando a perceber a beleza da natureza e aprender a viver e esperar  os diferentes  estágios da vida.
Difícil mesmo é compreender os misteriosos  contrastes entre o bem e o mal, em luta constante. Aceitar o sofrimento que vem para todos, no entanto, forja grandes santos e terríveis facínoras.
No convívio com as pessoas  percebo a infinita variedade de sentimentos e reações, multiplicidade de sonhos e ambições. E cada um reage de maneira surpreendente ante o sucesso ou decepção. 
Vida é, sobretudo,  o palpitar do coração, não o órgão  vital do corpo físico, mas aquele que toca os sentimentos e alegrias.  
É impossível penetrar  nos sentimentos íntimos, nos pensamentos mais profundos dos outros.
E eu, buscando nas teorias dos sábios, nas explicações  filosóficas , religiosas ou científicas, tentando descobrir  o porquê  de nossa passagem, as vezes rápida, outras longas, pela terra.
Será que somos a imagem e semelhança de Deus? Ou Deus não passa de imaginação do homem? Ele é igual ao que cada  um pensa Dele?  Ora, sendo cada homem único, e todos diversos, quantas imagens Dele existem?
Alguns dizem: “Deus é rigoroso e castiga sempre. Seja pelos nossos erros, seja pelos pecados de nossos antepassados. E citam a bíblia.  “Os filhos pagaram pelos erros dos pais”. Ou ainda “somos castigados por  causa do pecado de Adão e Eva.”
Para outros, Deus é benevolente, chega a ser permissivo – “tudo o que eu fizer, Deus  é pai e vai me perdoar. Basta que eu faça uma penitencia, dê uma esmola e ficarei branco como a neve”. Ou ainda – “ Deus é justo. Dará prêmios ou castigos, dependendo de nossas atitudes.
Pergunto a um kardecista sério e convicto se é possível a reencarnação. Se voltamos sempre para pagar culpas infindáveis.
Existem aqueles que, observando a natureza, enxergam o Criador e o chamam de “Arquiteto do Universo”.
Encontrei alguns que  garantem experiência com Deus  através da dor, do amor, de um milagre de cura. Outros sentem sua presença nos momentos mais difíceis de suas vidas.
Sua face pode ser diferente para cada pessoa. E cada um tem uma maneira  pessoal e única, de entrar em contato com Ele.
E os guias espirituais estão convictos de que conhecem a verdade.
Alguns têm experiência com Deus através da dor, do amor, de um milagre, de uma cura. Outros sentiram Sua presença nos momentos mais difíceis da vida.
Sua face pode ser diferente para cada pessoa. E cada um tem uma maneira  pessoal e única de entrar em contato com Ele.
Para alguns a vida é fortalecida pela fé e pelo sonho.
Fé sem razão lógica, que os conforta e lhes dá força. E sonho que os ilumina e os transformam em gigantes.
Alguns dizem que ao deparar com a realidade encontram o desencanto. O sonho perde o brilho e se amesquinha.
Afirmam que qualquer sonho é maior do que a realidade.
O desejado é sempre maior do que o realizado.  Nesse momento a realização do sonho parece com a vida de uma flor. Chega ao seu esplendor, logo murcha.
E os maus temem o inferno? Existirá fogo para queimá-los?
Tudo é um mistério insondável. E nós, o que  somos.
 Precisamos acreditar.  A vida é fortalecida pela fé e pelo sonho. Fé sem lógica, que nos conforta e nos dá força.  Sonho que ilumina e nos transforma em gigantes.

