segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

DOMINGO DE SOL

DOMINGO DE SOL
          O dia estava claro, o mar revolto com ondas fortes e na areia, barracas coloridas sobre cabeças incontáveis.
          Sentei numa mesa com as pernas apoiadas numa cadeira, bebendo água de coco e imaginando como seria a vida submersa naquela imensidão de água. Iemanjá existirá? É possível. Nós temos deuses e santos, eles também.
 Sobre minha cabeça uma enorme águia voava.
 Como seria a vida da maior ave do mundo? Desejei ter a sua força e a capacidade de ir até as mais altas montanhas, tão alto que  só  ela alcança.
 Mas, a águia é tão sozinha... Não gosto de viver só.
 Olhei para um grupo de andorinhas que se aproximavam São aves pequenas que voam em  grupo. Fazer parte de um todo é melhor do que ser o todo, pensei, desistindo de ser águia e, querendo ser gaivota.
 À mesa, ao meu lado, estava ocupada por um homem e uma garotinha. Percebi que ela estava indignada com o pai e, tratei de ouvir a conversa.
Pai, você disse que não podemos mentir, mas, você mentiu para a mamãe.
- Eu não mentir. Estava brincando.
- Então podemos mentir de brincadeira?
- Não é isso, atrapalhou-se o homem. Eu só quis dizer  que a Anita não estava lá em casa para sua mãe não precisar correr.
- Não pai, você disse para a mamãe que nós dois estávamos sós, e era mentira.
O pai apelou para sua autoridade.
- Não aceito que você diga que eu sou mentiroso.
- Mas, é, insistiu a menina.
- Me respeite, senão, eu lhe dou um castigo.
- Por que eu estou dizendo a verdade? Não compreendo...
A criança confusa, o pai zangado, e eu sonhando ser uma grande águia solitária, ou uma gaivota, entre todas as que voavam sobre nossas cabeças.
Tudo acontecendo debaixo daquele sol escaldante que brilhava sobre todos, num domingo de verão.

SAINDO DO ARMÁRIO

SAINDO DO ARMÁRIO
Dezembro sempre foi um mês de muito trabalho para o fotógrafo de sucesso.
Aurélio, orgulhoso de sua fama, perguntava-se: “não há nesta  cidade outra pessoa de talento para fazer fotos como eu?”
Naquela segunda feira, sonhou com sua paixão, acordou de madrugada exitado e se aproximou da sua mulher. Tocou-a de leve, acariciou-a e a beijou.
Ela, sonolenta, reclamou. Talvez o marido tenha interrompido um sonho. Talvez como ele, tivesse desejos inconfessáveis.
Já acordada, ela entrou no “clima”. Mas, quando ele quase gozava, a mulher disse: “amor você precisa comer menos e fazer exercícios. Sua barriguinha está grande”.
Péssimo momento para dizer isso. Ele olhou para a cabeça  cheia de rolos, os seios caídos, à mostra e ficou desapontado.
 Denise com seu humor insuportável e a cara de vítima, lhe causava engulhos e ele broxou de vez.
Seu casamento ia de mal a pior.
Na hora do café ele se vingou da mulher: “Por causa de sua lentidão, saio todos os dias atrasado, corro para encontrar vaga, não encontro e estaciono em qualquer lugar. As multas estão custando uma fortuna.”
Quando chegou ao trabalho, deu ordem à secretária: “não me perturbe. Não estou para ninguém.”
Sozinho, começou a refletir sobre sua vida, o segredo que vinha escondendo há um ano.
 Tinha que tomar uma decisão, antes que o modelo chegasse.
 “ Diego chegou ao meu atelier para fazermos fotos. Um menino pequeno, magro, de olhos azuis, e cabelos crespos, parecia um anjo.
Logo que entramos no estúdio percebi que ele era sedutor e estava empenhado em me conquistar.
As fotos ficaram lindas e viraram out-door, que enfeitaram as ruas da cidade, por muito tempo.
No princípio, era  aquele entusiasmo típico do artista por sua própria obra, mas, a cada nova sessão, percebia que as coisas tomavam um rumo perigoso.
Um dia Diego teve a ideia de posar nu. Foi dele a iniciativa dos primeiros abraços disfarçados, o beijo fraterno, que, pouco a pouco, se transformou em beijos de paixão.
O homem recordou a  primeira noite juntos, como mágica, a mais bela de sua vida.
 E assim, o amor foi crescendo, e virou sua vida pelo avesso.
De repente, o celular tocou: Era Diego voltando para fazer novas fotos para o próximo Natal. Aurélio estremeceu. O coração disparou.
Agora o homem viveria com o anjinho, seus melhores momentos, no paraíso.

