quinta-feira, 16 de julho de 2015

ATOS IMPENSADOS

Depois de um casamento desastrado, dois filhos para criar e recursos parcos, voltei à faculdade. Dessa vez, sem a influência, quase tirânica, da família escolhi a Faculdade de Direito. Foram quatro anos difíceis. Além da responsabilidade com os estudos, as queixas dos filhos e críticas dos familiares.
               Tudo, no entanto, me pareceu válido diante do orgulho que senti no dia da formatura, fazendo o juramento, nem sempre cumprido, de bacharelato. Ainda teria que estudar muito para vencer a próxima etapa. A prova da OAB.
               Venci e minha vaidade era grande, e os projetos maiores ainda. Chegou à hora de mostrar todo o conhecimento que acumulei. Que caminho tomar? Continuar estudando para concurso público? Quase impossível. Não tinha mais recursos e os filhos reclamavam o  abandono em que eu os deixara todos aqueles anos. Trabalhar num escritório de Advocacia estava aquém  das minhas aspirações.
            Acabei me associando a duas colegas de faculdade e com a cara e a coragem, montamos um escritório no centro da cidade.
            Telefonamos para todos os amigos oferecendo nossos serviços, entregamos panfletos para serem distribuídos nas ruas, e pedimos aos colegas para nos indicarmos, caso não houvesse interesse por algum caso jurídico que lhe chegasse as mãos. As dívidas já estavam se acumulando quando nos apareceu o primeiro cliente.
              Contei tudo isso para justificar o empenho exagerado com que abracei o meu primeiro contrato.
            Uma concessionária de pneus nos procurou para descobrir quem estava desviando material do estoque. E o proprietário tinha pressa em castigar quem o roubava.
            Cheia de empáfia, cheguei ao local do crime para averiguações. Ali encontrei alguns policiais e um suspeito.
            O homem era raquítico, pálido, assustado, claudicava como se tivesse sido vítima de paralisia infantil. Os lábios pálidos, não se abriam para falar nada. Levei-o para uma sala, e sozinha o interroguei durante muito tempo. Não consegui ouvirdele uma palavra sequer.
            Irritada, pensei: “será que este bandido vagabundo vai me atrapalhar? Afinal de contas, este é o meu primeiro contrato. Vou ganhá-lo a qualquer custo”.
            Chamei os policiais e disse: “leve o ladrão para aquele galpão e só saiam de lá com a confissão”.
            Alguns minutos depois, ouvi barulho de chicotadas e gritos de dor. Fiquei assustada, mas, fui incapaz de dizer qualquer palavra para acabar com o espancamento. Só pensava no sucesso do meu trabalho e no dinheiro que receberia.
            Quando, finalmente, eles conseguiram que o homem falasse e o trouxeram para fora, vi sangue no seu rosto e vários machucados pelo corpo. E aqueles olhos molhados de lágrimas estavam cheio de ódio.
            Depois de ouvir elogios e receber um bom dinheiro, não senti o prazer que esperava. Só havia remorso. E eu precisava aceitar que certas coisas são irremediáveis e não tem retorno possível.


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