segunda-feira, 25 de maio de 2015

TRISTE MANHÃ DE DOMINGO

                                         TRISTE MANHÃ DE DOMINGO
            Ainda me lembro daquela manhã de domingo. Meu irmão e eu fomos à grande cachoeira. O céu cinzento prenunciava chuva, mas isso não tinha importância.
          Josué sentia-se responsável por mim e tudo fazia para minimizar os sofrimentos causados pelas violências de papai, sempre gritando e batendo em quem encontrasse pelo caminho. Nesses momentos mamãe procurava um lugar onde pudesse ficar escondida, com os olhos fechados e em silêncio, tornar-se invisível. Ela já sofrera tanto que não lhe restava coragem para enfrentar o marido e defender seus filhos. Mas nós, não conseguíamos compreender nem perdoar sua omissão, e a cada vez, suas mágoas cresciam.
            Josué trabalhava na roça fazendo as tarefas designadas pelo papai, e escondido, fazia também o que ficava ao meu encargo. Orgulhoso, dizia que sua irmãzinha mais nova estudaria para ser doutora, enquanto ele seria homem da terra. Eu seria intelectual e ele roceiro. Assim, eu podia fugir para estudar, enquanto ele trabalhava por nós dois.
            Quando eu voltava sempre correndo da escolinha, só tinha tempo para sujar as mãos e a roupa e não ser descoberta. Em casa nos esperava uma sopa aguada e sem gosto que mamãe nos servia. Algumas noites dormíamos tranqüilos, outras, quando o meu pai chegava bêbado, íamos  para a cama com as roupas rasgadas e os corpos marcados pela fivela do cinto. 
            Nos fins de semana, quando papai saía para as costumeiras farras, nós dois sumíamos pela mata. Josué, como todos da redondeza, usava um chapéu de palha, um short gasto e um chinelo velho nos pés. E, longe de tudo e de todos, sonhava ser dono de terras onde haveria muitas cabeças de gado, grandes plantações, e uma conta no banco, crescendo a cada mês. “Ainda serei o maior fazendeiro de todo o estado”, garantia.
            Eu construía um mundo de sonhos em torno de mim. “Não vejo a hora de sair dessa terra miserável. Juro que nunca mais pisarei os pés aqui. Serei uma advogada famosa, ganharei todas as causas e os milionários vão implorar pelo meu trabalho.”
            Num domingo acordamos mais tarde, e meu pai já tinha saído. O que foi motivo de alegria para nós. Depois de um pequeno café com pão dormido, seguimos para o mato em busca da grande cachoeira. Nós adorávamos sentir as águas caindo com violência nos nossos corpos e depois corrermos para o rio. Estava anoitecendo e tínhamos que voltar para casa onde só havia tristeza, gritos e pancadaria.
            No caminho, vimos papai se aproximando. Chegou com voz macia e um sorriso nos lábios. Fato inédito. “Divertiram-se muito nesta água fria?” perguntou com a voz pastosa dos bêbados. “Você já está no ponto certo de ser minha.” Acariciou os meus cabelos e continuou: você fica linda com esse maiô.
            Jamais esquecerei aquele cheiro que ele exalava enquanto tirava cada peça de roupa do meu corpo até me deixar nua.
            E eu lutando para fugir daquelas mãos imundas, daquele hálito fedorento e dos afagos imorais. Lutei muito, mas ele me rendeu. E ali mesmo na areia, deitou-se sobre mim enquanto dizia: “Você me pertence. Eu lhe dei casa, comida e tudo mais que você tem. Não será de outro homem”.  Senti ardor e o sangue quente saiu de mim.
            Meu irmão veio por trás com uma enorme pedra, e usando toda a força de que era capaz, bateu na cabeça dele. Juntamos nossas forças e lavamos o corpo inerte para a cachoeira. A água o levaria para longe e ninguém jamais descobriria o motivo do sumiço daquele tarado. Assim pensamos. E nós seriamos felizes para sempre.
Dias depois, um corpo rígido, com o rosto azulado foi encontrado, do outro lado do rio. E não sei como, nem por que, todos me culparam. Os vizinhos me chamaram de assassina. Queriam que eu assumisse o crime. E minha mãe diante da morte do marido, permaneceu naquela eterna luta de silêncio. Só podia ser um pesadelo. Eu, de vitima, fui transformada em assassina fria e implacável.
Diante das evidencias, meu irmão decidiu contar a verdade. Mesmo assim, continuaram me acusando. Ele era um bom menino, um filho obediente e foi por minha causa que agrediu o pai.  A responsabilidade continuava sendo minha.
Machucada, humilhada, parecia que tinha uma caixa negra dentro do cérebro, que se abriu e me fez lembrar todas as maldades e sofrimentos que a vida me deu. E não havia nenhuma luz, um único momento de prazer, uma palavra sequer de elogio, e de bondade. Fui escorraçada por todos, obrigada a fugir da minha casa, da cidade onde nasci e de minha gente. Não tinha mais irmão nem mãe.
Passei anos sem ter contato com o que restava da minha família. Eles não sabiam de mim e eu não tinha qualquer notícia deles. O que mais me doía era a falta do meu irmão. Mas em lugar de tristeza, eu sentia um ódio tão grande, de tudo e de todos, que me sufocava, e não me deixava chorar.

