sábado, 29 de outubro de 2011

POESIAS PREMIADAS

PRIMEIRO LUGAR
Patrícia B. Neme
Rio de Janeiro


                     CAMINHOS

Não digas “rugas” aos desenhos do meu rosto,
Pois são veredas percorridas por meu ser;
Sulcos profundos- falam de dor e desgosto...
Lindas suaves- relembrando um bem querer.

Traçados firmes, demarcando cada agosto,
Esboços leves, projeção do que fazer;
Rugas são pregas num tecido velho e fosco...
Nada traduzem das estórias de um viver.

Meu mapa conta do lutar que foi constante,
De uma ventura – sempre efêmera e distante,
Do sofrimento consumindo o meu sonhar.

Mas, nas estradas que percorrem minha face,
A fé profunda, que supera todo impasse,
E faz da vida este sereno caminhar.


SEGUNDO LUGAR
Maria de Jesus de Sales Abreu
São Fidélis- RJ

FUGA

         “ Só tu soubeste achar-me e te foste”( Mario Quintana)

         Eu me fui de ti
Levando meu barco
Sem rumo
Sem porto
-sozinha...

Eu me fui de ti
Quebrando as asas
No vôo desesperado
Contra os rochedos do mundo...

Eu me fui de ti
Cegando os olhos
Na busca atormentada
Entre as ruínas da vida...

Eu me fui de ti
E o que me ficou
Foi um coração inquieto
Aflito
Sem ninho...

Eu me fui de ti
Deixando minha alma
Sem rumo
Nem corpo
-sozinha.



                              MULHER SELVAGEM

                                                                  Terceiro lugar

Arita Damasceno Pettená – nascida em Florianópolis – SC
Reside em Campinas – S. Paulo.


Quebrei a ânfora dourada
do interior da sala.
Caco por caco jazem para sempre
 no lixo sem memória
-Por que não restaurá-la?
Indagou uma voz em comovido tom.
O silêncio se fez ouvir mais forte
Prevaleceu o raciocínio lógico.
Destroço por destroço,
Jamais consegui juntar-me por inteiro,
E eu sou alma... e eu sou espírito...
Entre a peça de inestimável valor
E a vida que, pouco a pouco, se me esvai,
Perdôo a mim mesma
O gesto repentino e inesperado
Da arte que se expunha sobre a mesa,
A mulher-selvagem que existe dentro de mim
Clama espaços em órbitas de luz.
E eu era sombra do palco das lembranças:
Sou agora livro que se abre
Engolindo palavras de esperança...
E a ânfora?
-A ânfora agora sou eu,
Dourando de luar teus sonhos de amor.







O SURDO MUDO

                        O SURDO E MUDO

Há anos moro num prédio pequeno, muito antigo e meus vizinhos, em sua maioria, já estavam aqui há décadas.
Um pequeno morro de pedra era a nossa vista. Um dia uma máquina britadeira chegou e nos deixou enlouquecidos.
Todos os moradores da vizinhança assinaram um documento pedindo as autoridades competentes providência, imediata, contra a poluição sonora.
A obra foi embargada durante quase cinco anos. Tempo suficiente para alguns velhinhos morrerem, em confortável silêncio.
Finalmente, a empresa construtora conseguiu terminar sua obra, fazendo acordo de não mais quebrar a pedreira e sim mudar o projeto.
Para alegria de muitos e irritação de alguns velhos sobreviventes do prédio, o grande Shopping Leblon foi inaugurado.
Alguns apartamentos foram ocupados por herdeiros ou vendidos a estranhos.
Assim fiquei morando entre desconhecidos, em frente ao shopping, com rua cheia de gente e, com ponto de táxi, onde os motoristas brigam tanto que, muitas vezes, me acordam  no meio da noite.
O mais estranho, de todas essas novidades, é que um surdo-mudo se fez dono do pedaço e guardador de carros.
Anda sempre imundo, com os pés descalços e as pernas formam uma tesoura, dificultando sua locomoção. Dizem alguns que foi resultado de um atropelamento, quando estava bêbado.

Cada novo proprietário, ou inquilino, foge dele assustado.
Seu aspecto não é dos melhores, mas o medo que as pessoas sentem dele é exagerado.

Um dia, vi uma nova moradora chegando  à porta do edifício com o carro cheio de compras. Ele, solícito tentou ajudá-la a levar os pacotes para o prédio.
Ela se trancou e, do celular pediu socorro ao marido.
Interferi: “Ele é inofensivo. Apenas quer lhe ajudar para ganhar um trocado”.
Quando algum dono de carro que ele vigiou ousa sair sem lhe dar a merecida gorjeta, ele grita e corre, na medida em que as pernas permitem.

Uma vez, usando a linguagem dos sinais, pediu-me dinheiro. Eu dei
Agora, todas as vezes que nos encontramos, ele segura, com suas grossas e sujas mãos a minha, para sacudi-la, num cumprimento exagerado, ou beijá-la.
 E, claro, dou um risinho amarelo e tiro da bolsa algum trocado. 
Na tentativa de expressão, seus grunhidos são horríveis; mas a alegria que ilumina seu rosto feio e sujo me comove.

