quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

TORMENTO

                                               
       Conheci  Maria de Nazaré em Mato Grosso.
       Chegamos na mesma época e nos instalamos em casas próximas.  A  vizinhança não foi nada  calorosa  conosco e, sempre que se referia a nós, era: “as nortistas que caíram aqui de pára-quedas.”
      Talvez por isso mesmo, sendo tão diferente do contexto, nos tornamos amigas inseparáveis.    
       Logo que nossos maridos saíam para o trabalho, minha nova amiga deixava os três filhos  e corria em busca de companhia.
       Eu também me sentia só e cheia de saudade dos amigos e da minha terra.       Mesmo assim, sendo recém-casada, tudo era novo.  Engravidei e, apesar dos incômodos causados pelo enjoo, estava feliz.

       Nazaré, no entanto, tinha muitos anos de casada e, inúmeras decepções acumuladas. Com voz rouca, gesticulava,  com mãos nervosas, suadas e frias. Seus  braços eram finos como de uma criança. Sempre contando histórias tristes e  chocantes. E eu me controlava para não chorar as suas dores.    
     
       E assim, pouco a pouco, fui conhecendo sua história.

       Meu marido é bem mais velho do que eu. Casamos porque estava grávida. Ele é um homem frio e distante. Meus filhos não ajudam em nada. Lucilene, quase uma moça, podia tomar conta da casa e dos irmãos.  Ela só gosta do pai, e só  faz o que ele quer.  A outra está no mesmo caminho. Meu caçula é mais apegado a mim. Odeio tudo daqui: essa terra, esse mato, o frio, a  chuva e essas pedras de gelo que caem no meu telhado.”

       Uma manhã, Nazaré chegou a minha casa chorando tanto que pensei ter alguém morrido, ou algum acidente grave.
       Soube então, que sua menstruação estava atrasada e ela vomitara depois do café. Qualquer possibilidade de gravidez a deixava apavorada. E eu, que estava vibrando com a barriga que crescia, não podia compreender seu drama. Ela tentava, entre soluços, me explicar:

         “Por causa da minha primeira gravidez fiz um  casamento desastrado e infeliz. Agora vivo chorando enquanto acordada e tendo pesadelos quando durmo. Depois que meus três filhos nasceram fiz muitos abortos. Você credita que a menina que tirei há quase cinco anos veio assombrar meu sono? Estava  zangada, me chamando de vagabunda e  assassina?  E aquele menino com cara de índio vive me seguindo. Outro dia ele me acompanhou por uma estrada, até um lugar cheio de flores.  Ele estava muito triste e eu fiquei envergonhada.”

       Algumas semanas depois, minha amiga chegou a minha casa, enlouquecida. Mal compreendi suas palavras.
         “Esta madrugada, sete crianças remelentas e sujas me rodearam e, com os olhos injetados de sangue, gritaram:  mãe desnaturada e assassina, viemos te buscar para o inferno.  E puxavam minha saia, rasgavam minha blusa, davam tapas no meu rosto. E eu não tinha para onde fugir.”
      
         Foi custoso conseguir acalmá-la 
        
          Depois de conversarmos  com uma amiga espírita, resolvemos levá-la a um centro de doutrinação.
       Ela gostou e passou a freqüentar as sessões. Converteu-se ao Kardecismo e, durante algum tempo, ficou tranquila e seus fantasmas deram-lhe uma trégua.  Orava muito, fazia caridade. Tudo parecia bem.  Até que começou a visitar bares, beber cachaça e garantir que era ordem das entidades que recebia.

        Meu tempo de exílio acabou e voltei  para minha terra.
        Passei muitos anos sem notícia de Nazaré.

         Num  dia, surpreendentemente, a encontrei. Contente, nos abraçamos e perguntei como estava sua vida, os filhos e o marido.

        Ela, meio brincando, meio zangada, respondeu:  “Agora, dizem que  estou louca.  Vivo dopada, durmo dia e noite, e  o velho nojento,  não me deixa mais ir ao Centro.  Voltei a ter pesadelos.
       Mas o psiquiatra, que me dá receitas, garante que  não preciso de religião e sim de tratamento psicanalítico, na certa para tentar  curar a grande culpa que carrego por causa dos abortos que fiz.”
                        
      -  Por que você não fala para o médico diminuir a dose do calmante?
       - À vezes penso que com os remédios vou enlouquecer  de vez. 