Vida é também o ato sexual. É o prazer para homens e mulheres que possibilita o nascimento de bebês que perpetuam a espécie. E devemos agradecer à vida que está sempre nos convidando para novos sonhos. São neles que encontramos a razão de viver enquanto perguntamos: O céu, como será? Precisamos acreditar nele para temos uma próxima meta. A última esperança.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

TRISTE MANHÃ DE DOMINGO

                                         TRISTE MANHÃ DE DOMINGO
            Ainda me lembro daquela manhã de domingo. Meu irmão e eu fomos à grande cachoeira. O céu cinzento prenunciava chuva, mas isso não tinha importância.
          Josué sentia-se responsável por mim e tudo fazia para minimizar os sofrimentos causados pelas violências de papai, sempre gritando e batendo em quem encontrasse pelo caminho. Nesses momentos mamãe procurava um lugar onde pudesse ficar escondida, com os olhos fechados e em silêncio, tornar-se invisível. Ela já sofrera tanto que não lhe restava coragem para enfrentar o marido e defender seus filhos. Mas nós, não conseguíamos compreender nem perdoar sua omissão, e a cada vez, suas mágoas cresciam.
            Josué trabalhava na roça fazendo as tarefas designadas pelo papai, e escondido, fazia também o que ficava ao meu encargo. Orgulhoso, dizia que sua irmãzinha mais nova estudaria para ser doutora, enquanto ele seria homem da terra. Eu seria intelectual e ele roceiro. Assim, eu podia fugir para estudar, enquanto ele trabalhava por nós dois.
            Quando eu voltava sempre correndo da escolinha, só tinha tempo para sujar as mãos e a roupa e não ser descoberta. Em casa nos esperava uma sopa aguada e sem gosto que mamãe nos servia. Algumas noites dormíamos tranqüilos, outras, quando o meu pai chegava bêbado, íamos  para a cama com as roupas rasgadas e os corpos marcados pela fivela do cinto. 
            Nos fins de semana, quando papai saía para as costumeiras farras, nós dois sumíamos pela mata. Josué, como todos da redondeza, usava um chapéu de palha, um short gasto e um chinelo velho nos pés. E, longe de tudo e de todos, sonhava ser dono de terras onde haveria muitas cabeças de gado, grandes plantações, e uma conta no banco, crescendo a cada mês. “Ainda serei o maior fazendeiro de todo o estado”, garantia.
            Eu construía um mundo de sonhos em torno de mim. “Não vejo a hora de sair dessa terra miserável. Juro que nunca mais pisarei os pés aqui. Serei uma advogada famosa, ganharei todas as causas e os milionários vão implorar pelo meu trabalho.”
            Num domingo acordamos mais tarde, e meu pai já tinha saído. O que foi motivo de alegria para nós. Depois de um pequeno café com pão dormido, seguimos para o mato em busca da grande cachoeira. Nós adorávamos sentir as águas caindo com violência nos nossos corpos e depois corrermos para o rio. Estava anoitecendo e tínhamos que voltar para casa onde só havia tristeza, gritos e pancadaria.
            No caminho, vimos papai se aproximando. Chegou com voz macia e um sorriso nos lábios. Fato inédito. “Divertiram-se muito nesta água fria?” perguntou com a voz pastosa dos bêbados. “Você já está no ponto certo de ser minha.” Acariciou os meus cabelos e continuou: você fica linda com esse maiô.
            Jamais esquecerei aquele cheiro que ele exalava enquanto tirava cada peça de roupa do meu corpo até me deixar nua.
            E eu lutando para fugir daquelas mãos imundas, daquele hálito fedorento e dos afagos imorais. Lutei muito, mas ele me rendeu. E ali mesmo na areia, deitou-se sobre mim enquanto dizia: “Você me pertence. Eu lhe dei casa, comida e tudo mais que você tem. Não será de outro homem”.  Senti ardor e o sangue quente saiu de mim.
            Meu irmão veio por trás com uma enorme pedra, e usando toda a força de que era capaz, bateu na cabeça dele. Juntamos nossas forças e lavamos o corpo inerte para a cachoeira. A água o levaria para longe e ninguém jamais descobriria o motivo do sumiço daquele tarado. Assim pensamos. E nós seriamos felizes para sempre.
Dias depois, um corpo rígido, com o rosto azulado foi encontrado, do outro lado do rio. E não sei como, nem por que, todos me culparam. Os vizinhos me chamaram de assassina. Queriam que eu assumisse o crime. E minha mãe diante da morte do marido, permaneceu naquela eterna luta de silêncio. Só podia ser um pesadelo. Eu, de vitima, fui transformada em assassina fria e implacável.
Diante das evidencias, meu irmão decidiu contar a verdade. Mesmo assim, continuaram me acusando. Ele era um bom menino, um filho obediente e foi por minha causa que agrediu o pai.  A responsabilidade continuava sendo minha.
Machucada, humilhada, parecia que tinha uma caixa negra dentro do cérebro, que se abriu e me fez lembrar todas as maldades e sofrimentos que a vida me deu. E não havia nenhuma luz, um único momento de prazer, uma palavra sequer de elogio, e de bondade. Fui escorraçada por todos, obrigada a fugir da minha casa, da cidade onde nasci e de minha gente. Não tinha mais irmão nem mãe.
Passei anos sem ter contato com o que restava da minha família. Eles não sabiam de mim e eu não tinha qualquer notícia deles. O que mais me doía era a falta do meu irmão. Mas em lugar de tristeza, eu sentia um ódio tão grande, de tudo e de todos, que me sufocava, e não me deixava chorar.

