TRISTE MANHÃ DE DOMINGO
Ainda me lembro daquela manhã de
domingo. Meu irmão e eu fomos à grande cachoeira. O céu cinzento prenunciava
chuva, mas isso não tinha importância.
Josué sentia-se responsável por mim e
tudo fazia para minimizar os sofrimentos causados pelas violências de papai,
sempre gritando e batendo em quem encontrasse pelo caminho. Nesses momentos mamãe
procurava um lugar onde pudesse ficar escondida, com os olhos fechados e em
silêncio, tornar-se invisível. Ela já sofrera tanto que não lhe restava coragem
para enfrentar o marido e defender seus filhos. Mas nós, não conseguíamos
compreender nem perdoar sua omissão, e a cada vez, suas mágoas cresciam.
Josué trabalhava na roça fazendo as
tarefas designadas pelo papai, e escondido, fazia também o que ficava ao meu
encargo. Orgulhoso, dizia que sua irmãzinha mais nova estudaria para ser
doutora, enquanto ele seria homem da terra. Eu seria intelectual e ele roceiro.
Assim, eu podia fugir para estudar, enquanto ele trabalhava por nós dois.
Quando eu voltava sempre correndo da
escolinha, só tinha tempo para sujar as mãos e a roupa e não ser descoberta. Em
casa nos esperava uma sopa aguada e sem gosto que mamãe nos servia. Algumas
noites dormíamos tranqüilos, outras, quando o meu pai chegava bêbado, íamos para a cama com as roupas rasgadas e os
corpos marcados pela fivela do cinto.
Nos fins de semana, quando papai
saía para as costumeiras farras, nós dois sumíamos pela mata. Josué, como todos
da redondeza, usava um chapéu de palha, um short gasto e um chinelo velho nos
pés. E, longe de tudo e de todos, sonhava ser dono de terras onde haveria
muitas cabeças de gado, grandes plantações, e uma conta no banco, crescendo a
cada mês. “Ainda serei o maior fazendeiro de todo o estado”, garantia.
Eu construía um mundo de sonhos em
torno de mim. “Não vejo a hora de sair dessa terra miserável. Juro que nunca
mais pisarei os pés aqui. Serei uma advogada famosa, ganharei todas as causas e
os milionários vão implorar pelo meu trabalho.”
Num domingo acordamos mais tarde, e
meu pai já tinha saído. O que foi motivo de alegria para nós. Depois de um
pequeno café com pão dormido, seguimos para o mato em busca da grande
cachoeira. Nós adorávamos sentir as águas caindo com violência nos nossos corpos
e depois corrermos para o rio. Estava anoitecendo e tínhamos que voltar para
casa onde só havia tristeza, gritos e pancadaria.
No caminho, vimos papai se
aproximando. Chegou com voz macia e um sorriso nos lábios. Fato inédito.
“Divertiram-se muito nesta água fria?” perguntou com a voz pastosa dos bêbados.
“Você já está no ponto certo de ser minha.” Acariciou os meus cabelos e
continuou: você fica linda com esse maiô.
Jamais esquecerei aquele cheiro que
ele exalava enquanto tirava cada peça de roupa do meu corpo até me deixar nua.
E eu lutando para fugir daquelas mãos imundas,
daquele hálito fedorento e dos afagos imorais. Lutei muito, mas ele me rendeu.
E ali mesmo na areia, deitou-se sobre mim enquanto dizia: “Você me pertence. Eu
lhe dei casa, comida e tudo mais que você tem. Não será de outro homem”. Senti ardor e o sangue quente saiu de mim.
Meu
irmão veio por trás com uma enorme pedra, e usando toda a força de que era
capaz, bateu na cabeça dele. Juntamos nossas forças e lavamos o corpo inerte
para a cachoeira. A água o levaria para longe e ninguém jamais descobriria o
motivo do sumiço daquele tarado. Assim pensamos. E nós seriamos felizes para
sempre.
Dias depois, um corpo rígido, com o rosto azulado foi encontrado,
do outro lado do rio. E não sei como, nem por que, todos me culparam. Os
vizinhos me chamaram de assassina. Queriam que eu assumisse o crime. E minha mãe
diante da morte do marido, permaneceu naquela eterna luta de silêncio. Só podia
ser um pesadelo. Eu, de vitima, fui transformada em assassina fria e
implacável.
Diante das evidencias, meu irmão decidiu contar a verdade. Mesmo
assim, continuaram me acusando. Ele era um bom menino, um filho obediente e foi
por minha causa que agrediu o pai. A
responsabilidade continuava sendo minha.
Machucada, humilhada, parecia que tinha uma caixa negra
dentro do cérebro, que se abriu e me fez lembrar todas as maldades e
sofrimentos que a vida me deu. E não havia nenhuma luz, um único momento de
prazer, uma palavra sequer de elogio, e de bondade. Fui escorraçada por todos, obrigada
a fugir da minha casa, da cidade onde nasci e de minha gente. Não tinha mais
irmão nem mãe.
Passei anos sem ter contato com o que restava da minha
família. Eles não sabiam de mim e eu não tinha qualquer notícia deles. O que mais
me doía era a falta do meu irmão. Mas em lugar de tristeza, eu sentia um ódio
tão grande, de tudo e de todos, que me sufocava, e não me deixava chorar.
Um dia, a justiça dos homens me encontrou e me condenou. Mas sei
que a justiça de Deus foi feita.
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