Um dia, a justiça dos homens me encontrou e me condenou. Mas sei que a justiça de Deus foi feita.

PALAVRAS DESASTROSAS


                                                     PALAVRAS DESASTROSAS

Bonito e cheio de charme, filho do único médico da pequena cidade do interior, desde muito cedo se divertia com as operarias da fábrica. Em cada baile, usando nomes diferentes, levava uma garota para trás da igrejinha e se dizendo apaixonado, ou enfeitiçado, as seduzia. Depois, com alguma desculpa, deixava a menina esperando por ele e fugia feliz e realizado para sua casa.
            Quando foi para a faculdade, logo seduziu e engravidou uma colega. Ele brincando, ela apaixonada.  Os pais intervieram, e o casamento foi realizado. Mas o jovem continuou indiferente aos sentimentos da mulher que o amava, e a cada ano e lhe dava um filho.
Depois da sua formatura, eles ficaram mais distantes do que nunca. Ele sempre ausente, usava a desculpa dos árduos trabalhos, dos inúmeros plantões.
E foi num plantão verdadeiro, que sua vida mudou. Ele foi chamado para socorrer um homem enfartando. A ambulância parou defronte a uma casa maravilhosa, e o doutor foi recebido por uma mulher, que pela primeira vez, fez seu coração bater acelerado; era a mais charmosa, a mais bonita e elegante que ele já vira.
E a cada nova visita, seu desejo aumentava, e o interesse dela crescia. Passou a visitar o paciente durante o tempo necessário, e depois dele curado, laços de amizade já tinham sido criados.
O médico já sabia que o filho dele era militar e trabalhava em Brasília. A nora preferiu ficar com o velho sogro, porque detestava a Nova Capital.  O marido passava com ela todos os fins de semana.
Finalmente, numa quinta feira chuvosa e úmida, o médico conseguiu levar Rosa, a sua então amada, para jantar num acolhedor restaurante.
O frio estava forte propiciando aconchegos, beijos e abraços. Ela solitária, ele exímio sedutor, terminaram a noite no único motel da cidade. A princípio cautelosos e as escondidas viviam sua paixão.
Mais tarde, ele que tinha sido dedicado ao velho sogro, tinha passe livre para visitar sua amada a qualquer hora.  E sempre que convidava para um almoço, lanche ou jantar, o rapaz estendia o convite ao dono da casa. Mas o velho sempre estava indisposto, e incentivava a nora a ir com o gentil médico que o salvara.
E assim, a paixão e a ousadia foram crescendo. Agora o amante já entrava sorrateiramente, quando todos dormiam. E saía em silencio, com os sapatos na mão, quando o dia clareava.
Rosa foi a única mulher que, realmente, tocou o coração do Dom Juan e fazia seu corpo queimar de paixão. Ele estava verdadeiramente arrebatado.
Nos fins de semana, quando o marido dela chegava, era um martírio. Sentia um ciúme doentio e um desejo incontrolável de vê-la, pegar nela, sentir seu cheiro. Agora conhecia a dor e a alegria de estar apaixonado. Só lhe importava Rosa. Passava horas esperando por novos encontros. E descarregava seu mau humor, sua ansiedade na mulher e nos filhos.
Numa noite, embriagado de uísque e paixão, ele disse, inadvertidamente, no ouvido de Rosa: “Você é a mulher mais gostosa e mais quente que tive. Só vi fogo maior do que o seu, numa moça de programa que eu conheci, no Leme”. Ela olhou para ele, bêbado, esticado na cama, levantou-se, vestiu-se e foi embora para sempre.