Nem sei se ele me compreende, mas sempre repito com jeito de quem está de zangada: “Nunca vi um mudo tão barulhento!
Ele ri e se afasta.
Acho que nessas horas, o surdo - mudo escuta muito bem.

MINHA CIDADE

                                    
         Acordei cedo e melancólica. Talvez fosse essa minha  ultima ida na cidade onde nasci e vivi minha infância e adolescência, menina protegida e amada. A casa toda em silencio e eu debruçada na janela do meu quarto, olhando sem ver, perdida em recordações. Lembrei das amigas com quem compartilhei meus sonhos de adolescente, dos sucessos e derrotas.
         Depois de adulta quando estava em crise, confusa ou  deprimida, sempre corria para ouvir os conselhos da Leda, que se tornara uma psiquiatra de renome. E ela dizia: “calma, de perto ninguém é normal. Suas neuroses são muito leves.” Mesmo assim dava-me receitas de calmante e antidepressivo. Não a encontrei. Morreu de câncer nos pulmões.
         Ludmila, antes era a gaita da turma. Sempre tinha uma piada ou uma crítica inteligente para dizer. Agora só reclama das dores, conta minuciosamente, a cirurgia que fez na coluna e enumera todos os remédios que ingere diariamente. Parece um compêndio de patologia. E suas risadas, seus pileques que a levavam a se urinar escondida nas moitas, para onde foram?
         O rapaz mais bonito e cobiçado do grupo não quis me ver. Estava numa cadeira de rodas porque perdeu uma perna por causa da diabetes.
         O mais feio, porém o mais  inteligente, voz linda e boas piadas, por quem eu pensava estar apaixonada veio me encontrar com uma garota que tinha idade de ser sua filha. Clovis olhou para mim e disse apenas e disse sem me olhar: “você está diferente!”
         Mas nada disso se compara ao choque que tive quando cheguei do aeroporto e fui abraçar minha irmã. Ela estava deitada na cama tendo ao lado um aparelho de onde saiam duas sondas para suas narinas. Quando me viu perguntou: “Quem é você?” Disse o meu nome que não representava nada para ela. Reclamava todo tempo porque a mamãe não chegava logo para levá-la para casa. Dizia sempre estar no hotel ou num hospital.
Voltou a dormir. Á noite toda ficava acordada.
         Bateram na porta avisando que o motorista chegara a fim de me levar para o aeroporto.
         Não abri mão de dar uma última olhada para o mar e ver uma jangada partindo para a pesca.
         Fui surpreendida.
         “Os verdes mares bravios” estavam azuis como o céu.
Não eram mais bravios.
         Os homens tinham comercializado as algas que lhes coloriam e construído grandes pontes de pedras que entravam de mar á dentro chamadas “quebra mar” que conseguiam impedir seu curso natural, forte.
         Procurei os valentes pescadores. Não havia nenhum.
         Minha cidade não existe mais. Tudo me é estranho ou se acabou. Onde irei buscar força quando estiver fraca?E quando perdida, onde encontrar meu porto seguro?
         Bateram à porta novamente. “você precisa embarcar e se não se apressar vai perder o vôo”
         Carregando a mala corri para o carro que me levaria ao aeroporto com um misto de saudade e alívio.
         Realmente, minha cidade não existe mais.



CÃO GATO

                                                  CÃO GATO

Quando voltei de Fortaleza, minha gata tinha fugido de casa em companhia de um vira-lata.
Para meu consolo, deram-me um cachorrinho peludo de uma raça desconhecida e, aconselharam: “veja no Google tudo sobre ele.”
Assim fiquei sabendo que era descendente do cão que esquentava os pés do Dalai Lama, e dava alarme quando algum estranho se aproximava. Em 1930 um americano e um inglês foram presenteados com dois casai sois casais e deles se originam todos os “Lhasa Apso” do ocidente.

       Nessa época morava sozinha e namorava o Vicente Augusto e, pensando em homenageá-lo, dei ao meu cachorro o nome de Guto. A tentativa de agradá-lo foi inútil, e até causou desentendimento entre nós; era esse o apelido do seu filho.
       O meu Guto, bonito e saudável, logo se tornou querido e importante para mim.
      Alimentava-o com o que há de melhor, o banhava todas as semanas e me divertia vê-lo brincar com as bolas de borracha ou qualquer objeto  ao seu alcance.
      Estivesse eu na rede ou na cama, logo pulava e se aninhava ao meu lado, para ser acariciado.

        Chegou o tempo em que precisava namorar.  Se fosse vira lata, tudo correria normalmente.  Mas morando em apartamento era complicado, e eu teria que encontrar a fêmea.
        E, como uma alcoviteira, vivia perguntando a todos os donos de cadelas que cruzassem o meu caminho.
        Deixei o retrato do Guto no pet, conversei com a manicure e a cabeleireira, e nada consegui.
        Já não exigia que fosse de raça, bastava apenas uma cadela.

