quarta-feira, 1 de julho de 2015

SONHO TARDIO

   

         Quando mamãe se suicidou deixei de ser a garota cuidada, de longos cabelos negros, presos por tranças entremeadas de fitas de cores variadas. As pregas da saia escolar perfeitas. Blusas sempre engomadas e eu, insanamente vaidosa, deixava minhas colegas irritadas. Por inveja ou por acharem que eu estava fora do contexto, me desarrumavam toda, e eu corria para pedir socorro aos professores.
         Órfã, guardei sempre comigo o revolver de mamãe e dei uma reviravolta no comportamento e no visual. Libertada de qualquer vaidade, me integrei ao grupo hippie, então, o preferido pelos rebeldes.
         Para desespero de papai e dos meus irmãos, agora eu vivia suja, descabelada e mal vestida. Minha pele cheia de espinhas. Meus cabelos longos e desgrenhados faziam de mim uma pessoa sem nenhum encanto. Não fazia sucesso entre os garotos. É verdade que tive algumas aventuras que não me tocaram o coração, mas me trouxeram duas filhas. Jamais dei a elas o carinho e o cuidado que recebi.
Depois, as rugas foram marcando o meu rosto, o corpo já sem curvas e os cabelos cheios de fios brancos. Eu fui tomada por uma solidão imensurável. E, assustada, senti que não vivi. A  solidão começou a incomodar.
"Preciso voltar a ser cuidadosa e procurar aceitação."
Já mudada, freqüentei lugares badalados onde reencontrei pessoas conhecidas e familiares de quem estava afastada havia anos. Agora, diferente, parecendo mais jovem e mais bonita, fui elogiada por alguns conhecidos e até por homens desconhecidos. O que me deixava feliz. Ousei sonhar com um homem que vivesse comigo uma paixão.
O tempo passava e apenas elogios. Mesmo assim, voltava feliz, porém, desejando mais. Precisava encontrar o homem certo para realizar o sonho tardio.
Já desesperada, telefonei para o marido da única amiga que me restou e o convidei para jantar em minha casa. Há muito disfarço uma atração por ele. E Bruno foi sozinho à minha casa. Confessou que sempre teve simpatia e certa curiosidade por mim. A comida estava ótima. O vinho melhor ainda.
Embriagados, fomos para o quarto. Tiramos a roupa e nos acariciamos. Ele beijava minhas carnes gordas, meus seios murchos, e eu senti um prazer nunca antes vivido. Gemia e chorava. Nunca fui tão feliz!
Ele disse que voltaria.
Agora, minha vida se resumia à espera. Liguei várias vezes e Bruno sempre adiava novo encontro.
Numa tarde, ele chegou de surpresa! Trazia salgados para acompanhar  aquele vinho que ainda estava na geladeira. E, novamente, acabamos na cama. Dessa vez ele escorregou e caiu sobre meu corpo. Senti uma dor insuportável na coluna, especificamente na lombar. Os joelhos também foram afetados. Essas dores têm me acompanhado todos os dias de sua ausência. Telefono, ele não atende. Deixo recado, ele não retorna. Surpreendo-me. Ele sempre foi um homem educado, fino. Por que esta grosseria?
E insisto, dia após dia. Coloco minhas jóias, uso vestidos maravilhosos, um perfume francês, e espero um telefonema, um toque na porta que anuncie a chegada do meu homem. Ele é meu e tem que voltar pra mim.
Insisto, marco encontro e ele ignora. Tenho certeza de que me ama e precisa de mim tanto quanto eu dele. Fico dias em casa disponível e elegante, a esperar o homem que invadiu minha vida, entrou pelo meu corpo. Eu sou dele e ele é meu. Jamais desistirei. Prefiro matá-lo a deixar com a mulher que não o merece, que não o valoriza como eu.
Tudo isso eu já disse para a secretária eletrônica. Estou cansada de esperar. Agora vou agir. Devo ir ao seu encontro qualquer noite dessas.
Finalmente, esperei por ele num cantinho da garagem e, quando ele se aproximou do carro, atirei nele com a mesma arma que a mamãe usou para se matar. Perdi os sentidos.
Quando acordei, estava num lugar horrível. Parecia uma masmorra. Bruno ao meu lado, riu e falou: “Sua louca. Você nem pontaria tem.”
Bruno saiu para sempre da minha vida.
Por que ele está fazendo isso comigo?!

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