Quando mamãe se suicidou deixei de ser
a garota cuidada, de longos cabelos negros, presos por tranças entremeadas de
fitas de cores variadas. As pregas da saia escolar perfeitas. Blusas sempre
engomadas e eu, insanamente vaidosa, deixava minhas colegas irritadas. Por
inveja ou por acharem que eu estava fora do contexto, me desarrumavam toda, e
eu corria para pedir socorro aos
professores.
Órfã, guardei sempre comigo o revolver de mamãe e dei uma reviravolta no
comportamento e no visual. Libertada de qualquer vaidade, me integrei ao grupo hippie, então, o preferido pelos rebeldes.
Para desespero de papai e dos meus
irmãos, agora eu vivia suja, descabelada e mal vestida. Minha pele cheia de
espinhas. Meus cabelos longos e desgrenhados faziam de mim uma pessoa sem
nenhum encanto. Não fazia sucesso entre os garotos. É verdade que tive algumas aventuras que não me tocaram o
coração, mas me trouxeram duas filhas. Jamais dei a elas o carinho e o cuidado
que recebi.
Depois, as rugas foram marcando o meu rosto, o corpo já sem
curvas e os cabelos cheios de fios brancos. Eu fui tomada por uma solidão
imensurável. E, assustada, senti que não
vivi. A solidão começou a incomodar.
"Preciso voltar a ser cuidadosa e procurar aceitação."
Já mudada, freqüentei lugares badalados onde reencontrei
pessoas conhecidas e familiares de quem estava afastada havia anos. Agora, diferente, parecendo mais jovem e mais bonita, fui
elogiada por alguns conhecidos e até por homens desconhecidos. O que me deixava
feliz. Ousei sonhar com um homem que vivesse comigo uma paixão.
O tempo passava e apenas elogios. Mesmo assim, voltava feliz,
porém, desejando mais. Precisava encontrar o homem certo para realizar o sonho
tardio.
Já desesperada, telefonei para o marido da única amiga que me
restou e o convidei para jantar em minha casa. Há muito disfarço uma atração por ele. E Bruno foi sozinho à minha casa. Confessou que sempre teve simpatia e certa curiosidade por
mim. A comida estava ótima. O vinho melhor ainda.
Embriagados, fomos para o quarto. Tiramos a roupa e nos
acariciamos. Ele beijava minhas carnes gordas, meus seios murchos, e eu senti
um prazer nunca antes vivido. Gemia e chorava. Nunca fui tão feliz!
Ele disse que voltaria.
Agora, minha vida se resumia à espera. Liguei várias vezes e
Bruno sempre adiava novo encontro.
Numa tarde, ele chegou de surpresa! Trazia salgados para
acompanhar aquele vinho que ainda estava
na geladeira. E, novamente, acabamos na cama. Dessa vez ele escorregou e caiu sobre meu corpo. Senti uma
dor insuportável na coluna, especificamente na lombar. Os joelhos também foram
afetados. Essas dores têm me acompanhado todos os dias de sua ausência. Telefono, ele não atende. Deixo recado, ele não retorna.
Surpreendo-me. Ele sempre foi um homem educado, fino. Por que esta grosseria?
E insisto, dia após dia. Coloco minhas jóias, uso vestidos maravilhosos, um perfume
francês, e espero um telefonema, um toque na porta que anuncie a chegada do meu
homem. Ele é meu e tem que voltar pra mim.
Insisto, marco encontro e ele ignora. Tenho certeza de que me ama e precisa de mim tanto quanto eu
dele. Fico dias em casa disponível e elegante, a esperar o homem
que invadiu minha vida, entrou pelo meu corpo. Eu sou dele e ele é meu. Jamais
desistirei. Prefiro matá-lo a deixar com a mulher que não o merece, que não o
valoriza como eu.
Tudo isso eu já disse para a secretária eletrônica. Estou
cansada de esperar. Agora vou agir. Devo ir ao seu encontro qualquer noite
dessas.
Finalmente, esperei por ele num cantinho da garagem e, quando
ele se aproximou do carro, atirei nele com a mesma arma que a mamãe usou para se
matar. Perdi os sentidos.
Quando acordei, estava num lugar horrível. Parecia uma
masmorra. Bruno ao meu lado, riu e
falou: “Sua louca. Você nem pontaria tem.”
Bruno saiu para sempre da minha vida.
Por que ele está
fazendo isso comigo?!
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