quarta-feira, 6 de maio de 2015

AMOR DE OUTRAS VIDAS

                                   AMOR DE OUTRAS VIDAS

Como me foi recomendado, cheguei ao Rio num sábado e Pedro, meu irmão, estava me esperando na rodoviária         . Entramos num taxi e fomos para seu pequeno apartamento em Copacabana.
Minha alegria era tão grande que nem respondia às perguntas que ele me fazia sobre nossos pais e irmãos que ficaram no interior. Só tinha olhos para as ruas largas, as pessoas bonitas e bem vestidas que passavam pelas calçadas, e me extasiava com prédios enormes, um ao lado do outro.
Tudo era diferente da pequena cidade onde nasci e de onde nunca tinha saído antes.
Por fim, chegamos perto do mar. Era maior do que qualquer rio que eu já vira em toda a minha vida. Meu coração batia acelerado, e foi-se qualquer sentimento de culpa por ter abandonado meus pais.
Agora aproveitaria cada minuto que o destino me deu para aproveitar a juventude que me restava. E, por um momento, me vi bela, jovem, cheia de possibilidades de amar e ser amada.
Quando subimos no elevador do edifício onde meu irmão morava, agarrei no seu braço. E ele me olhou de maneira carinhosa, e riu. O apartamento era pequeno, mas chegava para nós dois.
Pensei na casa espaçosa, no quintal grande e cheio de árvores que deixei. Mas logo afastei essas lembranças. Não queria ter saudade de nada nem de ninguém.
Logo nos primeiros dias eu saía todas as manhãs para comprar pão, leite, ou qualquer objeto que me fizesse conhecer mercearias, açougues ou quitandas, ver pessoas, comparar preços e fazer amizades.
Sempre voltava para casa com pão quentinho, e debaixo do braço, um jornal, para ver anúncios de empregos que me parecessem interessantes.
Pedro, no entanto, insistia para que eu procurasse ver os editais para concurso público, ver o programa e estudar para as provas.
Encontrei um anúncio de emprego num hospital. Exigiam ensino médio e fui de professora para um trabalho gratificante: cuidar de doentes. Passei nas provas, mas me colocaram na secretaria. Fiquei decepcionada, pois preferia cuidar das pessoas.
Depois de alguns meses aluguei um pequeno apartamento no subúrbio. Fiquei independente, embora acordasse cedo e ainda estava escuro quando eu saia para o trabalho. Quando voltava já estava anoitecendo. Tirava de um velho filtro água quase morna para beber, e num fogão enferrujado fritava ovos e comia com pão. A solidão e o desconforto eram tão grandes que já sentia saudade da casa simples, que deixara para trás.
Numa tarde quente de verão ouvi o estrondo de carros batendo e logo entrou no hospital um homem muito machucado. O encaminhei para os primeiros socorros. Depois não parei de pensar nele. Lembrava de cada gesto seu, do rosto sujo de sangue, dos cabelos despenteados, dos olhos castanhos apavorados. Tudo nele me parecia familiar. Será que eu o conhecia de outras vidas?
Naquela noite, depois de fazer minhas orações, tive certeza de que já tínhamos nos encontrado.
Alguns dias depois, quando ele voltou para tirar os pontos, meu coração disparou, minhas pernas ficaram bambas e minha voz trêmula. Em pouco tempo já sabia o seu nome e telefone.
Criei coragem, liguei para Edmundo e marcamos um encontro defronte ao hospital.
Depois do expediente fomos ao cinema e tomamos sorvete.
E aos quarenta e dois anos tive meu primeiro encontro, o primeiro namorado, o primeiro homem que se interessava por mim.
Feliz eu vivia nas nuvens pensando em vestidos, sapatos e salões de beleza para cuidar dos meus cabelos e das minhas unhas. Comprei perfume só para ouvir meu amor dizer: “um, que cheiro gostoso você tem!”
Edmundo era assim. Dizia palavras amorosas, falava comigo baixinho, me beijava e abraçava. Eu sentia um calor no corpo todo e um formigamento nas partes íntimas. Eu vivia um sonho, sonhado toda a minha vida.
E meus colegas estavam espantados com minha transformação.
Edmundo me convidou para visitar a irmã, única pessoa que restava de sua família. Ao chegarmos à sua casa ela tinha sido chamada para uma emergência. Ficamos sozinhos e ele se mostrou gentil e carinhoso. Ofereceu cerveja bem geladinha. Bebi e gostei.
Logo estávamos nos acariciando intensamente. Eu excitada querendo mais e mais. Fomos para seu quarto e ali ele me fez mulher. Jamais esquecerei o que vivi; maravilhoso, indescritível.
Ao voltar para casa, senti remorso. Afinal ainda não éramos casados. Rezei e pedi perdão a Deus.
Voltei a cada convite dele. Gostava de sua companhia em qualquer lugar. Mas preferia quando me levava para a casa da irmã e fazíamos amor. Aqueles momentos me tiravam a razão e me levavam para o céu.
Nas tardes de domingos e feriados, juntos planejamos uma vida cheia de amor. Jamais conheci tanta felicidade.
Nunca estive tão distante de minha família e de Deus.
Edmundo e eu abrimos uma conta conjunta para comprar e mobiliar um apartamento só nosso. E fomos ver a pequena capela onde ele sonhou casar comigo.
E eu trabalhava mais e mais para esse dia chegar logo.
Ele também fez horas extras, para apressar o dia em que pudéssemos viver juntos e abençoados pelo casamento.
Eu lhe disse que já tínhamos dinheiro suficiente para realizar nosso sonho, mas ele não me pareceu interessado e mudou de assunto. Talvez estivesse com alguma preocupação.
Quando eu insistia em marcar a data do casamento ele se irritava.
E eu continuei depositando no banco todo o meu ordenado.
Num fim de semana Edmundo não apareceu. Telefonei para sua casa e ninguém atendeu.
Fui à missa e rezei pelo nosso amor.
Na semana seguinte ele desapareceu. Por mais que ligasse para o número dele, ninguém atendia.
Tive um mau pressentimento e fui ao banco. Nossa conta estava zerada. Corri para casa com o coração acelerado, doído, e lágrimas escorrendo pelo rosto.
Tive uma crise muito séria da qual não me lembro. Fiquei meses em um hospital de doentes mentais.  Não me recordo de nada que vivi nesse tempo.
Depois voltei para a casa dos meus pais e continuo tomando anti deprecivos e calmantes que me dopam.
Por mais que tente não pensar nele e no que vivemos juntos, sua lembrança chega e me invade.
Tiro do armário o seu retrato, olho para seu rosto, me masturbo e gozo.

Depois, cheia de culpa, passo a noite rezando para Deus me perdoar.

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