AMOR DE
OUTRAS VIDAS
Como me foi recomendado, cheguei ao
Rio num sábado e Pedro, meu irmão, estava me esperando na rodoviária .
Entramos num taxi e fomos para seu pequeno apartamento em Copacabana.
Minha alegria era tão grande que nem respondia
às perguntas que ele me fazia sobre nossos pais e irmãos que ficaram no
interior. Só tinha olhos para as ruas largas, as pessoas bonitas e bem vestidas
que passavam pelas calçadas, e me extasiava com prédios enormes, um ao lado do
outro.
Tudo era diferente da pequena cidade
onde nasci e de onde nunca tinha saído antes.
Por fim, chegamos perto do mar. Era
maior do que qualquer rio que eu já vira em toda a minha vida. Meu coração
batia acelerado, e foi-se qualquer sentimento de culpa por ter abandonado meus
pais.
Agora aproveitaria cada minuto que o
destino me deu para aproveitar a juventude que me restava. E, por um momento,
me vi bela, jovem, cheia de possibilidades de amar e ser amada.
Quando subimos no elevador do
edifício onde meu irmão morava, agarrei no seu braço. E ele me olhou de maneira
carinhosa, e riu. O apartamento era pequeno, mas chegava para nós dois.
Pensei na casa espaçosa, no quintal
grande e cheio de árvores que deixei. Mas logo afastei essas lembranças. Não queria
ter saudade de nada nem de ninguém.
Logo nos primeiros dias
eu saía todas as manhãs para comprar pão, leite, ou qualquer objeto que me
fizesse conhecer mercearias, açougues ou quitandas, ver pessoas, comparar
preços e fazer amizades.
Sempre voltava para
casa com pão quentinho, e debaixo do braço, um jornal, para ver anúncios de
empregos que me parecessem interessantes.
Pedro, no entanto,
insistia para que eu procurasse ver os editais para concurso público, ver o
programa e estudar para as provas.
Encontrei um anúncio de
emprego num hospital. Exigiam ensino médio e fui de professora para um trabalho
gratificante: cuidar de doentes. Passei nas provas, mas me colocaram na
secretaria. Fiquei decepcionada, pois preferia cuidar das pessoas.
Depois de alguns meses
aluguei um pequeno apartamento no subúrbio. Fiquei independente, embora
acordasse cedo e ainda estava escuro quando eu saia para o trabalho. Quando
voltava já estava anoitecendo. Tirava de um velho filtro água quase morna para
beber, e num fogão enferrujado fritava ovos e comia com pão. A solidão e o
desconforto eram tão grandes que já sentia saudade da casa simples, que deixara
para trás.
Numa tarde quente de
verão ouvi o estrondo de carros batendo e logo entrou no hospital um homem
muito machucado. O encaminhei para os primeiros socorros. Depois não parei de
pensar nele. Lembrava de cada gesto seu, do rosto sujo de sangue, dos cabelos
despenteados, dos olhos castanhos apavorados. Tudo nele me parecia familiar. Será
que eu o conhecia de outras vidas?
Naquela noite, depois
de fazer minhas orações, tive certeza de que já tínhamos nos encontrado.
Alguns dias depois,
quando ele voltou para tirar os pontos, meu coração disparou, minhas pernas
ficaram bambas e minha voz trêmula. Em pouco tempo já sabia o seu nome e
telefone.
Criei coragem, liguei
para Edmundo e marcamos um encontro defronte ao hospital.
Depois do expediente
fomos ao cinema e tomamos sorvete.
E aos quarenta e dois
anos tive meu primeiro encontro, o primeiro namorado, o primeiro homem que se
interessava por mim.
Feliz eu vivia nas
nuvens pensando em vestidos, sapatos e salões de beleza para cuidar dos meus
cabelos e das minhas unhas. Comprei perfume só para ouvir meu amor dizer: “um,
que cheiro gostoso você tem!”
Edmundo era assim.
Dizia palavras amorosas, falava comigo baixinho, me beijava e abraçava. Eu
sentia um calor no corpo todo e um formigamento nas partes íntimas. Eu vivia um
sonho, sonhado toda a minha vida.
E meus colegas estavam
espantados com minha transformação.
Edmundo me convidou
para visitar a irmã, única pessoa que restava de sua família. Ao chegarmos à
sua casa ela tinha sido chamada para uma emergência. Ficamos sozinhos e ele se
mostrou gentil e carinhoso. Ofereceu cerveja bem geladinha. Bebi e gostei.
Logo estávamos nos
acariciando intensamente. Eu excitada querendo mais e mais. Fomos para seu
quarto e ali ele me fez mulher. Jamais esquecerei o que vivi; maravilhoso,
indescritível.
Ao voltar para casa,
senti remorso. Afinal ainda não éramos casados. Rezei e pedi perdão a Deus.
Voltei a cada convite
dele. Gostava de sua companhia em qualquer lugar. Mas preferia quando me levava
para a casa da irmã e fazíamos amor. Aqueles momentos me tiravam a razão e me
levavam para o céu.
Nas tardes de domingos
e feriados, juntos planejamos uma vida cheia de amor. Jamais conheci tanta
felicidade.
Nunca estive tão
distante de minha família e de Deus.
Edmundo e eu abrimos
uma conta conjunta para comprar e mobiliar um apartamento só nosso. E fomos ver
a pequena capela onde ele sonhou casar comigo.
E eu trabalhava mais e
mais para esse dia chegar logo.
Ele também fez horas
extras, para apressar o dia em que pudéssemos viver juntos e abençoados pelo
casamento.
Eu lhe disse que já
tínhamos dinheiro suficiente para realizar nosso sonho, mas ele não me pareceu
interessado e mudou de assunto. Talvez estivesse com alguma preocupação.
Quando eu insistia em
marcar a data do casamento ele se irritava.
E eu continuei
depositando no banco todo o meu ordenado.
Num fim de semana
Edmundo não apareceu. Telefonei para sua casa e ninguém atendeu.
Fui à missa e rezei
pelo nosso amor.
Na semana seguinte ele
desapareceu. Por mais que ligasse para o número dele, ninguém atendia.
Tive um mau
pressentimento e fui ao banco. Nossa conta estava zerada. Corri para casa com o
coração acelerado, doído, e lágrimas escorrendo pelo rosto.
Tive uma crise muito
séria da qual não me lembro. Fiquei meses em um hospital de doentes
mentais. Não me recordo de nada que vivi
nesse tempo.
Depois voltei para a
casa dos meus pais e continuo tomando anti deprecivos e calmantes que me dopam.
Por mais que tente não
pensar nele e no que vivemos juntos, sua lembrança chega e me invade.
Tiro do armário o seu
retrato, olho para seu rosto, me masturbo e gozo.
Depois, cheia de culpa,
passo a noite rezando para Deus me perdoar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário