segunda-feira, 25 de maio de 2015

PALAVRAS DESASTROSAS


                                                     PALAVRAS DESASTROSAS

Bonito e cheio de charme, filho do único médico da pequena cidade do interior, desde muito cedo se divertia com as operarias da fábrica. Em cada baile, usando nomes diferentes, levava uma garota para trás da igrejinha e se dizendo apaixonado, ou enfeitiçado, as seduzia. Depois, com alguma desculpa, deixava a menina esperando por ele e fugia feliz e realizado para sua casa.
            Quando foi para a faculdade, logo seduziu e engravidou uma colega. Ele brincando, ela apaixonada.  Os pais intervieram, e o casamento foi realizado. Mas o jovem continuou indiferente aos sentimentos da mulher que o amava, e a cada ano e lhe dava um filho.
Depois da sua formatura, eles ficaram mais distantes do que nunca. Ele sempre ausente, usava a desculpa dos árduos trabalhos, dos inúmeros plantões.
E foi num plantão verdadeiro, que sua vida mudou. Ele foi chamado para socorrer um homem enfartando. A ambulância parou defronte a uma casa maravilhosa, e o doutor foi recebido por uma mulher, que pela primeira vez, fez seu coração bater acelerado; era a mais charmosa, a mais bonita e elegante que ele já vira.
E a cada nova visita, seu desejo aumentava, e o interesse dela crescia. Passou a visitar o paciente durante o tempo necessário, e depois dele curado, laços de amizade já tinham sido criados.
O médico já sabia que o filho dele era militar e trabalhava em Brasília. A nora preferiu ficar com o velho sogro, porque detestava a Nova Capital.  O marido passava com ela todos os fins de semana.
Finalmente, numa quinta feira chuvosa e úmida, o médico conseguiu levar Rosa, a sua então amada, para jantar num acolhedor restaurante.
O frio estava forte propiciando aconchegos, beijos e abraços. Ela solitária, ele exímio sedutor, terminaram a noite no único motel da cidade. A princípio cautelosos e as escondidas viviam sua paixão.
Mais tarde, ele que tinha sido dedicado ao velho sogro, tinha passe livre para visitar sua amada a qualquer hora.  E sempre que convidava para um almoço, lanche ou jantar, o rapaz estendia o convite ao dono da casa. Mas o velho sempre estava indisposto, e incentivava a nora a ir com o gentil médico que o salvara.
E assim, a paixão e a ousadia foram crescendo. Agora o amante já entrava sorrateiramente, quando todos dormiam. E saía em silencio, com os sapatos na mão, quando o dia clareava.
Rosa foi a única mulher que, realmente, tocou o coração do Dom Juan e fazia seu corpo queimar de paixão. Ele estava verdadeiramente arrebatado.
Nos fins de semana, quando o marido dela chegava, era um martírio. Sentia um ciúme doentio e um desejo incontrolável de vê-la, pegar nela, sentir seu cheiro. Agora conhecia a dor e a alegria de estar apaixonado. Só lhe importava Rosa. Passava horas esperando por novos encontros. E descarregava seu mau humor, sua ansiedade na mulher e nos filhos.
Numa noite, embriagado de uísque e paixão, ele disse, inadvertidamente, no ouvido de Rosa: “Você é a mulher mais gostosa e mais quente que tive. Só vi fogo maior do que o seu, numa moça de programa que eu conheci, no Leme”. Ela olhou para ele, bêbado, esticado na cama, levantou-se, vestiu-se e foi embora para sempre.

Ele com o coração vazio e a alma cheia de remorso, vivia com a lembrança dela. Fantasma da ausência e da perda.

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