        Dei o número do meu telefone. Ela jamais me ligou.
        Não insisti, mas por dentro, imaginava que ela já estaria louca, com ou sem remédio.
     



        
    
      

       

        




     







 




          

        

CADEIRA DE RODAS

                                                
Aristides e Durval não conheceram alegria de um lar feliz. Não se lembravam do colo do pai, dos beijos da mãe, de uma mão calorosa segurando as suas. Jamais se lembravam de um gesto que denotasse carinho ou proteção.
          Só tinham um ao outro.
                    Suas mais remotas lembranças estavam ligadas a gritos de terror da mãe e agressões de um pai bêbado. E eles dois apavorados procurando um lugar para se esconder. Dentro dos armários, em baixo das camas, atrás de móveis ou qualquer outro lugar, desde que longe daquelas cenas angustiantes.      Algumas vezes eles conseguiam pular a janela e anestesiar  suas dores nas ruas.  E era sempre  fora de casa que encontravam pequenos prazeres, algumas diversões. Quando a chuva caía, tomavam banho nas bicas.  Com os amigos jogavam futebol. Às vezes algum vizinho os levava ao cinema para  ver  seus heróis preferidos.
Durval estava sempre de mau humor e demonstrando sua revolta contra o mundo. Brigava com os amigos e, por ser pequeno e fraco, quase sempre saía machucado.
Já Aristides era cordato e minimizava tudo. Gostava de bichos e quando encontrava um cachorro ou gato abandonado, pegava no colo, alimentava e cuidava com carinho.
Mas o melhor de si era para o irmão mais novo. Procurava acalmá-lo, limpava suas lágrimas, e  planejava um futuro de felicidade para todos. Não sabia explicar, mas conseguia ver qualidades até no  pai, e adorava a mãe.
Numa das raras manhãs de domingo em que se divertiam, ao retornar para casa, encontraram uma ambulância defronte à porta. E, dentro dela, estava sua mãe morta.
 Era ainda tão jovem! Não resistiu a tantos sofrimentos.
Logo, o pai livrou-se deles, mandando para casa da irmã. A velha era tão doida quanto ele.

          Durval  estava com cinco anos e Aristides oito.  E nada melhorou em suas vidas.
         Todas as manhãs, às cinco horas, a tia  acordava os dois e, aos gritos, dizia: “Vão guardar um lugar bem perto do Padre. Quero assistir à missa bem na frente do altar.”
           E eles chegavam numa igreja vazia, cheia de lugares disponíveis.
Ao voltar para casa tontos de fome, comiam  pão de véspera amolecido no  café.
Aristides sorria daquelas manias, abria um sorriso e fazia um ligeiro agrado na cabeça do irmão. Mesmo não compreendendo por que não podiam comer pão fresco, dizia: “Coma. Está gostoso.”

 Com o tempo,  aprenderam a tocar o sino e a  incensar o altar.
Aristides chegou a pensar que tinha vocação para ser padre, enquanto Durval pensava:  “Quando sair deste inferno de vida, nunca mais entrarei numa igreja, não tocarei sino, nem acenderei um incenso.”

Com temperamento rebelde e gênio forte, foi escolhido, pela tia maluca, para levar com o cinto nas costas e palmatória nas mãos, e alimentar  o  sadismo que existia nela.
O  ódio dele era tão forte que não derramava uma lágrima sequer.          Aristides, aflito, dizia: “chora, chora logo Durval. Pára com isso”.  E sentia a dor do irmão.

Finalmente, foram para um colégio interno. E lá começaram a ter vida saudável.
Apesar de Durval gostar dos professores e colegas, continuava procurando briga. E, de preferência, com garotos maiores e mais fortes.   Não lhe importava perder a luta. Alegrava-se em poder reagir. E quando conseguia derrubar alguém, sentia-se vitorioso,  cheio de orgulho.  E quando era  massacrado, o irmão bem mais forte,  comprava a briga.  
O caçula, fraco e abusado, acabou sendo expulso do colégio. E pela primeira vez,  os dois irmãos ficaram separados.
Outros distanciamentos da vida os levaram a lugares distantes.
          O casamento de Aristides, sólido e feliz. O de Durval conflitado, brigas constantes e uma separação dolorosa.
          E quando os  dois se encontravam, falavam sobre o passado, o pai, a mãe e a tia megera.
          Como sempre viam as pessoas e os acontecimentos de maneira diferente.

