domingo, 6 de novembro de 2011

PAR QUASE PERFEITO

                          PAR QUASE PERFEITO


         Sábado à noite estava me arrumando para dançar quando abri a porta para Zenaide.  Caiu nos meus braços aos prantos e, assustada, perguntei:
          - O que aconteceu?
         - Saudade do Venceslau
          - Como? Você não agüentava, sequer, ouvir sua voz. E já se passaram sete anos desde que ele morreu.
         - É, mas estou com saudade até das brigas.
          Apressada, tirei um vestido do armário meu, entreguei-lhe o estojo de maquiagem e, energicamente, disse:
          - Arrume-se, vamos dançar e arranjar um namorado. O que está lhe faltando é homem.
          Negou, retrucou, mas acabou indo para a noite.
           Quase na porta cruzei com Duarte, figura aborrecida que vivia a me paquerar.  E fui logo falando: “Oi amigo! essa é Zenaide, e, está conhecendo a noite carioca. Dance um pouco com ela.
         E rápida, fui ao encontro do Getúlio português, que na época, era meu alvo.
           Minutos depois os dois chegaram à mesa e ele disse: “vou te levar  em casa”; frase usada como código: “estou a fim de você”.
         Cheia de ‘frescura’, não admitiu sair do baile sozinha, uma vez que eu estava acompanhada. E atrapalhou o meu encontro.
                    No dia seguinte, Zuleica arrependida de ter perdido a única chance de toda a viuvez, pediu-me o telefone do fã. Eu só sabia o nome e que morava em Copacabana.
              Desesperada, passou meses vendo no catálogo, e telefonando para todo Duarte que morava em Copacabana.
                   Finalmente, achou a irmã do homem que parecia querer que o seu solitário irmão encontrasse uma namorada. Já fazia tantos anos que ele chorava a morte da noiva, num acidente de carro!
              Passei a ser confidente dos dois amantes, e participei do desenrolar dessa relação quase perfeita.
               Na primeira vez em que ela dormiu no apartamento dele, chegou à minha casa, cinco horas da manhã, em êxtase.
              Ele me ligou querendo saber tudo sobre ela.
              E continuamos conversando sobre cada encontro dos dois.
              Foram jantar onde o pai dele, descendente de italiano, costumava levá-lo quando ainda era quase um garoto.
        Ela, cabocla nordestina, de repente virou judia italiana e arranjou um sobrenome até então desconhecido.
        Foram a São Paulo e descobriram os seus brasões.

         Suas noites de amor, sempre no apartamento dele, eram descritas como se a mulher fosse uma adolescente pura.
         Uma noite, ele nu, pediu para ser acariciado e ela perguntou: - onde?-
Ele abraçou-a por trás, ela deu um pinote e perguntou:
 - o que você vai fazer aí? - Tanta inabilidade fez com que ele respondesse: - você está sem prática nenhuma!
           Fiquei irritada e disse: “Zenaide, não estamos no nordeste da década de sessenta. Agora somos mulheres livres, ativas e carinhosas. Temos rugas, algumas varizes e os seios já estão sofrendo a lei da gravidade. O que temos para oferecer a esses homens maduros e experientes é uma conversa inteligente e bastante talento para amar.
         Talvez eu estivesse enganada, pois Duarte também parara no tempo.
         Militar de corpo e alma, depois de total dedicação à carreira, enfartou e foi obrigado a ir para a reserva.
                Seus amigos, preocupados, sabendo que tal situação o levaria a morte, o contrataram para relações públicas do Ministério, onde servira tantos anos.
                        Muito feliz, aceitou, mas pediu para trabalhar uniformizado, o que era inusitado, pois estando na reserva deveria trabalhar à paisana.
                       Solteiro, preso a mãe e à  família da irmã de tal modo que dizia para todos que o sobrinho era filho dele.
                Um dia nos convidou para um jantar em sua casa.
                Ao entrar na sala escura e cheia de quadros das batalhas de guerras brasileiras, cenas históricas como D. Pedro I de espada em punho, pintados pelo Coronel Estigarribia, (o mesmo que pintou todas as telas Quartel General de Brasília), sobre todos os móveis havia soldadinhos de chumbo, de madeira, barro, louça ou plástico. Vestindo uma cadeira estava seu uniforme completo. E no chão as botas que calçaria no dia seguinte.
     O ambiente pesado mais parecia um quartel que uma casa.
      E mais compreensiva com Zenaide, pensei: “eu também perderia toda a prática para transar nesse ambiente.”
    Mas ela, cheia de paixão, achava tudo muito maravilhoso.

    Ela aproveitou o dia do seu aniversário para retribuir o convite e apresentá-lo às amigas.
 Cheia de orgulho tirou as melhores bebidas do falecido, a toalha de linho bordada foi colocada na mesa e os talheres de prata, as porcelanas e cristais trazidos pelo marido, durantes suas viagens ao exterior, descendo  dos armários para enfeitar a mesa.
 Mandou sua competente cozinheira preparar o que havia de melhor e servir o jantar.
          Duarte foi o último a chegar, todo empacotado, com um paletó, no mínimo duas numerações abaixo do seu peso atual. As pernas das calças entravam no rego da bunda e os botões do paletó, a qualquer momento se despregariam da roupa.

