Conheci Maria de Nazaré em Mato Grosso.
Chegamos na mesma época e nos instalamos em casas próximas. A vizinhança não foi nada calorosa conosco e, sempre que se referia a nós, era: “as nortistas que caíram aqui de pára-quedas.”
Talvez por isso mesmo, sendo tão diferente do contexto, nos tornamos amigas inseparáveis.
Logo que nossos maridos saíam para o trabalho, minha nova amiga deixava os três filhos e corria em busca de companhia.
Eu também me sentia só e cheia de saudade dos amigos e da minha terra. Mesmo assim, sendo recém-casada, tudo era novo. Engravidei e, apesar dos incômodos causados pelo enjoo, estava feliz.
Nazaré, no entanto, tinha muitos anos de casada e, inúmeras decepções acumuladas. Com voz rouca, gesticulava, com mãos nervosas, suadas e frias. Seus braços eram finos como de uma criança. Sempre contando histórias tristes e chocantes. E eu me controlava para não chorar as suas dores.
E assim, pouco a pouco, fui conhecendo sua história.
Meu marido é bem mais velho do que eu. Casamos porque estava grávida. Ele é um homem frio e distante. Meus filhos não ajudam em nada. Lucilene, quase uma moça, podia tomar conta da casa e dos irmãos. Ela só gosta do pai, e só faz o que ele quer. A outra está no mesmo caminho. Meu caçula é mais apegado a mim. Odeio tudo daqui: essa terra, esse mato, o frio, a chuva e essas pedras de gelo que caem no meu telhado.”
Uma manhã, Nazaré chegou a minha casa chorando tanto que pensei ter alguém morrido, ou algum acidente grave.
Soube então, que sua menstruação estava atrasada e ela vomitara depois do café. Qualquer possibilidade de gravidez a deixava apavorada. E eu, que estava vibrando com a barriga que crescia, não podia compreender seu drama. Ela tentava, entre soluços, me explicar:
“Por causa da minha primeira gravidez fiz um casamento desastrado e infeliz. Agora vivo chorando enquanto acordada e tendo pesadelos quando durmo. Depois que meus três filhos nasceram fiz muitos abortos. Você credita que a menina que tirei há quase cinco anos veio assombrar meu sono? Estava zangada, me chamando de vagabunda e assassina? E aquele menino com cara de índio vive me seguindo. Outro dia ele me acompanhou por uma estrada, até um lugar cheio de flores. Ele estava muito triste e eu fiquei envergonhada.”
Algumas semanas depois, minha amiga chegou a minha casa, enlouquecida. Mal compreendi suas palavras.
“Esta madrugada, sete crianças remelentas e sujas me rodearam e, com os olhos injetados de sangue, gritaram: mãe desnaturada e assassina, viemos te buscar para o inferno. E puxavam minha saia, rasgavam minha blusa, davam tapas no meu rosto. E eu não tinha para onde fugir.”
Foi custoso conseguir acalmá-la
Depois de conversarmos com uma amiga espírita, resolvemos levá-la a um centro de doutrinação.
Ela gostou e passou a freqüentar as sessões. Converteu-se ao Kardecismo e, durante algum tempo, ficou tranquila e seus fantasmas deram-lhe uma trégua. Orava muito, fazia caridade. Tudo parecia bem. Até que começou a visitar bares, beber cachaça e garantir que era ordem das entidades que recebia.
Meu tempo de exílio acabou e voltei para minha terra.
Passei muitos anos sem notícia de Nazaré.
Num dia, surpreendentemente, a encontrei. Contente, nos abraçamos e perguntei como estava sua vida, os filhos e o marido.
Ela, meio brincando, meio zangada, respondeu: “Agora, dizem que estou louca. Vivo dopada, durmo dia e noite, e o velho nojento, não me deixa mais ir ao Centro. Voltei a ter pesadelos.
Mas o psiquiatra, que me dá receitas, garante que não preciso de religião e sim de tratamento psicanalítico, na certa para tentar curar a grande culpa que carrego por causa dos abortos que fiz.”
- Por que você não fala para o médico diminuir a dose do calmante?
- À vezes penso que com os remédios vou enlouquecer de vez.
Dei o número do meu telefone. Ela jamais me ligou.
Não insisti, mas por dentro, imaginava que ela já estaria louca, com ou sem remédio.