ÓRFÃ

ÓRFÃ
         Não conheci meu pai, e jamais  ouvi falar dele. Quando tinha quatros anos mamãe morreu tuberculosa. Saí do casebre onde vivia, para a casa da minha madrinha.
          E tudo mudou.
          Lembro-me do primeiro copo de água gelada que bebi, da cama cheirosa e macia no quarto só meu, do armário cheio de roupas novas, dos vestidos combinando com sapatos e bolsas. As meias e  as luvas eram feitas de tricô.
         E sentada na mini-penteadeira eu me via no espelho bem diferente da menina que morava na casa de sapê, numa  praia quase deserta, fedendo a peixe e brincando com vizinhos esquálidos e famintos.
Minha madrinha deu-me tudo, mas foi ao meu padrinho que entreguei todo o meu amor.
Todas as noites, enquanto o casal conversava na enorme varanda, ele me colocava no colo e, entre uma história e outra, cantava versinhos feitos especialmente para mim. 
Como a madrinha não gostava de viajar para as fazendas,  era a mim que ele levava todos os fins de semana. 
No caminho de ida ele me dizia o nome das pequenas cidades e, na volta, mandava que eu repetisse. Acertava todos. Ele, orgulhoso, exaltava minha inteligência.
         Da madrinha ganhei roupas, festas e educação.  Dele, companhia, elogios, carinhos. E era feliz.
        
         Quando tinha treze anos percebi uma diferença sutil no padrinho. Seus olhos azuis me fitavam com estranheza. Suas mãos me pegavam com mais força ou, como sem querer, tocavam nos meus seios e no meu púbis.
        Muitas vezes, durante as viagens ele passava a mão sobre minha  coxa. E a cada novo fim de semana, ela escorregava mais para dentro do meu vestido.  E eu gostava.
         Nessa época madrinha descobriu que estava diabética e sua pressão arterial estava alta.  Era gulosa e comia tudo que não devia. Isso deixava  meu padrinho preocupado e, às vezes, zangado.
         Ela andava desconfiada com as constantes viagens do padrinho e eu a vi comentando com uma amiga que ele estava frio e já não a procurava com a mesma freqüência de antes.  E desconfiava  que ele estivesse de caso com  alguma caboclinha da fazenda.
         Eram esses os únicos motivos de alguns  desentendimentos.
         Ainda era um casal feliz. Ainda havia amor entre os dois.
         Numa sexta- feira meu padrinho chegou com um embrulho de presente e disse com  jeito misterioso: “é para você, mas, só deve abrir amanhã, na fazenda e na minha presença.”      
Apesar de curiosa,  esperei o momento em que estávamos sozinhos. Olhei, deslumbrada, para o estojo de maquilagem.
Ele disse: “Agora pinte seu rosto e coloque o batom mais escuro.” Obedeci.
        Aproximou-se de mim, olhou os meus olhos e  beijou meus lábios virgens. E eu gostei.
         Quando me levou para a cama, pensei na madrinha, mas meu corpo desejava o corpo dele. E fui.
           Fui tocada e beijada até ficar pronta. Virei mulher. E gostei.
         Vivemos  um ano de amor intenso e ele me ensinou o  gozo de diferentes  maneiras.
          Madrinha continuava a procurar a cabocla que seduziu seu marido . E eu ali, tão perto, espantada com   sua  incapacidade de perceber o que estava acontecendo entre nós.
         Traí a mulher que me acolheu carinhosamente e cuidou de mim como uma mãe.  Mas só  consigo ser feliz com ele, mesmo me sentindo um verme.

REGINALVA

                                                                         REGINALVA
       Reginalva era a  filha caçula da família. Alta, magra, tinha os cabelos claro, lisos. Andava com os pés virados para fora, o que lhe valeu o apelido de “quinze para três”. Desde pequena  denotou um comportamento estranho.         E suas duas irmãs a evitavam sempre.
              Sua mãe ficara viúva ainda jovem, com a enorme responsabilidade de criar os filhos e as duas enteadas do primeiro casamento do marido.
        Na grande casa onde moravam, montou um colégio que era o único da redondeza e, ela, a única professora.
       E devotada cristã, era admirada e respeitada por todos.
        Um dia a enteada mais velha foi vista na casa da cafetina mais famosa da cidade e, horrorizada com tamanho pecado, internou-a no hospício. Meses depois, a moça cometeu suicídio.      
       A outra foi expulsa de casa, porque ficou grávida antes do casamento.
       Seria essa mulher cristã mesmo?
        Quando as irmãs se foram, Reginalva sentiu-se só e rejeitada. A vida  parecia insuportável.
        De maneira repulsiva, descarregava sua raiva nos animais domésticos. Quebrava pescoços de galinhas e  pintos, afogava gatos, apedrejava cães.
     Procurou se aproximou dos  vizinhos e, fazer amizade com as garotas do colégio. E destilava seu veneno e, lhes tirava a inocência.
      Falava de coisas que ninguém mais contava.
            