Ele com o coração vazio e a alma cheia de remorso, vivia com a lembrança dela. Fantasma da ausência e da perda.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

AMOR DE OUTRAS VIDAS

                                   AMOR DE OUTRAS VIDAS

Como me foi recomendado, cheguei ao Rio num sábado e Pedro, meu irmão, estava me esperando na rodoviária         . Entramos num taxi e fomos para seu pequeno apartamento em Copacabana.
Minha alegria era tão grande que nem respondia às perguntas que ele me fazia sobre nossos pais e irmãos que ficaram no interior. Só tinha olhos para as ruas largas, as pessoas bonitas e bem vestidas que passavam pelas calçadas, e me extasiava com prédios enormes, um ao lado do outro.
Tudo era diferente da pequena cidade onde nasci e de onde nunca tinha saído antes.
Por fim, chegamos perto do mar. Era maior do que qualquer rio que eu já vira em toda a minha vida. Meu coração batia acelerado, e foi-se qualquer sentimento de culpa por ter abandonado meus pais.
Agora aproveitaria cada minuto que o destino me deu para aproveitar a juventude que me restava. E, por um momento, me vi bela, jovem, cheia de possibilidades de amar e ser amada.
Quando subimos no elevador do edifício onde meu irmão morava, agarrei no seu braço. E ele me olhou de maneira carinhosa, e riu. O apartamento era pequeno, mas chegava para nós dois.
Pensei na casa espaçosa, no quintal grande e cheio de árvores que deixei. Mas logo afastei essas lembranças. Não queria ter saudade de nada nem de ninguém.
Logo nos primeiros dias eu saía todas as manhãs para comprar pão, leite, ou qualquer objeto que me fizesse conhecer mercearias, açougues ou quitandas, ver pessoas, comparar preços e fazer amizades.
Sempre voltava para casa com pão quentinho, e debaixo do braço, um jornal, para ver anúncios de empregos que me parecessem interessantes.
Pedro, no entanto, insistia para que eu procurasse ver os editais para concurso público, ver o programa e estudar para as provas.
Encontrei um anúncio de emprego num hospital. Exigiam ensino médio e fui de professora para um trabalho gratificante: cuidar de doentes. Passei nas provas, mas me colocaram na secretaria. Fiquei decepcionada, pois preferia cuidar das pessoas.
Depois de alguns meses aluguei um pequeno apartamento no subúrbio. Fiquei independente, embora acordasse cedo e ainda estava escuro quando eu saia para o trabalho. Quando voltava já estava anoitecendo. Tirava de um velho filtro água quase morna para beber, e num fogão enferrujado fritava ovos e comia com pão. A solidão e o desconforto eram tão grandes que já sentia saudade da casa simples, que deixara para trás.
Numa tarde quente de verão ouvi o estrondo de carros batendo e logo entrou no hospital um homem muito machucado. O encaminhei para os primeiros socorros. Depois não parei de pensar nele. Lembrava de cada gesto seu, do rosto sujo de sangue, dos cabelos despenteados, dos olhos castanhos apavorados. Tudo nele me parecia familiar. Será que eu o conhecia de outras vidas?
Naquela noite, depois de fazer minhas orações, tive certeza de que já tínhamos nos encontrado.
Alguns dias depois, quando ele voltou para tirar os pontos, meu coração disparou, minhas pernas ficaram bambas e minha voz trêmula. Em pouco tempo já sabia o seu nome e telefone.
Criei coragem, liguei para Edmundo e marcamos um encontro defronte ao hospital.
Depois do expediente fomos ao cinema e tomamos sorvete.
E aos quarenta e dois anos tive meu primeiro encontro, o primeiro namorado, o primeiro homem que se interessava por mim.
Feliz eu vivia nas nuvens pensando em vestidos, sapatos e salões de beleza para cuidar dos meus cabelos e das minhas unhas. Comprei perfume só para ouvir meu amor dizer: “um, que cheiro gostoso você tem!”
Edmundo era assim. Dizia palavras amorosas, falava comigo baixinho, me beijava e abraçava. Eu sentia um calor no corpo todo e um formigamento nas partes íntimas. Eu vivia um sonho, sonhado toda a minha vida.
E meus colegas estavam espantados com minha transformação.
Edmundo me convidou para visitar a irmã, única pessoa que restava de sua família. Ao chegarmos à sua casa ela tinha sido chamada para uma emergência. Ficamos sozinhos e ele se mostrou gentil e carinhoso. Ofereceu cerveja bem geladinha. Bebi e gostei.
Logo estávamos nos acariciando intensamente. Eu excitada querendo mais e mais. Fomos para seu quarto e ali ele me fez mulher. Jamais esquecerei o que vivi; maravilhoso, indescritível.
Ao voltar para casa, senti remorso. Afinal ainda não éramos casados. Rezei e pedi perdão a Deus.
Voltei a cada convite dele. Gostava de sua companhia em qualquer lugar. Mas preferia quando me levava para a casa da irmã e fazíamos amor. Aqueles momentos me tiravam a razão e me levavam para o céu.
Nas tardes de domingos e feriados, juntos planejamos uma vida cheia de amor. Jamais conheci tanta felicidade.
Nunca estive tão distante de minha família e de Deus.
Edmundo e eu abrimos uma conta conjunta para comprar e mobiliar um apartamento só nosso. E fomos ver a pequena capela onde ele sonhou casar comigo.
E eu trabalhava mais e mais para esse dia chegar logo.
Ele também fez horas extras, para apressar o dia em que pudéssemos viver juntos e abençoados pelo casamento.
Eu lhe disse que já tínhamos dinheiro suficiente para realizar nosso sonho, mas ele não me pareceu interessado e mudou de assunto. Talvez estivesse com alguma preocupação.
Quando eu insistia em marcar a data do casamento ele se irritava.
E eu continuei depositando no banco todo o meu ordenado.
Num fim de semana Edmundo não apareceu. Telefonei para sua casa e ninguém atendeu.
Fui à missa e rezei pelo nosso amor.
Na semana seguinte ele desapareceu. Por mais que ligasse para o número dele, ninguém atendia.
Tive um mau pressentimento e fui ao banco. Nossa conta estava zerada. Corri para casa com o coração acelerado, doído, e lágrimas escorrendo pelo rosto.
Tive uma crise muito séria da qual não me lembro. Fiquei meses em um hospital de doentes mentais.  Não me recordo de nada que vivi nesse tempo.
Depois voltei para a casa dos meus pais e continuo tomando anti deprecivos e calmantes que me dopam.
Por mais que tente não pensar nele e no que vivemos juntos, sua lembrança chega e me invade.
Tiro do armário o seu retrato, olho para seu rosto, me masturbo e gozo.