        Meu cachorrinho ficou inconveniente, roçava nas pernas das                  pessoas.  Bati nele com um jornal e, magoado, elegeu uma cadeira para se masturbar. E nela passava o dia ejaculando.
        A família passou a chamar meu quarto de masturba tório. 
        Transferi a cadeira para a varanda. Virou o espetáculo que a família e as visitas estavam sempre assistindo.
        Pedi ajuda ao veterinário. Ele, com cara de safado: “quer dizer que seu cachorrinho é tarado?” Aconselhou castração.
         Durante algum tempo rejeitei. Mais tarde me rendi, embora tenha ficado cheia de remorso.
        Hoje, mais tranquilo, ganhou o apelido de “cão-gato” por sua maneira de se enroscar e pedir carinho a todos os amigos que chegam à minha casa.
      Sabe quando eu estou triste e solitária e fica ali, com a cara de sofredor, e nada o tira do meu lado.   E, quando  me ver alegre, pula, dá cambalhotas e me lambe.

       Quando vou à rua dizendo “eu vou sair” ele percebe que irei sozinha. Se disser: “vamos descer”, ele busca a coleira e me entrega.

Quando estamos passeando fica abusado, mede forças com cachorros enormes. Já com os menores, brinca e acaricia.

       Toda a sua coragem desaparece diante do escuro, do toque de um sino ou do barulho de trovão. Corre para minha cama e se aninha junto a mim, choramingando.

        É o despertador que me acorda todos os dias, às sete horas. Mesmo que eu queira dormir até mais tarde não consigo, pois, primeiro ouço uns resmungos como se fosse um velho. Fico imóvel fingindo que não acordei. Ele sobe na minha cama e me lambe; eu continuo imóvel. Ele late. E para não incomodar os vizinhos, entrego os pontos e abro os olhos.

         Se eu sumo alguns dias, ele vomita e urina nas camas e no sofá. Depois, se esconde de baixo da minha cama e espera até que minha raiva passe. E ai de quem tente tirá-lo de lá.
         É meu companheiro e,  moramos juntos há vários anos, e tenho certeza de que nos entendemos como se ele falasse a minha língua e eu compreendesse  os  gestos dele.
         
E meus filhos, com ciúmes, ou para debocharem, dizem: “é o meu irmão, e o filho predileto dela.”       




MEU GRUPO

                                                          O GRUPO

Resolvi entrar num grupo de aspirantes a escritores.
Meu professor disse: 
-Eles são fortes!
- Você não acredita em mim?
-Então faça uma apresentação e cabe aos membros do grupo lhe aceitar ou não – respondeu
Adoro desafios. Eles fazem de mim mais forte, mais ousada.
Assim comecei a escrever um pouco de mim exagerando em alguns fatos, minimizando outros e Terminei dizendo que precisava do professor e de cada um do grupo para me aprimorar.
Somente um membro se manifestou, mostrando simpatia e acolhimento.  A dona da casa estava com o pé deslocado e a filha única viajando para morar na Suíça. Soube que o filho tinha morrido. Compreendi sua frieza e logo descartei o conto que levei para ler, pois era a história de uma mulher que perdera o filho. O outro que tinha comigo era longo, mas,  um dos melhores que escrevi.
        A dona da casa leu uns versinhos para criança. Sua especialidade.
O professor disse: “comentem”.
“Eu não sei fazer uma rima sequer por isso seria ousadia criticar versos. Mas  sei que gostei”.
Os outros  membros entraram numa discussão sobre a idade ideal da criança para ler aquela poesia.
      Em seguida um homem bonito com sotaque de gaucho leu o seu trabalho.
“Esse parece  com o outro que você fez,” alguém se manifestou.
 E você Margarida o que acha?
“É  filosófico e triste. Fala em perda e saudade.”
“Atualmente só consigo escrever sobre aquele assunto” diz o escritor para todo o grupo.
“Está bom, mas prefiro o outro, da semana passada,” fala o professor.
Chega finalmente a minha vez. Leio o meu conto e ouço:  “Está muito longo, tire algumas personagens”. Você escreve muitas vezes ‘eu quero’, diz outra. E o professor: “Faça os acertos e traga na próxima semana”.
Queria dizer que todos fossem a merda que não tem nenhum acerto a fazer. Mas, me controlei.

Saí conversando com o artista que lera meu conto, aquele que me recebeu calorosamente.
Gostei dele. Meio brincando, meio falando sério ele me disse: “Hoje faltou muita gente. Depois você verá onde se meteu...
Na quarta feira seguinte recebi um email do meu professor dando um tema para escrever e dizendo que a aula continuaria sendo no mesmo endereço e à mesma hora. Dessa vez teríamos um lanche delicioso.
      A sala estava cheia de alunas e a mesa realmente farta. Talvez tenha conhecido todos os colegas simpáticos e antipáticos.  Mas a grande surpresa veio do artista de quem tinha gostado tanto. Agora estava fechado e áspero, grosseiro até com o professor de quem fez comentários indesejáveis sobre o nosso orientador.
  Eu tinha escolhido cuidadosamente um  conto sobre culpa, assunto  preferido  do professor.
Entre comida e bebidas as leituras foram feitas. Alguns trabalhos corrigidos, pouca novidade.
Sobre o meu a dona da casa disse que o fim da historia era inverossímil. Alguém não concordou e eu nem respondi.
      No meu terceiro encontro com o  grupo cheguei atrasada levando o meu conto e um exercício passado por email com o tema  - Saudade de sentir saudade.- e mais um conto sobre culpa.
   Não o sei se os exercícios foram lidos, sei que o meu não foi cobrado.
A dona da casa estava lendo um texto pequeno, menor do que a poesia da semana anterior. Era uma história sobre o linho que acabou sendo sobre os diferentes tipos de lenços.
Depois ouvi uma crônica ou história, bem redigida, de uma advogada falando sobre cantores do passado e as emoções que sentiu ao ouvir suas músicas.
Uma senhora que estava deitada no sofá veio ler o seu trabalho. Uma viagem pelo metro e os encontros que teve. Nós rimos sobre a sua conversa com um garoto fantasiado e sua mãe presidiária.
Chegou minha vez e depois ouvi as críticas.
A que escreve pouco disse que contos devem ser pequenos e os meu era muito grande. Outro disse que nem tinha percebido que eu escrevera sobre um psicopata. A advogada não achou nada novo já que trabalha nessa área.
Finalmente aceitei uma crítica inteligente. Eu enfocara muito o pai e a história era da filha.
Mudei o fim.
Os dois filhos mataram o pai bandido.
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v