         Acabou com fantasias sobre Papai Noel, descrevia o corpo peludo dos irmãos mais velhos, ensinava como as mulheres engravidavam, levava as amigas  preferidas para enterros, e sabia contar piadas como ninguém.
        E como conhecia a vida particular de cada vizinho! E descrevia tudo  com tanto  prazer que  alegrava algumas, e deixava outras assustadas.
        “Sabe, o Hélio estava sozinho na sala com o pau para fora. Sua mão subia e descia nele. E  gemeu, até sair dele uma gosma”.
         “Ontem Horácio chegou bêbado e deu uma surra na mulher. Depois foi para a janela com o rosto pintado, escondendo as manhas roxas e com roupas decotadas mostrando os seios. Ela gosta de apanhar...”
         “Achei muito bom! Aquela nojenta da Teresa não me convidou para a festa de aniversário.  Toda prosa. Na hora de cantar os parabéns, o pai chegou cheio de cachaça, e mandou todos os convidados saírem de sua casa.” 
          E ria muito, no fim de cada história.
         Reginalda apaixonou-se por um turco, bem mais velho do que ela, e passou a falar sobre tudo que faziam juntos.
         Por algum tempo, perdeu o interesse  pela vida alheia, e deixou a vizinhança em paz.
         Meses depois o namoro terminou e ela voltou mais venenosa do que antes. Agora usava o anonimato do telefone. Passava trotes para todos aqueles que desejava atingir.
         E muitos casamentos entraram em crise, outros terminaram. Jovens apanharam e crianças foram castigadas.
       Mas seu alvo principal era o militar e sua mulher, novos na redondeza.
Todas as tardes, à mesma hora, ela telefonava para o trabalho dele e o chamava de corno. Foi, pouco a pouco, contando histórias cheias  detalhadas  da vida de sua companheira.
 Conseguiu, finalmente atingir seu alvo.
 O homem inventou uma viagem. No meio da madrugada voltou para casa e pegou a mulher e o amante juntos.
      E a tragédia aconteceu. Ele matou os dois.
      Foi a maior vitória de Reginalda.
      Nos dois funerais, ela se comportou como uma heroína feliz.
      Sem culpa. Sem remorso.

TEATRO DA SEDUÇÃO

TEATRO DA SEDUÇÃO

A capacidade do ser humano de lidar com as mudanças da vida são infindáveis.
            Durantes anos as pessoas envelheciam, encostavam-se, como um apêndice, aos filhos e netos ou eram deixadas em asilos, enquanto aguardavam a chegada da morte. Que era bem mais cedo do que hoje.
            Agora os idosos são muitos, e novos costumes, novas vidas para eles.
Os velhos que não dispõem de dinheiro são deixados em casas de repouso, diferentes dos antigos asilos, onde têm vida social, e fazem amizades.
           
            Os aposentados procuram trabalhos diferentes, que talvez tenham sonhado em fazer toda a vida, movimentam os corpos em caminhadas, ginásticas ou danças.
            E assim, novos empregos foram criados para suprir as novas necessidades.
          Alguns aproveitam o extra para realizar antigos sonhos de fazer faculdade ou cursos de especialização.
           
            Os idosos que têm posses frequentam academias ou têm personal training.
            As mulheres contratam bailarinos (é ofensa inadmissível dizer que alugam), compram roupas de luxo e perfumes importados para eles, e vão aos bailes.
            Muitas delas apaixonam-se pelos bailarinos e os transformam em seus pares exclusivos.
             Alguns dançarinos são homossexuais, assumidos ou disfarçados, e garotos de programas.
            Outros  vão para a cama com as senhoras que pagam um extra.
            As festas de aniversários e casamentos são deslumbrantes e trocam presentes caros.
             Organizadoras de eventos fazem feijoadas ou jantares onde vendem fixas para as mulheres escolherem com quem dançar.  Mas  os profissionais que trabalham assim, são menos cotados, menos valorizados.
 Assim, as mulheres encontram motivação para se enfeitar e empurrar a velhice para mais tarde.
              É necessário ter dinheiro para fazer parte desse grupo de idosas.
            Algumas senhoras, sem parentes, se casam com seus dançarinos e lhes deixam polpudas pensões.
            É um casamento pro forma; eles continuam levando vidas independentes.
            Se forem rapazes bons e as tratarem com carinho e afeto, ótimo!  Mas, se forem mau caráter e até apressarem suas mortes?
          Perigoso, não?
          Mas, viver é um perigo constante.
          Por que não aproveitar tudo que a modernidade nos oferece?
        Vale o risco?
            Eu, particularmente, não gosto de participar desse teatro e sinto falta dos bailes em que aconteciam surpresas, jogos de sedução e até a possibilidade de encontrar um namorado.