Em dezembro, no dia do aniversário de Durval, Aristides, tentando preencher a carência que esteve com eles a vida toda, convidou o irmão para um jantar.
- Só nós dois- exigiu Durval.
- Claro. Há quanto tempo não ficamos sós!
E como era costume, eles falaram mais sobre o passado do que sobre o presente.
As feridas se abriram, sangravam e Durval bebeu muito.
Aristides tentou falar sobre os bons tempos no  colégio, e impedir o irmão de beber mais.
Um pensava nas tristezas e fracassos. O outro recordava alegrias e sucessos.
 O homem amargo tentando  anestesiar sua dor continuava a entornar  uísque.
  O outro achava tudo engraçado e  insistia para Durval parar de beber.

Quando eles decidiram sair do restaurante a chuva caía forte.
          Aristides queria tomar um táxi. Durval insistia em levar o irmão até sua casa.
Dois carros bateram de frente.
         Aristides ficou paraplégico. E Durval apenas ferimentos leves.

         E nas visitas que  fazia ao irmão, jamais ouviu uma crítica ou menção ao fato de ter dirigido bêbado.  Mas  ele vivia se culpando.
         Um dia, sem motivo aparente, Durval  passou a usar cadeira de rodas.
Não conseguia ficar diferente ou indiferente à dor de Aristides.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O IRREMEDIÁVEL

                                      

 Sempre preferi escolher meus empregados domésticos entre os  homossexuais.  Meu marido não concordava e estava sempre reclamando de mim e debochando de minhas escolhas.                         
  Eles pareciam quer mostrar maior zelo e competência do que as mulheres. Sua comida era sempre mais gostosa, sua faxina perfeita e eram mais gentis e prestativos. Muitas vezes me senti amada por alguns.
Estefanio chegava a ser adulador com seus constantes e exagerados elogios. Nos fins de semana saía para farrear, embriagar-se e namorar.
 Quando voltava às segundas feiras, estava cansado e lento para o serviço.
 Mas acabava sempre arrumando um jeito para puxar conversa e me fazer confidências.
Confesso que dei boas gargalhadas e até emiti opiniões e conselhos ao meu empregado.
Numa segunda- feira Estefanio  não apareceu. Já estava aflita quando ele  telefonou me  pedindo ajuda. Parecia aflito e quase chorando disse que estava preso e precisava  sair daquele lugar horrível.
Saí imediatamente em seu socorro, e não seria difícil resolver seu problema.  Sou advogada e logo soltaria o meu  empregado favorito.
Tudo teria sido rápido e sem traumas se eu não tivesse visto e ouvido o que estavam fazendo com um homem velho, de pele tostada de sol e vincada pelas  rugas e  pelo sofrimento.
Mesmo que não quisesse participar daquele drama, era-me impossível não ouvir sua história. Teimava em repedir para qualquer um que chegasse, buscando compaixão .
“Doutora, depois de dez anos trabalhando como faxineiro de uma grande concessionária de carros, fui acusado  de roubar uma peça nova e cara que estava no armário. Juro que não fui eu.”
 Fingi não ouvir. Mas vi o policial que se aproximou dele para mais uma sessão de interrogatório.
E ali, próximo de mim assisti o pobre velho levar tapas e ponta pés. Vi lágrimas escorrendo pelo seu rosto, sua cabeça balançar negando cada acusação.
 E indiferente saí enquanto o suspeito olhou-me com olhos sofridos, insistiu que era inocente e me pediu ajuda. Pareceu-lhe que finalmente, chegara ajuda, pois eu livrara o meu empregado, seu companheiro de cela,  eu poderia  ser uma pessoa misericordiosa.
Quando saí o homem  me olhou com os olhos sofridos, e novamente sentiu-se desvalido e só.
Eu não disse nada, não fiz nada. Saí com Estefanio, entramos no carro sem olhar para trás, e o som dos seus gemidos foram comigo.
                    Tempos depois fui trabalhar na Defensoria Pública. Todos os meus clientes se pareciam com aquele velho que deixei na delegacia. Deveria ter pelo menos ter me interessado por  sua história para ver se ele era  culpado  ou inocência.
                   E sonho com ele pedindo-me ajuda, e na inércia, que fez de mim cúmplice dos policiais.                              
                   Todas as  vezes  em que aquela cena me vem à mente, a culpa me atormenta.
                          Seria inocente ou teria culpa? Sei que isso é irremediável. Jamais saberei. E minha frieza dói em mim.
                Não tem retorno e jamais saberei como essa história terminou.