UM CAMPEÃO

UM CAMPEÃO


             
         Entre oito e nove horas, quem estiver na Avenida Ataulfo de Paiva, pode ver aquele carro de rolimã, impulsionado por braços fortes, parando defronte o Empório Árabe, onde se pode comer as melhores esfirras  no Leblon.
 Moacir tira da sacola de lona, um velho tapete persa, e bem no meio da calçada, senta-se sobre ele como um árabe. E deixa ao lado, como um troféu, que lhe possibilita ir e vi para qualquer lugar. Mora no Vidigal e todos os dias ele vai  para o Leblon.
         Figura grotesca, pernas atrofiadas, um imenso calombo  nas costas, olhos escuros e cheios de revolta, encara as pessoas, que por ali passam, de modo desafiante.  Seus cabelos sempre amarrados num rabo de cavalo são pintados de três cores diferentes. Na frente é arrepiado e vermelho, parece simbolizar a rebeldia que existe nele . Nas laterais os cabelos são louros como se descendesse de europeus ricos e evoluídos. As pontas negras fazem-no parecer um cigano, conhecedor do destino de cada pessoa que passa. As orelhas estão cheias de diferentes brincos. Costas e braços cobertos por tatuagens. Dragões e sereias lembram que ele poderia ser um marinheiro singrando águas e conquistando mulheres.
         Ninguém percebe. Passam rápido e alguns deixam moedas ao seu lado, como aplacando suas consciências ou agradecendo a Deus por sua saúde e seus bens. Não lhes interessa pensamentos ou sentimentos de mendigos.
         Passa uma senhora e lhe entrega uma nota de maior valor. Ele pega com indiferença, coloca no bolso da velha camisa. Ela pergunta: “ Por que você fica sentado no meio da calçada?”  “Vivo aqui há vinte e quatro anos e gosto”.
         Eu lhe ofereço uma esfirra. Ele me olha com indiferença, pega o salgado de minha mão e guarda na mochila. Pergunto:
-Não vai comer?
          - Só na hora do almoço. Olha-me com indiferença.
          Sigo meu caminho.

É domingo e o sol brilha. As pessoas alegres, roupas coloridas, patinam, passeiam de bicicleta ou simplesmente caminham na calçada.
         No meio de todos, lá vem Moacir. As mãos fortes e sadias impulsionam o carro de rolimã. Levanta os braços de maneira harmoniosa, parecendo um campeão. Diverte-se, enquanto indiferente e altivo, baila no asfalto. E uma aura de dignidade o rodeia.

FLAGRANTE

                                            FLAGRANTE

            Mais uma vez o telefone toca e, sempre a mesma voz  insistente convida:
            -Vamos nos encontrar para uma tarde excitante, emocionante!
            Ela mais uma vez responde:
             - Sou casada.
            Ele diz:
            -Eu também.
            - E por que esses telefonemas insistentes?
            -Porque preciso de uma namorada e estou apaixonado por você
            -A mim, basta o marido
            -Quero as duas
            -Tenho medo, meu marido é ciumento
            Ele retruca:
            - Eu não sou.
            Ela decide:

            -Então, hoje depois do trabalho nos encontramos?
            Cheio de cumplicidade, ele marca local e hora.

            Encontram-se numa confeitaria. Passam muito tempo entre risos e afagos. Tomam chá e vão ao cinema, de mãos dadas. No parque de diversões, sobem na roda-gigante, como duas crianças.
            Às onze horas seguem para o motel.

            De madrugada chegam a casa e os filhos preocupados aguardando na sala, gritaram apreensivos:

            “Mãe! Pai! Onde é que vocês estiveram até esta hora da manhã?”

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

ANTES TARDE DO QUE NUNCA

                                    ANTES TARDE DO QUE NUNCA



            Conheceram-se através de anúncio no jornal.
Ela tinha sessenta anos e ele, setenta.
          Todas as semanas eles vão ao cinema. Assistem a duas sessões. Na primeira se masturbam. Na segunda acompanham o enredo do filme
          Depois vão lanchar em alguma lanchonete que tenha mesas para sentarem. Ela acha que esse detalhe dá dignidade, um ar de respeitabilidade.
          Pediu e passou a ganhar trezentos reais, por semana.
          - Mas isso é prostituição – lhe disse
          - Já percebi. E estou adorando. Como não descobri isso antes? 