Um dia, a justiça dos homens me encontrou e me condenou. Mas sei que a justiça de Deus foi feita.

PALAVRAS DESASTROSAS


                                                     PALAVRAS DESASTROSAS

Bonito e cheio de charme, filho do único médico da pequena cidade do interior, desde muito cedo se divertia com as operarias da fábrica. Em cada baile, usando nomes diferentes, levava uma garota para trás da igrejinha e se dizendo apaixonado, ou enfeitiçado, as seduzia. Depois, com alguma desculpa, deixava a menina esperando por ele e fugia feliz e realizado para sua casa.
            Quando foi para a faculdade, logo seduziu e engravidou uma colega. Ele brincando, ela apaixonada.  Os pais intervieram, e o casamento foi realizado. Mas o jovem continuou indiferente aos sentimentos da mulher que o amava, e a cada ano e lhe dava um filho.
Depois da sua formatura, eles ficaram mais distantes do que nunca. Ele sempre ausente, usava a desculpa dos árduos trabalhos, dos inúmeros plantões.
E foi num plantão verdadeiro, que sua vida mudou. Ele foi chamado para socorrer um homem enfartando. A ambulância parou defronte a uma casa maravilhosa, e o doutor foi recebido por uma mulher, que pela primeira vez, fez seu coração bater acelerado; era a mais charmosa, a mais bonita e elegante que ele já vira.
E a cada nova visita, seu desejo aumentava, e o interesse dela crescia. Passou a visitar o paciente durante o tempo necessário, e depois dele curado, laços de amizade já tinham sido criados.
O médico já sabia que o filho dele era militar e trabalhava em Brasília. A nora preferiu ficar com o velho sogro, porque detestava a Nova Capital.  O marido passava com ela todos os fins de semana.
Finalmente, numa quinta feira chuvosa e úmida, o médico conseguiu levar Rosa, a sua então amada, para jantar num acolhedor restaurante.
O frio estava forte propiciando aconchegos, beijos e abraços. Ela solitária, ele exímio sedutor, terminaram a noite no único motel da cidade. A princípio cautelosos e as escondidas viviam sua paixão.
Mais tarde, ele que tinha sido dedicado ao velho sogro, tinha passe livre para visitar sua amada a qualquer hora.  E sempre que convidava para um almoço, lanche ou jantar, o rapaz estendia o convite ao dono da casa. Mas o velho sempre estava indisposto, e incentivava a nora a ir com o gentil médico que o salvara.
E assim, a paixão e a ousadia foram crescendo. Agora o amante já entrava sorrateiramente, quando todos dormiam. E saía em silencio, com os sapatos na mão, quando o dia clareava.
Rosa foi a única mulher que, realmente, tocou o coração do Dom Juan e fazia seu corpo queimar de paixão. Ele estava verdadeiramente arrebatado.
Nos fins de semana, quando o marido dela chegava, era um martírio. Sentia um ciúme doentio e um desejo incontrolável de vê-la, pegar nela, sentir seu cheiro. Agora conhecia a dor e a alegria de estar apaixonado. Só lhe importava Rosa. Passava horas esperando por novos encontros. E descarregava seu mau humor, sua ansiedade na mulher e nos filhos.
Numa noite, embriagado de uísque e paixão, ele disse, inadvertidamente, no ouvido de Rosa: “Você é a mulher mais gostosa e mais quente que tive. Só vi fogo maior do que o seu, numa moça de programa que eu conheci, no Leme”. Ela olhou para ele, bêbado, esticado na cama, levantou-se, vestiu-se e foi embora para sempre.