O INQUILINO

 O INQUILINO
          Ele foi o quarto candidato que apareceu naquele domingo. Jovem, simpático e falante, foi o escolhido para meu inquilino.
          Contou-me que na década de sessenta sua mãe, filha de um Oficial da Aeronáutica, fugiu de casa em companhia de um hip. Viveram em várias cidades de muitos países europeus. Ele e seu irmão jamais conheceram um lar estável. Mas, gostara da variedade de línguas que aprendeu e costumes que conheceu.
          Logo eu estava encantada, e todas as noites esperava só dormia depois que ele chegava, sempre contando histórias vividas ou  projetos que fazia.
 Uma noite chegou tarde, entrou no meu quarto sem pedir licença, sentou-se no chão, falou da namorada que deixara na Alemanha e como era a vida sexual deles. Em seguida me perguntou se eu sabia o que era tantra.
Deve ter bebido, pensei.
Veio devagar, acariciou minha cabeça, cada pedacinho do meu corpo e mostrou-me como era tantra e outras modalidades de sexo. Assim, nos tornamos amantes.
          Todas as noites ainda eu o via chegar. Nem sempre ia ao meu quarto. Mas eu, o esperava acordada. Sempre disponível, sempre ansiosa, pelos seus carinhos.
          Ele crescendo, invadindo o meu espaço, trazendo amigos e irmãos para comerem e beberem quando lhe interessava.
          Comecei a sentir enjoos, vontade de vomitar. Não sabia que cheiro estranho tomara conta da minha casa.
          Numa manhã ao chegar a sala encontrei o meu hospede fumando aquele cigarro fedorento e cheirando alguma coisa  que não identifiquei.  Assustada, percebi que ele se drogava. Argumentou que nos países de onde vinha era lícito.
Aqui não, respondi. E contei a história de dois sobrinhos inutilizados pelo vício.
          Prometeu não mais usar drogas na minha casa.
          Fiquei convencida de que não haveria mais problemas com o  meu inquilino e agora também, meu amante.
Um dia, três guardas vieram ao meu apartamento em busca de um traficante de drogas internacional. Vieram com mandato judicial, entraram no meu apartamento, e, no quarto do inquilino encontraram tudo que precisavam para me incriminar como receptadora. 

