ELA CHEGA ANTES DE MIM
Jamais
saberei o que alguns parentes e amigos que me chamaram, dizendo precisar falar
comigo, dizer alguma coisa, antes de fazerem suas passagens.
Teriam algo importante para dizer,
ou apenas gostariam de se despedir?
Jamais terei respostas. E, nos
momentos melancólicos, de falta, de saudade, isso me incomoda e me frustra.
Tinha doze anos quando me deparei,
pela primeira vez com a morte.
Era domingo, acordei tarde, e saí correndo
para chegar a tempo de assistir a missa.
Quando passei defronte o quarto de
minha mãe ele me chamou e disse que precisava falar comigo.
Respondi que estava atrasada e nós
conversaremos quando eu voltar.
Depois da missa, quando estava
chegando a casa, vi uma ambulância defronte o portão. Entrei esbaforida e soube
que ela estava morta.
Alguns anos depois, volto a minha
terra, já casada e com o primeiro filho.
Dedé, a dedicada baba de todos nós,
soube que eu estava na cidade e mandou o antigo jardineiro me pedir para ir até
seu barraco, pois precisava muito conversar comigo. Precisava me ver e de minha
ajuda. Estava doente e abandonada por todos. Fiz uma cesta com produtos de
limpeza e muitos alimentos.
Numa terça feira, de carro emprestado,
jardineiro ao lado, segui para ver a querida babá de todos nós.
No caminho o carro quebrou.
Entreguei os presentes ao
empregado, apanhei um taxi e voltei em busca de um mecânico.
As férias terminaram, viajei e não
pensei mais na velha e devotada empregada.
Dez dias depois soube de sua morte.
Tempos depois, sonhei com o meu tio
que foi importante na minha vida. Já não nos víamos há anos.
Pareceu-me velho e diferente do
homem da minha infância e adolescência.
E me disse (no sonho) “venha buscar os móveis da sala que deixei para
você”.
Liguei para ele e fui atendida pela minha prima, sua
filha. Ela me disse que ele estava cego e demente. Mesmo assim, pedi para
colocá-lo no telefone. Quando lhe disse meu nome ele me chamou de Bagozinha,
apelido de infância, em seguida disse:
“gosto tanto de mulher!”. Ri e prometi ir vê-lo.
Nem cheguei a comprar a passagem.
Três dias depois ele morreu.
Mais uma vez a Morte me passou o
pé.
Salete, a mais antiga amiga que a
vida me deu. Com ela patinei, andei de bicicleta e patins. Nossos brinquedos
ficavam juntos, e não havia o meu ou o dela.
Nós nos separamos e nos encontramos depois de
muitos anos em Brasília.
Já casadas, tivemos filhos no mesmo
dia e tudo nos reunia.
Fui morar no Rio e ela ficou em
Brasília.
Um dia, a caminho de S. Paulo, ela
me visitou no Rio. Contou que estava lutando contra um câncer.
Depois de alguns meses, soube que
ela estava em fase terminal e tinha pedido para falar comigo.
Telefonei, mas ela estava confusa,
acabando de sair da UTI e insistiu: “eu preciso muito falar com você. Preferia
que fosse pessoalmente. Quando você vem a Brasília?”
Insisti para que me dissesse o que
ela queria me dizer. Respondeu que naquele momento estava confusa e com muitas
dores.
Prometi visitá-la. Até porque dias depois seria o aniversário da
minha neta, e eu planejara está presente.
Na manhã seguinte, viajei às pressas para assistir o enterro da minha
querida amiga. E chorando muito ao lado de sua irmã, falei:
Ela disse que me amava muito e eu
tantas vez falei mal dela...
“Não chore. Ela também falava mal
de você.
Instantaneamente, as lágrimas
secaram.
E pensei: “mais uma vez a morte
chegou antes de mim”.
Algum tempo depois, vi meu pai em
sonho, dizendo: “Sabe, aquela carta que você me escreveu foi profética. Luiza,
minha mulher, está me fazendo sofrer tudo que você me disse que eu sofreria.
Dias depois, voei para Fortaleza e
lá assisti o seu enterro.
Morando no Rio, voltei a Brasília
para cumprir meu dever de cidadã brasileira, votando no político em quem acreditava.
Recebi um telefonema da Sandra,
filha da minha prima mais querida dizendo: “mamãe está com câncer e lhe chama o
tempo todo, apesar de saber que você se mudou. Ela tinha certeza de que você
estava aqui para votar. E está mesmo, venha nos visitar e ouvir o que ela tanto
quer lhe falar”.
“Amanhã, depois de votar, vou
almoçar com vocês” prometi.
Votei e fui para o velório da prima
Kléa.
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