Ele com o coração vazio e a alma cheia de remorso, vivia com a lembrança dela. Fantasma da ausência e da perda.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

AMOR DE OUTRAS VIDAS

                                   AMOR DE OUTRAS VIDAS

Como me foi recomendado, cheguei ao Rio num sábado e Pedro, meu irmão, estava me esperando na rodoviária         . Entramos num taxi e fomos para seu pequeno apartamento em Copacabana.
Minha alegria era tão grande que nem respondia às perguntas que ele me fazia sobre nossos pais e irmãos que ficaram no interior. Só tinha olhos para as ruas largas, as pessoas bonitas e bem vestidas que passavam pelas calçadas, e me extasiava com prédios enormes, um ao lado do outro.
Tudo era diferente da pequena cidade onde nasci e de onde nunca tinha saído antes.
Por fim, chegamos perto do mar. Era maior do que qualquer rio que eu já vira em toda a minha vida. Meu coração batia acelerado, e foi-se qualquer sentimento de culpa por ter abandonado meus pais.
Agora aproveitaria cada minuto que o destino me deu para aproveitar a juventude que me restava. E, por um momento, me vi bela, jovem, cheia de possibilidades de amar e ser amada.
Quando subimos no elevador do edifício onde meu irmão morava, agarrei no seu braço. E ele me olhou de maneira carinhosa, e riu. O apartamento era pequeno, mas chegava para nós dois.
Pensei na casa espaçosa, no quintal grande e cheio de árvores que deixei. Mas logo afastei essas lembranças. Não queria ter saudade de nada nem de ninguém.
Logo nos primeiros dias eu saía todas as manhãs para comprar pão, leite, ou qualquer objeto que me fizesse conhecer mercearias, açougues ou quitandas, ver pessoas, comparar preços e fazer amizades.
Sempre voltava para casa com pão quentinho, e debaixo do braço, um jornal, para ver anúncios de empregos que me parecessem interessantes.
Pedro, no entanto, insistia para que eu procurasse ver os editais para concurso público, ver o programa e estudar para as provas.
Encontrei um anúncio de emprego num hospital. Exigiam ensino médio e fui de professora para um trabalho gratificante: cuidar de doentes. Passei nas provas, mas me colocaram na secretaria. Fiquei decepcionada, pois preferia cuidar das pessoas.
Depois de alguns meses aluguei um pequeno apartamento no subúrbio. Fiquei independente, embora acordasse cedo e ainda estava escuro quando eu saia para o trabalho. Quando voltava já estava anoitecendo. Tirava de um velho filtro água quase morna para beber, e num fogão enferrujado fritava ovos e comia com pão. A solidão e o desconforto eram tão grandes que já sentia saudade da casa simples, que deixara para trás.
Numa tarde quente de verão ouvi o estrondo de carros batendo e logo entrou no hospital um homem muito machucado. O encaminhei para os primeiros socorros. Depois não parei de pensar nele. Lembrava de cada gesto seu, do rosto sujo de sangue, dos cabelos despenteados, dos olhos castanhos apavorados. Tudo nele me parecia familiar. Será que eu o conhecia de outras vidas?
Naquela noite, depois de fazer minhas orações, tive certeza de que já tínhamos nos encontrado.
