segunda-feira, 20 de julho de 2015

ORGULHO QUE DESTRÓI

                                              ORGULHO QUE DESTRÓI                               

                Quando a vi pela primeira vez eu tinha apenas quatro anos. Ela desceu do carro segurando uma frasqueira, caminhando como se deslizasse sobre uma esteira rolante. Seus olhos eram azuis e pintados,  que mais pareciam uma obra de arte, e dela exalava um cheiro de perfume desconhecido. Levava pela mão uma garotinha acanhada, mais ou menos da minha idade.
            Como se eu estivesse hipnotizada, corri ao encontro delas. Da mulher ganhei um olhar frio e desdenhoso, e um tímido sorriso de sua filha.
            Com o passar dos dias, Regina aproximou-se de mim e acabamos boas companheiras. Às vezes nos refugiávamos  no sótão do casarão para inventar histórias, ou juntas corríamos pelo quintal espantando as galinhas, subíamos nas árvores menores e acariciávamos meus bichinhos de estimação, ou simplesmente, quietas, uma ao lado da outra vendo o tempo passar.
            Quando sua mãe nos encontrava juntas a levava para longe de mim.
Decididamente eu não conseguia conquistar Dejanira, por mais que admirasse tudo nela. Eu ficava observando o jeito que passava um pincel fino nas bordas dos lábios e depois preenchia com um batom mais escuro. Outro pincel preto era usado para os olhos, e depois um aparelho que deixava os cílios curvos. Um dia ousei passar em mim suas pinturas. Fui apanhada em flagrante, levei uma palmada que deixou sua mão marcada em mim.
            Um dia seu marido chegou de surpresa, depois de um ano no exterior. Ela jogou-se nos seus braços chorando, enquanto ele a beijava rindo. Jamais esqueci  aquela cena que passou a ser para mim, a maior demonstração de amor.
            Vitor estava sempre de bom humor e misturando risos com uma tosse constante. Logo ficamos amigos e ele sempre me chamava para ouvir minhas  histórias. Não lembro o que eu contava mais sei que ele gostava. Outras vezes ele me colocava no colo, ao lado da filha. Sua mulher ficava irritada e saia para o quarto.
            Vitor minimizava dizendo: “meu colo é o meu coração cabem as duas.”
         No dia seguinte eu tinha que fugir das alfinetadas da mulher. Depois de algumas semanas eles viajaram e só fui reencontrá-los depois de muitos anos, já então, uma adolescente.
            Vitor chegou como comandante da Escola de Cadetes e Dejanira a mulher de uma autoridade, mas a pose era de uma rainha. Seu orgulho e prepotência eram insuportáveis e destilavam veneno.
            Eu continuei achando que ela era a mulher mais bonita e elegante do mundo, embora tivesse medo dela. Era implacável no falar e no agir. Inúmeras vezes a vi humilhar e diminuir as pessoas mais próximas.
            Sua meio-irmã nasceu cega e era a sua vítima predileta. Quando viu a viu tocando piano, ela disse: “não sei pra que o papai lhe deu este piano. Será que ele não vê que você é uma pobre cega, como pode aprender a tocar?”. A garota levou muito tempo para descobrir que podia ser um excelente pianista.
            Para Silvia, amiga de infância, depois de ouvir suas confidencias, ela disse: “Cai na real. Você acha mesmo que a mãe do João criado com tanto amor e cuidado, vai deixá-lo casar com a filha de um bêbado?” A garota chorou, e fugiu do rapaz.
            A amiga do colégio que confessou estar apaixonada por um primo seu ela disse: “Odete não educou o João para casar com a filha de um bêbado”
 A garota acreditou nela e voltou para o interior sem nem falar com o namorado.          
Quando Teresa, sua vizinha no tempo de infância, lhe disse está amando o Luiz, um conhecido de infância das duas, Dejanira quase gritando disse: Você esqueceu que é filha de uma louca?!
E a mulher bonita e amada não parava de humilhar e separar pessoas
A mim ele dizia, cheia de raiva: “você  tirou o amor do meu verdadeiro pai e roubou de minha filha os carinhos do avô”.
Regina transformou-se numa moça bonitinha, mas, tímida, apagada  e tinha dificuldade em atrair amigos e conquistar namorados. 
Para desespero da mãe e alegria do pai, continuamos gostando uma da outra.
Numa festa do melhor clube da cidade, onde todas nós pescávamos bons partidos, fui buscar a garota na mesa dos pais para se juntar a turma.
A mãe gritou: “minha filha, os rapazes te respeitam e a elas não”. A garota sentou-se ao lado dos pais e eu fui “ser desrespeitada”. Voltei para minha turma.
Quando conheci o rapaz com quem me casei, ela  disse: “cuidado, a aeronáutica é cheia de filhos de lavadeira. Esse interessado por você deve ser um deles”.
Tentei encontrar motivo para tanto ódio daquela mulher a quem a vida dera tudo. Não encontrei. Sua vida me pareceu um sucesso.
Um dia o pai morreu e a mãe, sempre encantada pela filha, decidiu passar todos os bens para o casal, únicos herdeiros.
A viúva se desfez da casa de Fortaleza e foi viver com a filha, neta e genro.
A última vez que os vi, estavam morando em Petrópolis.  Tia Antonia muito magra, arrependida da mudança e com saudade de sua casa.
A filha irritada, disse que a mãe estava sem comer para se fazer de vítima.
Regina segregou que encontrara um amor. Mas, a mãe implacável, tinha proibido seu casamento porque o rapaz era garçom do navio italiano em que o conhecera.
Mais tarde tia Antonia voltou para Fortaleza, onde morreu tuberculosa, sem dinheiro para comer ou comprar remédios. Seu enterro foi pago com uma coleta entre os parentes.
Logo Vitor, o sempre bem humorado e apaixonado marido, terminou seus dias, cheio de analgésico para suportar as dores de um câncer na cabeça;
Meses depois Dejanira descobriu um câncer no útero, que a levou em poucos meses.
Ao voltar do enterro da mãe Regina libertou-se de tudo e de todos.
Numa noite de sábado se arrumou, como gostaria de ter ido a uma festa, trancou-se tomou todos os comprimidos que encontrou, abriu todos os botões de gás.
E dormiu para sempre

  

 .          

Nenhum comentário:

Postar um comentário