                     Porém, no meu auto- veredicto, eu serei sempre culpada
.

sábado, 3 de dezembro de 2011

O LUGAR CERTO NAS HORAS INCERTAS



            Precisando preencher minhas noites insones, procurei amigas notívagas e com elas fui conhecer as festas das noites cariocas.

            Encontrei algumas mulheres inteligentes e, sobretudo, espertas, que vêem a vida sob um prisma muito especial.  A linguagem, os seus valores e comportamento, totalmente desconhecido para mim. Um mundo onde aprendi uma nova maneira  de encarar a vida que me  ajudou a  lidar com as perdas e descobrir valiosos ganhos.
           Elas usavam saias muito curtas, com meias de excelente qualidade que faziam suas pernas parecer bonitas e escondiam as marcas do tempo.
Muitas já recorreram a inúmeras cirurgias plásticas.
            Os homens conheciam o macete, mas não adivinhavam o quanto o tempo as enchera de varizes, estrias, rugas, gorduras na barriga e flacidez dos seios.

            No primeiro baile que fui meu modo de vestir e agir eram destoantes; parecia uma caipira assustada, insegura e com total falta de jeito.
            Minhas amigas foram conseguindo parceiros para dançar. Quanto mais depressa fossem convidadas, mais admiração e inveja causavam.

            As mais populares naquele ambiente procuraram ajudar-me pedindo aos velhos conhecidos que me levassem para a pista.  Mais tarde descobri que estavam sendo generosas, pois a competição era acirrada.
            Entre uma dança e outra, tomamos diferentes tipos de drinques.

            Um homem com quem dancei, acompanhou-me até a mesa e falou sobre os seus netos. Senti-me finalmente no meu mundo. Respondi mais que depressa: “Eu tenho cinco: uma menina e quatro meninos.
            Imediatamente senti um baita  pontapé, sob a mesa. Assustada, olhei para a companheira que estava na minha frente e ela me devolveu um olhar severo e um balançar de cabeça. Não demorou muito, chegou perto de mim e esbravejou: “Você esta doida? Na noite não se tem filho e muito menos, netos. Onde já se viu tanta burrice? Parece a Poliana!
            Não sei onde ela viu semelhança, entre mim e a menina otimista do romance de nossa infância.

            Assim, tive a primeira lição sobre a noite, num salão de baile: as mulheres não têm família. Aos homens é permitido falar nas esposas que ficaram em casa, nos filhos e netos e até nas mulheres que já passaram por suas vidas.
            Descobri também homens de variados tipos e personalidades interessantíssimas.
            Conheci alguns, sem dinheiro, que viviam em quartos alugados; os aposentados de bancos ou militares eram considerados bons partidos e ao menos dividiam as contas. Outros comiam e bebiam, depois saiam de fininho, deixando a dívida para a incauta que teve a gentileza de convidá-lo, ou aceitar sua companhia.
            Alguns casados outros procurando companheiras para encostarem-se em suas casas.
            Os que sabem rodopiar e rebolar no salão, com passos coreográficos, têm grande cartaz.
          Na maioria das vezes trabalham em escolas de dança, são corretores de imóveis ou vendem carros. Freqüentam essas festas até especialistas como bombeiros e eletricistas.

            Divertem-se toda a noite, depois convidam a mulher para ir à suas casas – quando as tem – ou se insinuam para ir ao apartamento delas.  E para preencher o vazio de suas camas, contentes, elas pagam as contas e os taxis, quando não têm carro.
            Na festa seguinte, aqueles mesmos homens com quem dormiram apenas as cumprimentam indiferentes ou até fingem não as conhecerem.

            Existem também os românticos, que se dizem apaixonados à primeira vista e, propõem um relacionamento firme, ao perceberem que a mulher pode oferecer vantagens materiais.

            Numa conversa longa e séria com um desses homens, percebi total desprezo por “essas mulheres que vivem na noite”. E eu perguntei: “com quem vocês dançariam, conversariam ou iriam para a cama, se elas não existissem?”

            Alguns romances podem acontecer entre as pessoas do Single Club, mas são raríssimos.

            Aqueles que estão em busca de companhia, desconfiam daqueles que são encontrados no lugar adequado.