Alguns dias depois, quando ele voltou para tirar os pontos, meu coração disparou, minhas pernas ficaram bambas e minha voz trêmula. Em pouco tempo já sabia o seu nome e telefone.
Criei coragem, liguei para Edmundo e marcamos um encontro defronte ao hospital.
Depois do expediente fomos ao cinema e tomamos sorvete.
E aos quarenta e dois anos tive meu primeiro encontro, o primeiro namorado, o primeiro homem que se interessava por mim.
Feliz eu vivia nas nuvens pensando em vestidos, sapatos e salões de beleza para cuidar dos meus cabelos e das minhas unhas. Comprei perfume só para ouvir meu amor dizer: “um, que cheiro gostoso você tem!”
Edmundo era assim. Dizia palavras amorosas, falava comigo baixinho, me beijava e abraçava. Eu sentia um calor no corpo todo e um formigamento nas partes íntimas. Eu vivia um sonho, sonhado toda a minha vida.
E meus colegas estavam espantados com minha transformação.
Edmundo me convidou para visitar a irmã, única pessoa que restava de sua família. Ao chegarmos à sua casa ela tinha sido chamada para uma emergência. Ficamos sozinhos e ele se mostrou gentil e carinhoso. Ofereceu cerveja bem geladinha. Bebi e gostei.
Logo estávamos nos acariciando intensamente. Eu excitada querendo mais e mais. Fomos para seu quarto e ali ele me fez mulher. Jamais esquecerei o que vivi; maravilhoso, indescritível.
Ao voltar para casa, senti remorso. Afinal ainda não éramos casados. Rezei e pedi perdão a Deus.
Voltei a cada convite dele. Gostava de sua companhia em qualquer lugar. Mas preferia quando me levava para a casa da irmã e fazíamos amor. Aqueles momentos me tiravam a razão e me levavam para o céu.
Nas tardes de domingos e feriados, juntos planejamos uma vida cheia de amor. Jamais conheci tanta felicidade.
Nunca estive tão distante de minha família e de Deus.
Edmundo e eu abrimos uma conta conjunta para comprar e mobiliar um apartamento só nosso. E fomos ver a pequena capela onde ele sonhou casar comigo.
E eu trabalhava mais e mais para esse dia chegar logo.
Ele também fez horas extras, para apressar o dia em que pudéssemos viver juntos e abençoados pelo casamento.
Eu lhe disse que já tínhamos dinheiro suficiente para realizar nosso sonho, mas ele não me pareceu interessado e mudou de assunto. Talvez estivesse com alguma preocupação.
Quando eu insistia em marcar a data do casamento ele se irritava.
E eu continuei depositando no banco todo o meu ordenado.
Num fim de semana Edmundo não apareceu. Telefonei para sua casa e ninguém atendeu.
Fui à missa e rezei pelo nosso amor.
Na semana seguinte ele desapareceu. Por mais que ligasse para o número dele, ninguém atendia.
Tive um mau pressentimento e fui ao banco. Nossa conta estava zerada. Corri para casa com o coração acelerado, doído, e lágrimas escorrendo pelo rosto.
Tive uma crise muito séria da qual não me lembro. Fiquei meses em um hospital de doentes mentais.  Não me recordo de nada que vivi nesse tempo.
Depois voltei para a casa dos meus pais e continuo tomando anti deprecivos e calmantes que me dopam.
Por mais que tente não pensar nele e no que vivemos juntos, sua lembrança chega e me invade.
Tiro do armário o seu retrato, olho para seu rosto, me masturbo e gozo.