            Minha amiga, cheia de dengos, perguntou:
            - Meu bem, você não quer tirar o paletó para ficar mais à vontade?
            - Não! Quando eu chego num lugar vestido de um jeito, saio do mesmo jeito.

Estávamos beliscando petiscos e bebendo um excelente uísque quando ele lembrou que precisava dar um telefonema e pediu a Zenaide:
           -Meu bem, você pode ligar pra mim?
           - Claro, meu amor – respondeu solícita.
                Qual não foi a nossa surpresa quando ele pegou o telefone, perfilou-se, ficou em posição de sentido, bateu continência e disse:
                 “Boa noite meu General!”
                  E pálido ouviu alguma notícia que o deixou aflito.
                  Desligou e nervoso disse: “Zenaide a esposa do meu General faleceu. Ele, inconsolável, me contou que fez um travesseiro de papel de seda e recheou com todas as cartas e recadinhos que trocaram durante o tempo em que conviveram. Depois amarrou com um laço de fita de tafetá e, apoiou nele, a cabeça de sua amada. Veja que amor lindo! Vai além da morte. 
                 Tenho que ir velar o corpo dessa mulher, junto com o meu General. Desculpe, jantaremos outro dia.
    
                 Zenaide, decepcionada, com os olhos cheios de lágrimas e os lábios forçando um sorriso que teimava em não vir, se virou para nós, abriu os braços e disse:
         “Para ser importante na vida desse homem seria necessário haver uma revolução, eu me transformar  em Anita e ele em  Garibaldi.”                 
                
                  



sábado, 5 de novembro de 2011

CAMARÃO ELÉTRICO

                                                 CAMARÃO ELÉTRICO


         Ultimamente, minha irmã mais velha guardiã de documentos e antigos retratos, resolveu nos enviar fotos recuperadas, dos nossos ancestrais.
         Esta semana chegou pelo correio um retrato da família do nosso avô. Sendo eu, a filha mais nova do filho caçula, só consegui identificar o meu avô, em pé ao lado de uma senhora gorda, bem vestida e cheia de jóias.
         Senti carinho pelo menino franzino, feio e bem comportado do retrato e o comparei com o homem rebelde e aventureiro que conheci.
          Não era bonito; baixo e magro, tinha a pele avermelhada e olhos azuis; sempre agitado e de bom humor, o apelidaram de “camarão elétrico”.
Tinha uma a peculiaridade  de falar sem  pronunciar todas as letras, mesmo assim, fez sucesso na política cearense.
           Um dia, decepcionado, mudou-se com toda a família para a Amazônia onde fez fortuna com seringais.
          Na mesma medida que sabia ganhar dinheiro, gastava, fazendo de  sua vida uma festa.
           Viajava muito á Europa, sempre em lua de mel com uma amante ou para encontrar alguma namorada em Paris ou na Itália.
          E quando era descoberto, jurava que a mulher era do amigo Oliveira que levava toda a fama de ter todas as amantes do mundo. Ou então argumentava: “Maroca não é pau de sebo, não gasta; lavou tá novo.”
Às vezes, carente de carinho nos pedia para catarem piolhos imaginários nos seus cabelos grisalhos e ralos. E nós fazíamos um barulhinho nas unhas como se tivéssemos, matando os piolhos inexistentes, e ganhávamos  dez centavos por cada um. Quando completava a quantidade de dinheiro que ele queria nos presentear, ele nos  dizia: “chega, senão não ficará nenhum para tirar amanhã.”
           
            Uma madrugada ao sair da casa de uma amante, viu o marido entrando e se escondeu numa moita do jardim; exatamente, aquela que o corno escolheu para esvaziar a bexiga. Tomou um banho de mijo.

             Um dia chegou  à casa  e, ao se despir, vovó  percebeu que  estava sem as  ceroulas, e  gritou:  
            -Carlos, onde estão suas ceroulas?”
            - Perdi!  - respondeu tranquilamente.

             Com quarenta e nove anos estava farreando na Europa, quando passou mal.
Levado às pressas para um hospital em Paris, ouviu do médico terrível sentença:
         “Rentrez au Brèsil;  ne fumez pás;  ne bouvez pás ; et les femmes, jamais!”
              Ao sair do hospital, convidou uma das jovens com quem se divertia para fazer uma viagem ao Brasil, comprou muito vinho e charutos e veio se divertindo no navio até o porto de Belém, onde pretendia fazer uma romântica despedida.
              Já que ia morrer, que,  fosse em bom estilo.