BUSCANDO CAMINHOS

                                      BUSCANDO MEU CAMINHO

“Apertem os cintos e mantenham-se sentados até a parada do avião”.
Cheguei, trazendo na bagagem esperança e medo. Mais uma vez, corro para minha terra, com se aqui fosse possível esconder-me no útero materno e esperar um novo nascimento.
Vim em busca de mim. Da menina intocada, da adolescente romântica que se achava capaz de matar ou morrer por amor.
         Se persistir nesse erro, sou capaz de acertar.
Nos primeiros dias ficarei num hotel onde possa ver o mar. Sempre consigo refletir melhor e tomar  decisões acertadas  próxima dele.
         Por enquanto, não quero contato com ninguém.   
                  É da janela do hotel, olhando para o mar ou  passeando na praia, que analisarei o passado,  e  buscarei o meu o futuro.
          Meus olhos vêem a beleza do céu iluminado pelo sol. Sempre tenho dúvida quanto à cor do mar. Vezes ele me parece azul, outras verde. Nos dias chuvosos, é sempre cinza.
Sigo  a dança das ondas, lentas como uma valsa, ou rápidas e alegres como frevo.  
À noite busco a lua prateada e a estrela  mais brilhante. Gosto da exuberante lua cheia, mas a lua nova é mais elegante.
 Na  manhã seguinte observo as jangadas que saem para a pesca, e à tarde espero a chegada dos pescadores com o produto de seu trabalho.  E sou capaz de ver beleza  na pele tostada, nos rostos vincados, e nos músculos fortes dos homens que vivem do mar.
                  Vou até ele para conversar,  e sinto seus olhos fixos  em minha direção, mas sei que  passam através de mim, distantes e sonhadores, como se eu  lhes trouxesse a memória, as histórias alegres e as tristes que viveram. Ou pensam nos sonhos e frustrações.
         Oferecem-me peixes, camarões ou lagostas.
         Antigamente eu regateava, e eles olhavam  de um lado para outro,
como se temessem serem vistos quebrando acordos. E suas dúvidas irritavam-me e eu ia saindo sem comprar nada.  Aí um deles me perguntava: “A senhora tem sangue bom?”. Ele queria saber se eu lhe traria sorte para bons negócios. Eu compreendia e garantia ter. Assim,  comprava o pescado pelo  preço quisesse.      
    Hoje, cheia de piedade pelos homens sofridos, de rostos  marcados como  mapas de suas vidas, já não tenho vontade de pechinchar.

Depois de alguns dias fui em busca de minhas companheiras de infância. Fazem parte da minha vida e preciso delas.
 Helena, aquela com quem eu patinava, corria pelas ruas de bicicleta e jogava amarelinha, se  encarregou de  marcar um encontro com todas, que ainda tinha contato.
Juntou alguns amigos, e a noite foi divertida.
Carlos e Alicia juntaram suas lindas vozes e ouvimos músicas antigas que nos levaram ao passado. Newton, sempre bom contador de piadas, nos fez dar boas gargalhadas. Alguns recordaram histórias engraçadas ou tristes da nossa infância e adolescência.
Saímos do boteco, tarde, bêbados e felizes.
Nos dias seguintes estive com Ana, Josefa e Carlos. E com todos acabei me desentendendo.
Ana chegou toda de preto,  chorando pela morte do marido que, durante mais de dez anos, viveu lutando contra o câncer.  Depois de viúva queria entrar para um convento de carmelitas. A vocação apareceu tarde demais  e  ela não foi aceita, mas a  superiora aconselhou-a a montar, no quarto onde Marcus viveu os últimos anos,  um santuário e lá rezar várias ao dia. Ele é  um Santo, garantiu.
             Nossos pontos de vista não combinavam e eu  disse: “Procure um psicólogo  para  receber melhor orientação.”  “Você não compreende nada, a Madre Carmelita fala ungida pelo Espírito Santo” respondeu indignada.       Desculpei-me, afinal só recebera gentilezas dela, e não era minha intenção magoá-la.
            Josefa,  expulsou a filha grávida de casa.  Perguntei se a moça tinha para onde ir. “Não quero saber. Madre Nilza disse que eu não podia ser cúmplice de tamanha falta de vergonha. Afinal sempre fiz força para ser honesta” E eu, indignada: “O que essa mulher que fugiu do mundo e jamais  foi mãe pode te aconselhar sobre o que fazer com uma filha em dificuldade? E para você foi necessário esforço para se manter honesta? Que estranho!”
Brigamos e  no dia seguinte estava eu no telefone pedindo desculpas. Afinal ela sempre fora  muito boa para mim.
             Fui almoçar com Carlos, homem de sucesso, casado pela quarta vez com uma jovem aluna. “Quem sabe essa mulher lhe dará um filho?” disse eu. Ele respondeu: “Eu sou estéril.” “Sim, mas hoje uma inseminação artificial é a solução perfeita”. “O quê? Você acha que eu vou admitir que minha mulher tenha filho de outro homem. E onde ficará meu orgulho, minha vaidade?”
          As diferenças  pareciam intransponíveis.
           Mudaram eles? Mudei eu?

