BUSCANDO MEU CAMINHO
“Apertem os cintos e mantenham-se sentados até a parada do avião”.
Cheguei, trazendo na bagagem esperança e medo. Mais uma vez, corro para minha terra, com se aqui fosse possível esconder-me no útero materno e esperar um novo nascimento.
Vim em busca de mim. Da menina intocada, da adolescente romântica que se achava capaz de matar ou morrer por amor.
Se persistir nesse erro, sou capaz de acertar.
Nos primeiros dias ficarei num hotel onde possa ver o mar. Sempre consigo refletir melhor e tomar decisões acertadas próxima dele.
Por enquanto, não quero contato com ninguém.
É da janela do hotel, olhando para o mar ou passeando na praia, que analisarei o passado, e buscarei o meu o futuro.
Meus olhos vêem a beleza do céu iluminado pelo sol. Sempre tenho dúvida quanto à cor do mar. Vezes ele me parece azul, outras verde. Nos dias chuvosos, é sempre cinza.
Sigo a dança das ondas, lentas como uma valsa, ou rápidas e alegres como frevo.
À noite busco a lua prateada e a estrela mais brilhante. Gosto da exuberante lua cheia, mas a lua nova é mais elegante.
Na manhã seguinte observo as jangadas que saem para a pesca, e à tarde espero a chegada dos pescadores com o produto de seu trabalho. E sou capaz de ver beleza na pele tostada, nos rostos vincados, e nos músculos fortes dos homens que vivem do mar.
Vou até ele para conversar, e sinto seus olhos fixos em minha direção, mas sei que passam através de mim, distantes e sonhadores, como se eu lhes trouxesse a memória, as histórias alegres e as tristes que viveram. Ou pensam nos sonhos e frustrações.
Oferecem-me peixes, camarões ou lagostas.
Antigamente eu regateava, e eles olhavam de um lado para outro,
como se temessem serem vistos quebrando acordos. E suas dúvidas irritavam-me e eu ia saindo sem comprar nada. Aí um deles me perguntava: “A senhora tem sangue bom?”. Ele queria saber se eu lhe traria sorte para bons negócios. Eu compreendia e garantia ter. Assim, comprava o pescado pelo preço quisesse.
Hoje, cheia de piedade pelos homens sofridos, de rostos marcados como mapas de suas vidas, já não tenho vontade de pechinchar.
Depois de alguns dias fui em busca de minhas companheiras de infância. Fazem parte da minha vida e preciso delas.
Helena, aquela com quem eu patinava, corria pelas ruas de bicicleta e jogava amarelinha, se encarregou de marcar um encontro com todas, que ainda tinha contato.
Juntou alguns amigos, e a noite foi divertida.
Carlos e Alicia juntaram suas lindas vozes e ouvimos músicas antigas que nos levaram ao passado. Newton, sempre bom contador de piadas, nos fez dar boas gargalhadas. Alguns recordaram histórias engraçadas ou tristes da nossa infância e adolescência.
Saímos do boteco, tarde, bêbados e felizes.
Nos dias seguintes estive com Ana, Josefa e Carlos. E com todos acabei me desentendendo.
Ana chegou toda de preto, chorando pela morte do marido que, durante mais de dez anos, viveu lutando contra o câncer. Depois de viúva queria entrar para um convento de carmelitas. A vocação apareceu tarde demais e ela não foi aceita, mas a superiora aconselhou-a a montar, no quarto onde Marcus viveu os últimos anos, um santuário e lá rezar várias ao dia. Ele é um Santo, garantiu.
Nossos pontos de vista não combinavam e eu disse: “Procure um psicólogo para receber melhor orientação.” “Você não compreende nada, a Madre Carmelita fala ungida pelo Espírito Santo” respondeu indignada. Desculpei-me, afinal só recebera gentilezas dela, e não era minha intenção magoá-la.
Josefa, expulsou a filha grávida de casa. Perguntei se a moça tinha para onde ir. “Não quero saber. Madre Nilza disse que eu não podia ser cúmplice de tamanha falta de vergonha. Afinal sempre fiz força para ser honesta” E eu, indignada: “O que essa mulher que fugiu do mundo e jamais foi mãe pode te aconselhar sobre o que fazer com uma filha em dificuldade? E para você foi necessário esforço para se manter honesta? Que estranho!”
Brigamos e no dia seguinte estava eu no telefone pedindo desculpas. Afinal ela sempre fora muito boa para mim.