TRÁGICA PAIXÃO

                                       TRÁGICA PAIXÃO
Quando mamãe morreu num trágico acidente, deixei de ser a garota cuidada, de longos cabelos negros, presos por tranças      entremeadas de fitas com cores variadas, as pregas da saia escolar perfeitas, blusas sempre engomadas. Insanamente vaidosa, que deixava minhas colegas irritadas. E elas, por inveja, ou simplesmente, por acharem que eu estava fora do contexto, me  desarrumavam toda, e eu corria aos prantos, para pedir socorro aos professores.
Orfã, dei uma reviravolta no comportamento e no visual. Libertada de toda e qualquer vaidade, me integrei ao grupo hippy, então, o preferido pelos rebeldes.
Para desespero de papai e dos meus irmãos, agora eu vivia suja, descabelada e mal vestida. Minha pele era vermelha, cheia de espinhas, meus cabelos longos e desgrenhados, faziam de mim uma moça desmazelada e sem nenhum encanto. Não fazia sucesso entre os rapazes. Tive aventuras que me deixaram duas filhas. Jamais dei a elas o carinho, o cuidado, que recebi.
O tempo passou, as rugas marcaram o meu rosto, o corpo já sem curvas e os cabelos cheios de fios brancos, fui tomada por uma solidão imensurável. Assustada, sinto que não vivi nesses anos. E a solidão é grande
Preciso voltar a ser mais cuidadosa, e procurar aceitação.
Mudada,  frequentei lugares badalados, onde reencontrei pessoas conhecidas e familiares de quem estava afastada há anos.
Agora diferente, parecendo mais jovem e mais bonita fui elogiada por algumas conhecidas e, até por  homens, o que me deixava feliz.
Ousei sonhar com um homem que me amasse e que vivesse comigo uma paixão. 
O tempo passava e apenas elogios. Voltava feliz, porém   desejando mais. Precisava encontrar  o homem certo para realizar o sonho tardio.
Já desesperada, telefonei para o marido da única amiga que me restou e o convidei para jantar em minha casa.
Há muito tempo disfarço uma atração por ele e, desconfiava, que ele também por mim.
Bruno foi sozinho à minha casa.
Ele confessou que, há muito tempo, sentia simpatia e certa curiosidade por mim.
 A comida estava ótima, o vinho melhor ainda.
Embriagados, fomos para o quarto.
Tiramos a roupa e nos acariciamos. Ele beijava minhas  carnes gordas, meios seios murchos,  e eu senti um prazer nunca antes vivido, gemia e chorava. Nunca fui tão feliz.
Disse que voltaria.
Agora minha vida se resumia a espera por ele. Liguei várias vezes e Bruno sempre adiava nosso novo encontro.
Como fiquei feliz na tarde em que ele chegou de surpresa!
Trazia uns salgados para acompanhar aquele vinho que ainda estava na geladeira. E, novamente, acabamos na cama.
Dessa vez ele escorregou e caiu sobre meu corpo. Senti uma dor insuportável na coluna, mais especificamente na lombar. Os joelhos também foram afetados.
 Essas dores tem me acompanhado  todos os dias de sua ausência.
 Telefono, ele não atende. Deixo recado, ele não retorna.
Surpreendo-me. Ele sempre foi um homem educado, fino, por que esta grosseria!
E insisto, dia após dia.
Coloco minhas joias, uso um  vestido maravilhoso, uso perfume francês e espero um telefonema, um toque na porta que anuncie a chegada do meu homem. Ele é meu, só meu e tem que voltar para mim.
 Deixo recado, marco encontro  e ele ignora. Tenho certeza de que ele me ama e precisa de mim tanto quanto eu preciso dele. Fico dias em casa, cheirosa e elegante a esperar o homem que invadiu a minha vida, entrou pelo meu corpo. Eu sou dele e ele é meu. Jamais desistirei. Prefiro matá-lo a deixar com a mulher que não o merece, que não o valoriza como eu.
Tudo isso eu já disse no telefone silencioso. Estou cansada de esperar. Agora vou agir. Devo ir ao seu  encontro a noite, quando não houver ninguém por perto.
Esperei por ele num cantinho da garagem e, ao se aproximar do carro, atirei.
Quando eu acordei estava num lugar horrível, parecia uma masmorra. Ele a meu lado riu e falou: “sua louca, você nem pontaria tem.”
E saiu para sempre de minha vida.



Não é justo!  Porque ele está fazendo isso comigo?

A PEDRA DO PRAZER

A PEDRA DO PRAZER
Passei anos sem voltar á minha terra. Estava cheia de curiosidade em  rever os lugares que recordavam minha infância e adolescência.
·      Acordei antes de todos da casa onde me hospedei, e, silenciosamente, me  vesti e fui ver o mar verde, como sempre ficava  nos dias de sol, e caminhar por toda a orla, agora pavimentada e cheia de belas construções.
·      O prédio enorme, e, de beleza inquestionável,  que encontrei,não me consolou da saudade  que senti.
·      Mas lá, de pé, resistindo aos vantajosos apelos imobiliários, estava o clube onde me diverti e conheci meu primeiro amor.
·      Procurei o barraco do Seu Genuíno, onde sempre parávamos para beber água de coco, abrir  e comer a laminha”,enquanto o velho pescador dizia para meu namorado: “Tenho tanta admiração por vocês que pilotam aviões!   Por mais longe que eu vá com a minha jangada, vocês vão mais do que eu. voces são muito corajosos”.  Corajosos eram eles, que enfrentavam as ondas até alto mar numa frágil jangada.
        E a enorme  pedreira para onde fugíamos,  a fim de nos beijar e nos  acariciar, onde estaria. Em seu lugar, encontrei   um bar. Pelo menos continuava a ser lugar de diversões, afagos e sarros.
·      Ao atravessar a rua, vi uma ponte entrando  mar adentro. Caminhei  nela por muitos metros . No final encontrei as pedras!  E pensei:   estará ali  aquela pedra branca, grande, que me parecia  macia, a mesma onde me tornei mulher. Precisava  pegar aquela pedra!

·      O prédio enorme e, de beleza inquestionável,  que encontrei não me consolou da saudade  que senti.