            Eu estava  pronta para o encontro com Walter. Ele  era meu alvo e ao mesmo tempo meu algoz.
Liguei para seu consultório e fui recebida com alegria. Depois de tantos anos pensei que ele se mostrasse mais frio.                                                                                                                                             “Você  não vai acreditar, mas ontem falei com meu filho sobre nós e mostrei seu retrato. E o atrevido achou você muito bonita.”
 E  com a segurança que sempre teve no  passado, perguntou: “Em que hotel você está? Amanhã, depois do expediente, vou te  apanhar e jantaremos num restaurante que você não conhece, tomaremos vinho, relembraremos os bons tempos  e, quem sabe, terminamos num motel”...
 Concordei e, dividida entre  receio da minha fraqueza   e a alegria do  reencontro, fui me preparar. Passei a tarde escolhendo roupa, sapato e adereços.  E pensei: “Não quero  que ele me veja como  uma senhora idosa. Vestido leve e estampado nos faz parecer mais moça. O cabelo solto nos deixa mais jovem.” Tirei  todos os vestidos que trouxe, para avaliar  qual me ficaria melhor.
E continuei pensando nele “Será que está gordo, careca e barrigudo?  Barrigudo, nunca. Alimentação saudável e muito exercício era seu lema. Careca e grisalho pode ser. Seu cabelo já era fino e ralo, na juventude”.
         Pontualidade era uma de suas qualidades.  Chegou na hora marcada, alegre e confiante, como sempre.  Beijou-me no rosto, afastou-me um pouco, pegou  minha mão e disse:  “Você está mais bonita do que nunca. No olhar tem tristeza e preocupação. Mas eu gosto.”
Mais refinado e, com a elegância que só os vencedores demonstram, era o mesmo rapaz que deixei, tendo algumas rugas perto dos olhos e  os  cabelos ligeiramente grisalhos, que o faziam mais sedutor.
O restaurante, decorado com bom gosto, e estava  cheio de gente bem vestida. O garçom  nos levou até uma mesa, já reservada.  Sentamos e logo Walter foi me entregando as fotos, que tinha mostrado ao filho, e dizendo: “Lembra dessa que tiramos no carnaval, eu fantasiado de  pirata e você de odalisca”?.
“No dia em que você jogou lança perfume nos meus olhos. E depois foi se desculpar pela dor que me causou”, respondi.
         “É, foi o dia em que começou o nosso amor. E eu me desculpei, recorde-se”
         “Você sempre pediu desculpas, depois de cada sofrimento que me causou. Quando me traía, quando sumiu de casa durante os  três dias de carnaval e até quando me batia.”
         “Você continua com a mania de lembrar  minhas fraquezas e esquecer minhas qualidades.”
         “Não é verdade, lembro muito da viagem fizemos  à Europa. Em cada cidade que chegávamos tudo era alegre e você sempre gentil e divertido. Sobretudo, em Barcelona, tudo foi especial. Você era um outro homem e eu uma mulher totalmente feliz.  Mas, ao voltarmos para o Brasil, você se tornou mais violento do que nunca. E meu sofrimento foi insuportável.”
            E ele: “Será que você  jamais  me  compreenderá? Te amava tanto, que não suportava ver  ninguém se aproximar de  ti.  E o ciúme me fazia sofrer mais do que o sofrimento que te causava.”
         E, entre uma recordação e outra, comemos e bebemos mais ainda. Depois fomos  terminar a noite num motel.
         Os elogios deram lugar às críticas. Foi tirava  minha roupa, falava sarcástico: “Você  quer  que eu pague uma cirurgia plástica, pra levantar seus peitos? Eles estão bem caidinhos. Sua testa também está precisando  de botox.”
     Seus carinhos machucavam, deixavam manchas roxas na minha pele e sangue nos meus lábios. Eu  tentava correr e ele  puxava meu cabelo enquanto raivoso dizia: “Viu? Adiantou  você fugir de mim?  Agora está aqui nas minhas mãos. Posso fazer com você o que quiser.  Até te matar.” Ninguém sabe que estamos  aqui, e nunca vão desconfiar de mim”.  E ria, ria sem parar.
          Fugi. O encanto acabou. A magia se desfez.  
           “Senhores passageiros do vôo 527 com destino ao Rio de Janeiro, dirijam-se ao portão 8 e boa viagem”
            Sem fantasia,  livre de fantasmas, vôo para o futuro.