Depois, cheia de culpa, passo a noite rezando para Deus me perdoar.

MISTÉRIO DESVENDADO

                               
            Naquele enorme prédio, no centro da cidade, onde trabalhamos nos últimos anos, transformara-se num lugar de pavor.
            Os empregados da noite estavam estressados e já não conseguiam tirar aqueles cochilinhos de antigamente.
 E quando os funcionários diurnos chegavam, sempre ouviam a mesma história.
            “ Tem alma penada aqui. Durante toda a noite  ouvimos gritos e muitas vezes gemidos até o amanhecer”.
         As reclamações seguidas fizeram com que o Diretor chamasse policiais para vasculhar salas, corredores e banheiros.
         Alguns entravam no clima de horror, outros mais durões negavam a existência de almas penadas, embora admitissem 
ouvir estranhos barulhos. Mas, não chegavam a nenhuma conclusão.
         E o encanto, ou desencanto, continuou por todo aquele ano...
         O fato inusitado foi para a pauta da última Reunião do Conselho, naquele fim de ano.
         Causou risos de uns, preocupações de vários, mas, ninguém resolveu o problema. Os vigias que ali estavam na noite de Natal, Ano Novo e carnaval, tiveram como companhia aqueles sons estranhos. Alguns até, se acostumaram com os ruídos misteriosos.
         No ano seguinte um novo Diretor assumiu e outros funcionários tomaram novos cargos em diferentes salas equipadas e, cada vez mais luxuosas.
         Por algum motivo o Diretor ficou até tarde terminando algum processo. E lá estava quando os sons recomeçaram.
         Sem fazer alarme, sozinho, resolveu desvendar aquele enigma. Vasculhou cada sala, sem nenhuma inibição, abriu gavetas, olhou os banheiros e armários.
         Inconformado, entrou no elevador e fez vistoria em cada andar.
         A noite já invadida pela tênue clarão do dia, quando exausto ele sentou na poltrona, descansando de sua infrutífera busca.
         E, foi mais para ver o espetáculo do nascer de um novo dia que ele saiu pelas calçadas desertas.
         Qual não foi a surpresa, quando logo embaixo da janela da sala onde passara a noite, dois homens sujos e mal cheirosos, em movimentos ritmados, gemiam, trocavam beijos e palavras de amor.
         O executivo parou ao lado deles.
         Como que voltando de longe, um homem se aconchegou, enquanto o outro dizia: “calma, eu não vou deixar que ele toque em tu. A parada é comigo”.
         E voltando-se para o intruso, como quem quer sair no soco, disse: “bata em mim. A parada é comigo. Deixa minha mulher em paz”.
Suas próprias satisfações os deixavam fora de qualquer intromissão. Não viam nem ouviam nada. 
          E foram com seu odor e suas mãos entrelaçadas em busca de um novo ninho de amor.
         Realmente, para o rico empresário, era uma situação imprevisível.
         No dia seguinte, o descobridor do mistério convocou todos os funcionários para uma reunião extraordinária.
Decifrar e resolver o problema dos barulhos misteriosos, foi um alívio para aqueles que sofreram noites de pavor.
         E assim, as noites na Empresa tornaram-se silenciosas e cheias de tédio.

          