Fui almoçar com Carlos, homem de sucesso, casado pela quarta vez com uma jovem aluna. “Quem sabe essa mulher lhe dará um filho?” disse eu. Ele respondeu: “Eu sou estéril.” “Sim, mas hoje uma inseminação artificial é a solução perfeita”. “O quê? Você acha que eu vou admitir que minha mulher tenha filho de outro homem. E onde ficará meu orgulho, minha vaidade?”
As diferenças pareciam intransponíveis.
Mudaram eles? Mudei eu?
Eu estava pronta para o encontro com Walter. Ele era meu alvo e ao mesmo tempo meu algoz.
Liguei para seu consultório e fui recebida com alegria. Depois de tantos anos pensei que ele se mostrasse mais frio. “Você não vai acreditar, mas ontem falei com meu filho sobre nós e mostrei seu retrato. E o atrevido achou você muito bonita.”
E com a segurança que sempre teve no passado, perguntou: “Em que hotel você está? Amanhã, depois do expediente, vou te apanhar e jantaremos num restaurante que você não conhece, tomaremos vinho, relembraremos os bons tempos e, quem sabe, terminamos num motel”...
Concordei e, dividida entre receio da minha fraqueza e a alegria do reencontro, fui me preparar. Passei a tarde escolhendo roupa, sapato e adereços. E pensei: “Não quero que ele me veja como uma senhora idosa. Vestido leve e estampado nos faz parecer mais moça. O cabelo solto nos deixa mais jovem.” Tirei todos os vestidos que trouxe, para avaliar qual me ficaria melhor.
E continuei pensando nele “Será que está gordo, careca e barrigudo? Barrigudo, nunca. Alimentação saudável e muito exercício era seu lema. Careca e grisalho pode ser. Seu cabelo já era fino e ralo, na juventude”.
Pontualidade era uma de suas qualidades. Chegou na hora marcada, alegre e confiante, como sempre. Beijou-me no rosto, afastou-me um pouco, pegou minha mão e disse: “Você está mais bonita do que nunca. No olhar tem tristeza e preocupação. Mas eu gosto.”
Mais refinado e, com a elegância que só os vencedores demonstram, era o mesmo rapaz que deixei, tendo algumas rugas perto dos olhos e os cabelos ligeiramente grisalhos, que o faziam mais sedutor.
O restaurante, decorado com bom gosto, e estava cheio de gente bem vestida. O garçom nos levou até uma mesa, já reservada. Sentamos e logo Walter foi me entregando as fotos, que tinha mostrado ao filho, e dizendo: “Lembra dessa que tiramos no carnaval, eu fantasiado de pirata e você de odalisca”?.
“No dia em que você jogou lança perfume nos meus olhos. E depois foi se desculpar pela dor que me causou”, respondi.
“É, foi o dia em que começou o nosso amor. E eu me desculpei, recorde-se”
“Você sempre pediu desculpas, depois de cada sofrimento que me causou. Quando me traía, quando sumiu de casa durante os três dias de carnaval e até quando me batia.”
“Você continua com a mania de lembrar minhas fraquezas e esquecer minhas qualidades.”
“Não é verdade, lembro muito da viagem fizemos à Europa. Em cada cidade que chegávamos tudo era alegre e você sempre gentil e divertido. Sobretudo, em Barcelona, tudo foi especial. Você era um outro homem e eu uma mulher totalmente feliz. Mas, ao voltarmos para o Brasil, você se tornou mais violento do que nunca. E meu sofrimento foi insuportável.”
E ele: “Será que você jamais me compreenderá? Te amava tanto, que não suportava ver ninguém se aproximar de ti. E o ciúme me fazia sofrer mais do que o sofrimento que te causava.”
E, entre uma recordação e outra, comemos e bebemos mais ainda. Depois fomos terminar a noite num motel.
Os elogios deram lugar às críticas. Foi tirava minha roupa, falava sarcástico: “Você quer que eu pague uma cirurgia plástica, pra levantar seus peitos? Eles estão bem caidinhos. Sua testa também está precisando de botox.”
Seus carinhos machucavam, deixavam manchas roxas na minha pele e sangue nos meus lábios. Eu tentava correr e ele puxava meu cabelo enquanto raivoso dizia: “Viu? Adiantou você fugir de mim? Agora está aqui nas minhas mãos. Posso fazer com você o que quiser. Até te matar.” Ninguém sabe que estamos aqui, e nunca vão desconfiar de mim”. E ria, ria sem parar.
Fugi. O encanto acabou. A magia se desfez.
“Senhores passageiros do vôo 527 com destino ao Rio de Janeiro, dirijam-se ao portão 8 e boa viagem”
Sem fantasia, livre de fantasmas, vôo para o futuro.