        


AMORES ENTRELAÇADOS

AMORES ENTRELAÇADOS

Voltando de um decepcionante fim de semana em Búzios, subi ao ônibus vazio e muito frio. Sentei no banco próximo à janela, abraçando meu próprio corpo, tentava me aquecer.
Antes que o motorista entrasse para começar a viagem rumo à zona sul, vi pela janela um homem alto e elegante terminando de fumar um cigarro. Deslumbrada pensei: "será algum artista ou modelo?”
Com tantos lugares vazios ele escolheu sentar perto de mim. Gostei! E procurei conversar: -Está tão frio!- É mais logo que outros passageiros entrem vais esquentar.
Nossa conversa fez a espera pequena, a viagem rápida demais. Em poucos minutos ele já tinha contado a história de sua vida: - Sou viúvo e tenho sobre meus ombros, a responsabilidade de cinco filhos. A mais nova, com apenas sete anos ficou órfã. Falei de mim:- Sou divorciada há pouco tempo e também tenho cinco filhos. E continuei contanto casos, querendo parecer interessante, inteligente.
Quando chegamos à Copa, já tínhamos trocado histórias e telefones.
Logo no dia seguinte ele ligou e fomos nos encontrar. Bebemos mais do que devíamos e acabamos a noite no motel. Foi bom demais! Ele me surpreendeu com suas manhas e artimanhas e jamais senti tanto prazer. Quando o dia amanheceu e saímos do motel eu já estava apaixonada e também ganhara um apelido: Fogueteira.
Os encontros se repetiram e fui, pouco a pouco, criando uma dependência, uma necessidade premente dele. Suas visitas eram inconstantes e inesperadas. Nada de compromisso. Chegava e partia quando lhe aprouvesse.
As vezes passávamos o fim de semana numa pousada na região dos lagos nos amando com paixão .
Sempre que nos despedíamos, sentimento de perda tomava conta de mim.
Numa semana ele não deu qualquer notícia. Liguei para seu telefone e uma mulher disse ser a esposa dele.
Eu respondi: - eu sou a namorada dele e por favor diga que telefonei.
A noite chegou à minha casa todo assustado mentindo:- Aquela mulher é louca. Porque toma conta dos meus filhos diz que é minha mulher. Agora acredita ser dona da casa.
Tomei remédios para dormir e no dia seguinte viajei por uns dias.
Na primeira manhã do meu retorno acordei com o toque irritante do telefone. Logo reconheci a voz e, corajosamente desliguei. Ele insistiu tantas vezes que acabei concordando em ir almoçar com ele. Ele estava simpático e risonho como se nada tivesse acontecido e disse ; _ Como você tem coragem de terminar um amor lindo como o nosso só porque eu fiz uma sacanagemzinha! Ela não significa nada. É a você que eu quero. .
A falta de sexo , mais do que suas palavras, me fez amolecer e o aceitei de volta, embora soubesse que nada mudaria. Mas ele exercia um grande fascínio em mim e logo estávamos nos beijando e acariciando no restaurante vazio naquela hora da manhã. Trocamos palavras carinhosas e depois de tomar muito chopp ele foi ao banheiro e por alguns momentos eu fiquei só. Imediatamente, surge do nada, uma mulher na minha frente. Apressada diz - Você namora tão lindo! Você sabe amar mais do que ele. Joga um cartão na mesa e diz: ligue-me. Você não vai se arrepender. E saiu rápido, mas não tão rápido que não fosse vista pelo meu namorado que perguntou - O que essa mulher estava fazendo aqui
mostrei o cartão e contei o que ela me disse. Ele rindo falou : -Você está atraindo sapatão? Guardei o cartão na bolsa e não se falou mais nisso.
Durante algum tempo tudo correu bem entre nós. Mas, como de costume ele estava novamente mentindo, faltando aos encontros, me traindo. Sozinha, chorando e deprimida, lembrei do cartão e disquei para minha fã do restaurante. Precisava conversar com alguém até o sono chegar. Ela era inteligente e divertida. A conversa fluiu facilmente. Trocamos e-mails e todas as manhãs, logo que eu acordava ia ver no computador lindas paisagens com cachoeiras e rios e o fundo musical era maravilhoso. Descobrimos que tínhamos muitas afinidades . O caso amoroso com o Eduardo continuava cheio de altos e baixos, mas eu já não sofria com seu descaso.
Apesar de Sofia viver me convidando pra sair eu adiava, até que no dia do seu aniversário fui jantar no seu charmoso apartamento. Tudo cerimonioso e distante; mas a conversa foi gostosa, alegre e teve o pode de afastar minhas preocupações.
Mais íntimas, mais companheiras, Sofia me perguntou se eu já conhecia os carinhos sexuais de outra mulher - Não, respondi constrangida, sou hétero sexual e, de você, espero uma boa e sincera amizade.
Minha amiga respondeu:- -Eu te garanto que se você um dia experimentar carinhos de outra mulher, jamais se interessará por homens. Nós, homo sexuais compreendemos mais as necessidades, os anseios de uma mulher. Nossas mãos são mais delicadas, nossos beijos mais ardentes. Eu insisti: - Sou hétero sexual convicta e realizada.
O jantar regado a vinho, estava servido depois de comer muito e beber mais ainda, foram ver um filme de amor entre duas mulheres. Eu me excitei e disse que queria dançar. Sofia colocou uma música romântica e dançamos abraçadas e nos acariciando. Beijos suaves foram trocados enquanto uma despia a outra. E em cada parte do corpo nu ela passava a língua. Mas, o que me deixou mais ouriçada foram as ligeiras e leves mordidelas nos meus seios nus. Deitamos no tapete fofo, abrimos as pernas e com mãos carinhosas nos acariciávamos. E depois de cada gozo, exausta comentei- bem que você disse, jamais um homem foi capaz de me fazer tão feliz, tão à vontade, tão livre- E a outra- Eu sonhei como esse nosso encontro há meses e tinha certeza de que seria assim. Nosso entrosamento é perfeito. Parece que fomos amantes desde que nascemos. Os encontros se repetiram em cinemas, teatros e até passeios pelas montanhas e praias. Tirávamos fotos lindos uma da outra. O nosso amor aparecia nos olhos dos retratos. A cada encontro a paixão explodia como chamas, brasa, fogo. Conhecemos a alegria, o prazer e a felicidade. Quando Olga dava alguma demonstração de ciúme eu dizia:- Quanto mais apaixonadas ficamos, mais felizes somos os três. Eduardo contente, achava que sua amante tinha amadurecido e estava mais sábia. Não vivia mais a vigiá-lo. Mas um dia ele chegou na hora errada e descobriu o romance das duas amigas.
Xingou, gritou e sumiu. Com o seu desaparecimento, o meu encanto por Sofia desapareceu. Fiquei fria e não queria mais nem vê-la. Quando a outra insistia ela dizia:- Esse romance não tem sentido. A magia se desfez, o encanto acabou. A saudade do homem tornou-se insuportável. E insuportável era também o amor de Sofia.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Receita