quarta-feira, 8 de abril de 2015

CONFIÇÃO

CONFIÇÃO

            Zuleica, moça recatada, temente a Deus e seguidora de Seus mandamentos, apaixonou-se pelo homem inacessível.
            Sua vida transformou-se num inferno, onde a luta entre o bem e o mal, poderia levá-la para o céu ou inferno.
                Morava com a irmã casada, e estava apaixonada pelo cunhado. Nunca teve certeza de ser correspondida. Mas, enquanto sua irmã vivia atarefada, cuidando dos filhos, ela o mimava de todas as maneiras, e trabalhar para ele não era pecado. E, a cada agradecimento, a cada palavra gentil, demonstração de afeto ou elogio que ouvia dele, era como se fosse a maior e melhor declaração de amor e aumentava a esperança de tê-lo conquistado. Tudo isso era acompanhado pelo medo de cometer pecado e merecer a condenação após a morte.
            Trabalhar para ele não era pecado, por isso ela satisfazia sua gula, cuidava de sua roupa, enquanto a irmã vivia atarefada com os filhos pequenos. E a cada agradecimento, a cada elogio que ouvia era como se fosse uma declaração de amor.
            Nas noites  quentes, quando seu corpo queimava como brasa, ela fechava os olhos e se acariciava pensando nele e o sentia entrando nela.
Sim, ele era seu. Só ficava com a irmã por causa dos filhos. Era bom e não fugiria da responsabilidade de pai.
            No inverno, debaixo de cobertores, imaginava-se em seus braços, aquecida por ele. Muitas vezes, ao acordar, tinha certeza de que ele estivera ali, na sua cama.
            Corria à Igreja, e,  no confessionário, dizia ao Padre Fred que passara a noite com o cunhado. Chorava, cumpria a penitência e voltava para casa com o sincero propósito de deixar seu homem para a irmã e sobrinhos. E Deus a perdoaria.  Mas, a noite sonhava com o corpo dele sobre o dela.
Durante o dia pensava nele e fantasiava um grande amor.
            Os anos passavam e, com eles, sua juventude. Mas nunca desistiu de viver essa relação impossível.
            Um dia sua menstruação atrasou. Talvez, entrando no climatério, ou quem sabe, fosse um descontrole hormonal. Ela, no entanto, se convenceu de que estava grávida e foi à Igreja pedir conselhos. E perguntou ao Padre:  - Devo fazer aborto para salvar a reputação do home a quem adoro?
- Claro que não! É um pecado mortal e você vai para o inferno – disse o pároco.
- Devo confessar tudo a minha irmã? – insistiu.
- Assim como confessou a mim. – respondeu o homem de Deus.
Á noite, quando Silvio chegou,Zuleica disse que precisava conversar com o casal.
- Pode ser depois do jantar? Estou morto de fome.
- Claro. Mas essa história tem que ser resolvida hoje.
            Depois que as crianças foram dormir, os três reunidos defronte a televisão, Zuleica olhou para a irmã e disse de um fôlego só: “Estou grávida do seu marido”.
            A mulher paralisada, só olhava de um para o outro.
            Silvio assustado com a estapafúrdia confissão, voou na direção da cunhada gritando – Como? Você enlouqueceu? Jamais a vi como mulher.
Olhando desesperado para a esposa, continuou. – Se ela está grávida, o que duvido, não é de mim. Juro pelos meus filhos.
            Zuleica continuou delirante: -  Você me visitou tantas vezes nesses anos todos...
            Descontrolado e violento, Silvio desferiu uma bofetada, do tamanho de seu ódio, e deixou-a caída no chão.
            A cunhada levantou-se, e, com os olhos cheios de lágrimas, fugiu para a rua. O carro que passava em alta velocidade bateu nela, não lhe dando tempo para dizer a verdade.

