PALAVRAS
DESASTROSAS
Bonito e cheio de charme, filho do único médico da pequena
cidade do interior, desde muito cedo se divertia com as operarias da fábrica. Em
cada baile, usando nomes diferentes, levava uma garota para trás da igrejinha e
se dizendo apaixonado, ou enfeitiçado, as seduzia. Depois, com alguma desculpa,
deixava a menina esperando por ele e fugia feliz e realizado para sua casa.
Quando foi para a faculdade, logo
seduziu e engravidou uma colega. Ele brincando, ela apaixonada. Os pais intervieram, e o casamento foi
realizado. Mas o jovem continuou indiferente aos sentimentos da mulher que o
amava, e a cada ano e lhe dava um filho.
Depois da sua formatura, eles ficaram mais distantes do que
nunca. Ele sempre ausente, usava a desculpa dos árduos trabalhos, dos inúmeros plantões.
E foi num plantão verdadeiro, que sua vida mudou. Ele foi
chamado para socorrer um homem enfartando. A ambulância parou defronte a uma
casa maravilhosa, e o doutor foi recebido por uma mulher, que pela primeira
vez, fez seu coração bater acelerado; era a mais charmosa, a mais bonita e
elegante que ele já vira.
E a cada nova visita, seu desejo aumentava, e o interesse
dela crescia. Passou a visitar o paciente durante o tempo necessário, e depois
dele curado, laços de amizade já tinham sido criados.
O médico já sabia que o filho dele era militar e trabalhava em
Brasília. A nora preferiu ficar com o velho sogro, porque detestava a Nova Capital.
O marido passava com ela todos os fins
de semana.
Finalmente, numa quinta feira chuvosa e úmida, o médico
conseguiu levar Rosa, a sua então amada, para jantar num acolhedor restaurante.
O frio estava forte propiciando aconchegos, beijos e abraços.
Ela solitária, ele exímio sedutor, terminaram a noite no único motel da cidade.
A princípio cautelosos e as escondidas viviam sua paixão.
Mais tarde, ele que tinha sido dedicado ao velho sogro, tinha
passe livre para visitar sua amada a qualquer hora. E sempre que convidava para um almoço, lanche
ou jantar, o rapaz estendia o convite ao dono da casa. Mas o velho sempre
estava indisposto, e incentivava a nora a ir com o gentil médico que o salvara.
E assim, a paixão e a ousadia foram crescendo. Agora o amante
já entrava sorrateiramente, quando todos dormiam. E saía em silencio, com os
sapatos na mão, quando o dia clareava.
Rosa foi a única mulher que, realmente, tocou o coração do
Dom Juan e fazia seu corpo queimar de paixão. Ele estava verdadeiramente
arrebatado.
Nos fins de semana, quando o marido dela chegava, era um
martírio. Sentia um ciúme doentio e um desejo incontrolável de vê-la, pegar
nela, sentir seu cheiro. Agora conhecia a dor e a alegria de estar apaixonado.
Só lhe importava Rosa. Passava horas esperando por novos encontros. E
descarregava seu mau humor, sua ansiedade na mulher e nos filhos.
Numa noite, embriagado de uísque e paixão, ele disse,
inadvertidamente, no ouvido de Rosa: “Você é a mulher mais gostosa e mais quente
que tive. Só vi fogo maior do que o seu, numa moça de programa que eu conheci,
no Leme”. Ela olhou para ele, bêbado, esticado na cama, levantou-se, vestiu-se
e foi embora para sempre.
Ele com o coração vazio e a alma cheia de remorso, vivia com
a lembrança dela. Fantasma da ausência e da perda.
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