JÁ NÃO SE FALA EM AMOR
Desde sempre,
foi o meu preferido. Estranho, já que eu odiava seu pai. Quando pequeno Flavio
vivia em conflito entre o amor por mim e as divergências que tinha com o pai
por isso. Ele me chamava de “velha bruxa” e a ele traidor, por gostar de mim. Enquanto
eu dizia que nós éramos criaturas de Deus, o pai afirmava que tudo isso era
bobagem, mentira. “Cadê esse Ser? Onde Ele está? A velha caduca já lhe
mostrou?”
Um dia o menino
me pediu: “Vó, me leva pra conhecer Deus”?
A solução que
encontrei foi levá-lo até a Igreja Católica, cheia de imagens e dizer: “Só
posso te mostrar retrato Dele. Ele é como o vento. Está presente aqui e em toda
parte. Mas nós só podemos senti-lo, não vê-lo.
– Mas eu não
sinto nada. – Respondeu.
Nesse momento
acho que perdi sua credibilidade. Ele era bom, mas tinha um gênio forte e,
zangado, era um terror. Algumas pessoas
diziam que parecia o pai. E eu sempre replicava: “não tem nada a ver”. Quando ele
se acalmava, eu lhe perguntava: “Por que você faz isso, meu querido”? “Sei lá, Vó...”.
Nossas conversas eram diferentes das
que eu tinha com os outros netos ou sobrinhos. Suas preocupações me
surpreendiam.
– Vó, será que
algum dia uma mulher vai me amar? – Deus existe mesmo?
– Claro, meu filho! Você é bonito,
inteligente, vai ser amado e também vai conhecer Deus. – Eu garantia.
Quando os
irmãos mais velhos estavam conversando sobre suas farras, contando quantas
mulheres beijaram ou “ficaram”, ele, com a voz meio rouca, meio aguda dos
adolescentes, perguntava: “Nessa casa não tem ninguém que fale em amor? Só
ficar, amassar, beijar...”
Cresceu muito
rápido. Magro, com pernas compridas e andar desengonçado. Agradava às garotas.
Um dia,
apaixonou-se por uma menina baixinha, filha única de pais harmônicos e
requintados, que estudava canto lírico. Mas, depois de conhecer Flavio, só
cantava e dançava forró. Os seus pais reclamaram e ela feliz respondeu: “foi o
Flavio quem me deu o disco e está me ensinando a dançar forró”. Eles riram. Sua
menina estava apaixonada.
E os dois pouco
a pouco aprendendo a amar. Beijos roubados, abraços apertados, e um sentimento
maior do que eles nascendo e crescendo. Deixavam os livros e ficavam horas no
celular ou na internet. Eles já não estudavam, só escreviam palavras
apaixonadas.
Ele romântico,
guardou sua mesada para comprar alianças de prata, símbolo do seu namoro.
E a paixão foi
tomando conta deles. A cada novo encontro, seus corpos precisavam mais e mais,
um do outro. Beijos intensos, carinhos abusados, escondiam-se no quarto
fingindo estudar. A mãe dele gritava: “Saiam daí e venham estudar na sala”. E
longe da garota dizia: “Cuidado, não estrague a vida de vocês. Não precipitem
um casamento cedo demais”.
Na casa de Nina,
o pai, cheio de cuidados, dava conselhos. “Vocês são muito jovens e devem
estudar. Deixem o namoro para os fins de semana.” Pressionados, eles resolveram
esperar que os pais dela dormissem e, silenciosamente, a menina abria a janela
e passavam as noites juntos se acariciando, um explorando o corpo do outro de
maneira ousada, íntima. Depois, cansados, suados, mas satisfeitos, dormiam
abraçados. Logo que o dia clareava, ele fugia com os sapatos na mão, e um
sorriso no rosto.
Com tão grande
amor, o garoto mais seguro e vaidoso viu as garotas interessadas nele. Nina
ciumenta, bisbilhotava o celular, o quarto e até os bolsos dele. E tiveram a
primeira briga. Nina conheceu o outro Flavio. Aquele que se tornava violento e
perdia controle. Fizeram as pazes. Outras noites de amor e sexo viveram.
A mãe dele
descobriu as fugas noturnas do garoto. O pai dela pegou os dois no quarto.
Mandou a filha estudar música lírica na Itália. Ele se juntou aos irmãos e
primos para contar com quantas meninas “ficou” e quantas beijos.
E não falou
mais em amor.
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