            E Zuleica foi confessar a Deus sua culpa

ELA CHEGA ANTES DE MIM

                             ELA CHEGA ANTES DE MIM
           
            Jamais saberei o que alguns parentes e amigos que me chamaram, dizendo precisar falar comigo, dizer alguma coisa, antes de fazerem suas passagens.
Teriam algo importante para dizer, ou apenas gostariam de se despedir?  
Jamais terei respostas. E, nos momentos melancólicos, de falta, de saudade, isso me incomoda e me frustra.
Tinha doze anos quando me deparei, pela primeira vez com a morte.
 Era domingo, acordei tarde, e saí correndo para chegar a tempo de assistir a missa.
Quando passei defronte o quarto de minha mãe ele me chamou e disse que precisava falar comigo.
Respondi que estava atrasada e nós conversaremos quando eu voltar.
Depois da missa, quando estava chegando a casa, vi uma ambulância defronte o portão. Entrei esbaforida e soube que ela estava morta.
Alguns anos depois, volto a minha terra, já casada e com o primeiro filho.
Dedé, a dedicada baba de todos nós, soube que eu estava na cidade e mandou o antigo jardineiro me pedir para ir até seu barraco, pois precisava muito conversar comigo. Precisava me ver e de minha ajuda. Estava doente e abandonada por todos. Fiz uma cesta com produtos de limpeza e muitos alimentos.
Numa terça feira, de carro emprestado, jardineiro ao lado, segui para ver a querida babá de todos nós.
No caminho o carro quebrou.
Entreguei os presentes ao empregado, apanhei um taxi e voltei em busca de um mecânico.
As férias terminaram, viajei e não pensei mais na velha e devotada empregada.
Dez dias depois soube de sua morte.
Tempos depois, sonhei com o meu tio que foi importante na minha vida. Já não nos víamos há anos.
Pareceu-me velho e diferente do homem da minha infância e adolescência.  E me disse (no sonho) “venha buscar os móveis da sala que deixei para você”.
Liguei  para ele e fui atendida pela minha prima, sua filha. Ela me disse que ele estava cego e demente. Mesmo assim, pedi para colocá-lo no telefone. Quando lhe disse meu nome ele me chamou de Bagozinha, apelido de infância,  em seguida disse: “gosto tanto de mulher!”. Ri e prometi ir vê-lo.
Nem cheguei a comprar a passagem. Três dias depois ele morreu.
Mais uma vez a Morte me passou o pé.
Salete, a mais antiga amiga que a vida me deu. Com ela patinei, andei de bicicleta e patins. Nossos brinquedos ficavam juntos, e não havia o meu ou o dela.
 Nós nos separamos e nos encontramos depois de muitos anos em Brasília. 
Já casadas, tivemos filhos no mesmo dia e tudo nos reunia.
Fui morar no Rio e ela ficou em Brasília.
Um dia, a caminho de S. Paulo, ela me visitou no Rio. Contou que estava lutando contra um câncer.
Depois de alguns meses, soube que ela estava em fase terminal e tinha pedido para falar comigo.
Telefonei, mas ela estava confusa, acabando de sair da UTI e insistiu: “eu preciso muito falar com você. Preferia que fosse pessoalmente. Quando você vem a Brasília?”
Insisti para que me dissesse o que ela queria me dizer. Respondeu que naquele momento estava confusa e com muitas dores.
Prometi visitá-la.  Até porque dias depois seria o aniversário da minha neta, e eu planejara está presente.
  Na manhã seguinte, viajei às pressas para assistir o enterro da minha querida amiga. E chorando muito ao lado de sua irmã, falei: 
Ela disse que me amava muito e eu tantas vez falei mal dela...
“Não chore. Ela também falava mal de você.
Instantaneamente, as lágrimas secaram.
E pensei: “mais uma vez a morte chegou antes de mim”.
Algum tempo depois, vi meu pai em sonho, dizendo: “Sabe, aquela carta que você me escreveu foi profética. Luiza, minha mulher, está me fazendo sofrer tudo que você me disse que eu sofreria.
Dias depois, voei para Fortaleza e lá assisti o seu enterro.
Morando no Rio, voltei a Brasília para cumprir meu dever de cidadã brasileira, votando no político em quem acreditava.
Recebi um telefonema da Sandra, filha da minha prima mais querida dizendo: “mamãe está com câncer e lhe chama o tempo todo, apesar de saber que você se mudou. Ela tinha certeza de que você estava aqui para votar. E está mesmo, venha nos visitar e ouvir o que ela tanto quer lhe falar”.
“Amanhã, depois de votar, vou almoçar com vocês” prometi.

Votei e fui para o velório da prima Kléa.