              Quando o preço da borracha caiu, ele abriu no fundo de sua casa uma farmácia. E anunciando nos jornais da cidade remédios para todos os males, ganhou muito dinheiro principalmente com o leite de colônia.

              Contrariando todas as previsões possíveis sobreviveu à Maroca, sua mulher e, ainda tornou-se amante da enfermeira que cuidava dela.

                Na véspera de mudar-se para o Rio, foi tomar banho no Igarapé onde encontrou uma jovem cabocla lavando roupa com uma recém nascida deitada entre trapos.
                 Aproximou-se dela e perguntou:
                - Seu marido é bom pra você?
                 - Não. Ele me bate e eu passo fome.
                 - Amanhã, nessa mesma hora esteja aqui com sua filha, que levarei você comigo para o Rio.
                 Mais uma vez apelou para o amigo Oliveira, que no dia seguinte, apanhou a mulher com a criança e as despachou para o Rio.
                E viveu com ela, e outras também, durante um bom tempo.
      Com mais de cem anos de idade, cego e lúcido, sabia de tudo que se passava, ouvindo atentamente o Repórter Esso.
 Chorava de emoção e se indignava com maus da novela: ‘O Direito de Nascer’ que acompanhava com os ouvidos colados ao rádio.
    E quando alguém ia visitá-lo, ele sempre passava a mão em lugares indevidos.
   E as netas tinham que dizer:
              - Vovô, sou sua neta.
             - Desculpe, desculpe!

         Numa manhã, aos cento e três anos, ele não mais se levantou para o desjejum. Como uma fotografia nos faz viajar no tempo!...                                



          
                   

MEU PREDIO

                                                                O PRÉDIO

                Foi difícil convencer o marido a comprar um apartamento pequeno e estragado, pelo mesmo preço de um na Tijuca, novo, grande e com uma bela vista.
Não que a Tijuca a desagradasse, mas ela sentia que aqui era o seu lugar.
Fizeram  a mudança e as muitas obras necessárias levou todo  o dinheiro que o marido guardava para as emergências, até que a casa se transformasse no que é hoje. 
À frente da janela do quarto havia uma imensa pedra, uma árvore frondosa a qual veio se encostar um contêiner e nele se aninharam um negro alto com uma sunga e seu pequeno companheiro, gritava mais do que o que ela podia suportar. Quando o  Governador Brizola  assumiu e ordenou que o povo de rua não fosse incomodado.
Uma noite ela telefonou  para a delegacia disse o que estava acontecendo. O homem que lhe atendeu disse: “O Dr. Brizola nos mandou deixar o povo de rua em paz. Mas, se está incomodada, venha aqui, escreva, coloque seu nome, endereço, telefone e tentaremos fazer chegar sua queixa chegar ao  Governador.”  Claro que ela não correria  riscos.
Numa silenciosa noite ela percebeu que o ninho de amor do Vavá e de seu garoto desaparecera.
Do lado direito havia um prédio muito baixo que a deixava ver a rua. E do esquerdo  um terreno da policia, onde jamais fariam construção.
No fim da tarde  ela sentada num banco em frente ao prédio onde não havia grades, em companhia das vizinhas e conversavam. Algumas vezes falando mal das ausentes, outras dos filhos que estavam demorando a chegar da escola.
Um dia um prédio foi levantado no terreno da polícia.
O velho edifício do outro lado foi implodido e lá subiu uma parede imensa.
Um shopping  foi construído no lugar da pedra e sofreram com o barulho dos britados, anos e anos.
Colocaram grades  à frente do  prédio.
O banco foi conservado, mas não tinham mais crianças para esperar.
O  prédio envelheceu e com ele os moradores.
Alguns morreram e seus herdeiros venderam os apartamentos ou deram para os filhos recém casados. E,  herdeiros ou compradores, reformam tudo, por isso a poeira suja tudo e todos.
Mas o que a  tem incomodado muito é barulho causado por gritos e sussurros  dos jovens que não se cansam de fazer amor.
Tem uma jovem que grita: “me fode mais, mais!”.  O parceiro murmura: “não agüento”
Outra noite uma mulher gemia que parecia sentir dor.
Domingo o barulho de tapas e gritos seguido da  voz de um homem exigindo que a vítima se  calasse deixou-me  nervosa.
Na madrugada de sábado  todos os  casais do  prédio fodem ao mesmo tempo.
Não conseguindo dormir, ela  decidiu  ligar a TV.
Estava  passando um filme pornô. Ela se masturba  e depois fica a se perguntar: “Será que fazíamos todo esse barulho e não ouvíamos os arrulhos dos outros? Ou será que o emparelhamento produz eco? “
E na manhã seguinte ela senta-se no mesmo banco e fica esperando as moças saíam para seus trabalhos ou para levar seus bebês a passear. Tenta identificar quem é qual.
E nostálgica se pergunta: “será que eu já fiz parte dessa grande suruba?”
o uma enorme pedra a nossa frente, um terreno cheio de sujeiras de um lado e um velho prédio do outro.