                                                  

             Num sábado melancólico e saudoso, amanheci pensando nos projetos não realizados, nas minhas frustrações...
           Vany, minha analista de Bagé, convidou-me para almoçar no Modern Sound, e ver um show de samba e bossa nova. Relutei mas, acabei indo.
             Logo que nos encontramos, ela me entregou um papel com essa receita:
        “Coloque num recipiente de cristal bem transparente, dois litros de ´água morna, deixe em um local iluminado pelos raios de sol. Pingue em seus olhos duas gotas de colírio VIDA do laboratório AMOR. Olhe no fundo do cristal e procure ver o sol e seus raios projetados nele.
         Respire fundo pelo nariz, prenda a respiração e solte pela boca profundamente, com a maior força que você puder.
O vento sopra suave na relva, as borboletas voam em sincronia.

         Agora respire tranquilamente, imaginando uma paisagem cheia de luz, flores coloridas, e algumas nuvens para enfeitar.
Sente-se em baixo de uma árvore frondosa, segure no seu tronco e deixe sua mão deslizar sobre os nódulos que o tempo imprimiu na sua crosta denotando a sabedoria do tempo. Preste atenção como tudo na natureza é perfeito.
Agora tire da sacola ao seu lado, um coração apertado, preso e amordaçado pelas mágoas, frustrações, erros e desencantos que estão mergulhados  num vidro cheio de pimentas ardidas, coberto com vinagre estragado, vencido, dentro de um vidro; segure a respiração, contenha o nojo e tire a tampa.  Seu aspecto é asqueroso e o cheiro insuportável. Não o jogue fora; enfie sua mão e retire, delicadamente, tudo que está dentro dele.  Olhe a sua volta, logo ali adiante há uma bica de água. Aproxime-se dela e com imensa piedade, passe delicadamente sua mão sobre o coração e lavando tudo que se agarrou nele durante toda a vida Aos poucos ele terá cores novas e vivas e se transformará e baterá mais compassado e rejuvenescido, a cada pulsação.
Pode chorar por ele; as lágrimas lavam todos os nossos sofrimentos e desencantos, que reprimidos, podem nos impedir de ver a perfeição a nossa volta.
Beba a sabedoria do tempo, liberte-se do passado. O tempo é curto. Tudo passa e a roda da fortuna gira.
Devemos usufruir de tudo que a vida nos dar agora. E, o que o amanhã os nos trará? Saberemos depois...

Tomei uma dose dupla do remédio.

 Vindo do nada, dois gaúchos chegaram até nossa mesa e pediram licença para sentarem conosco.  Eram interessantes e, com suas observações inteligentes, nos divertiram.
O conjunto bom e a bela voz da cantora nos propiciaram uma tarde excelente.
Já estávamos quase íntimos daqueles dois homens quando um deles aproximou-se mais de mim e disse: 
- Como vocês vão se sentir ao saber que estão almoçando com um casal homo-sexual?
- O problema não é meu. Cada um faz o que quer com sua sexualidade. 
Confesso que preferia não ter ouvido essa confissão.

Minha amiga rabiscava na toalha da mesa, o rosto do outro gaucho. E ele indócil, paquerava todas as mulheres.  Depois tirou um celular e ligou para a noiva.
Olhei admirada para um e outro.  O que me fizera confidência viu-se na obrigação de contar: “tínhamos um conjunto musical e o irmão dele era  eu “caso”. Imagine a minha surpresa quando ele me convidou para transar! Já foi casado três vezes e agora está noivo.

Outra surpresa ainda me esperava.
O “guloso” dirigiu-se para mim e para Vani e convidou: “vamos para um motel e fazer uma briga de aranhas”?
Zangada, olhei para minha amiga que estava rindo e disse: “vamos embora”. 
E ela ainda queria me convencer que ele estava brincando!