sexta-feira, 19 de junho de 2015

JÁ NÃO SE FALA EM AMOR

                                              JÁ NÃO SE FALA EM AMOR

         Desde sempre, foi o meu preferido. Estranho, já que eu odiava seu pai. Quando pequeno Flavio vivia em conflito entre o amor por mim e as divergências que tinha com o pai por isso. Ele me chamava de “velha bruxa” e a ele traidor, por gostar de mim. Enquanto eu dizia que nós éramos criaturas de Deus, o pai afirmava que tudo isso era bobagem, mentira. “Cadê esse Ser? Onde Ele está? A velha caduca já lhe mostrou?”
         Um dia o menino me pediu: “Vó, me leva pra conhecer Deus”?
         A solução que encontrei foi levá-lo até a Igreja Católica, cheia de imagens e dizer: “Só posso te mostrar retrato Dele. Ele é como o vento. Está presente aqui e em toda parte. Mas nós só podemos senti-lo, não vê-lo.
         – Mas eu não sinto nada. – Respondeu.
         Nesse momento acho que perdi sua credibilidade. Ele era bom, mas tinha um gênio forte e, zangado, era um terror.  Algumas pessoas diziam que parecia o pai. E eu sempre replicava: “não tem nada a ver”. Quando ele se acalmava, eu lhe perguntava: “Por que você faz isso, meu querido”?  “Sei lá, Vó...”.
Nossas conversas eram diferentes das que eu tinha com os outros netos ou sobrinhos. Suas preocupações me surpreendiam.
         – Vó, será que algum dia uma mulher vai me amar? – Deus existe mesmo?             
– Claro, meu filho! Você é bonito, inteligente, vai ser amado e também vai conhecer Deus. – Eu garantia.
         Quando os irmãos mais velhos estavam conversando sobre suas farras, contando quantas mulheres beijaram ou “ficaram”, ele, com a voz meio rouca, meio aguda dos adolescentes, perguntava: “Nessa casa não tem ninguém que fale em amor? Só ficar, amassar, beijar...”
         Cresceu muito rápido. Magro, com pernas compridas e andar desengonçado. Agradava às garotas.
         Um dia, apaixonou-se por uma menina baixinha, filha única de pais harmônicos e requintados, que estudava canto lírico. Mas, depois de conhecer Flavio, só cantava e dançava forró. Os seus pais reclamaram e ela feliz respondeu: “foi o Flavio quem me deu o disco e está me ensinando a dançar forró”. Eles riram. Sua menina estava apaixonada.
         E os dois pouco a pouco aprendendo a amar. Beijos roubados, abraços apertados, e um sentimento maior do que eles nascendo e crescendo. Deixavam os livros e ficavam horas no celular ou na internet. Eles já não estudavam, só escreviam palavras apaixonadas.
         Ele romântico, guardou sua mesada para comprar alianças de prata, símbolo do seu namoro.
         E a paixão foi tomando conta deles. A cada novo encontro, seus corpos precisavam mais e mais, um do outro. Beijos intensos, carinhos abusados, escondiam-se no quarto fingindo estudar. A mãe dele gritava: “Saiam daí e venham estudar na sala”. E longe da garota dizia: “Cuidado, não estrague a vida de vocês. Não precipitem um casamento cedo demais”.
         Na casa de Nina, o pai, cheio de cuidados, dava conselhos. “Vocês são muito jovens e devem estudar. Deixem o namoro para os fins de semana.” Pressionados, eles resolveram esperar que os pais dela dormissem e, silenciosamente, a menina abria a janela e passavam as noites juntos se acariciando, um explorando o corpo do outro de maneira ousada, íntima. Depois, cansados, suados, mas satisfeitos, dormiam abraçados. Logo que o dia clareava, ele fugia com os sapatos na mão, e um sorriso no rosto.
         Com tão grande amor, o garoto mais seguro e vaidoso viu as garotas interessadas nele. Nina ciumenta, bisbilhotava o celular, o quarto e até os bolsos dele. E tiveram a primeira briga. Nina conheceu o outro Flavio. Aquele que se tornava violento e perdia controle. Fizeram as pazes. Outras noites de amor e sexo viveram.
         A mãe dele descobriu as fugas noturnas do garoto. O pai dela pegou os dois no quarto. Mandou a filha estudar música lírica na Itália. Ele se juntou aos irmãos e primos para contar com quantas meninas “ficou” e quantas beijos.

         E não falou mais em amor.

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