Depois, cheia de culpa, passo a noite rezando para Deus me perdoar.

MISTÉRIO DESVENDADO

                               
            Naquele enorme prédio, no centro da cidade, onde trabalhamos nos últimos anos, transformara-se num lugar de pavor.
            Os empregados da noite estavam estressados e já não conseguiam tirar aqueles cochilinhos de antigamente.
 E quando os funcionários diurnos chegavam, sempre ouviam a mesma história.
            “ Tem alma penada aqui. Durante toda a noite  ouvimos gritos e muitas vezes gemidos até o amanhecer”.
         As reclamações seguidas fizeram com que o Diretor chamasse policiais para vasculhar salas, corredores e banheiros.
         Alguns entravam no clima de horror, outros mais durões negavam a existência de almas penadas, embora admitissem 
ouvir estranhos barulhos. Mas, não chegavam a nenhuma conclusão.
         E o encanto, ou desencanto, continuou por todo aquele ano...
         O fato inusitado foi para a pauta da última Reunião do Conselho, naquele fim de ano.
         Causou risos de uns, preocupações de vários, mas, ninguém resolveu o problema. Os vigias que ali estavam na noite de Natal, Ano Novo e carnaval, tiveram como companhia aqueles sons estranhos. Alguns até, se acostumaram com os ruídos misteriosos.
         No ano seguinte um novo Diretor assumiu e outros funcionários tomaram novos cargos em diferentes salas equipadas e, cada vez mais luxuosas.
         Por algum motivo o Diretor ficou até tarde terminando algum processo. E lá estava quando os sons recomeçaram.
         Sem fazer alarme, sozinho, resolveu desvendar aquele enigma. Vasculhou cada sala, sem nenhuma inibição, abriu gavetas, olhou os banheiros e armários.
         Inconformado, entrou no elevador e fez vistoria em cada andar.
         A noite já invadida pela tênue clarão do dia, quando exausto ele sentou na poltrona, descansando de sua infrutífera busca.
         E, foi mais para ver o espetáculo do nascer de um novo dia que ele saiu pelas calçadas desertas.
         Qual não foi a surpresa, quando logo embaixo da janela da sala onde passara a noite, dois homens sujos e mal cheirosos, em movimentos ritmados, gemiam, trocavam beijos e palavras de amor.
         O executivo parou ao lado deles.
         Como que voltando de longe, um homem se aconchegou, enquanto o outro dizia: “calma, eu não vou deixar que ele toque em tu. A parada é comigo”.
         E voltando-se para o intruso, como quem quer sair no soco, disse: “bata em mim. A parada é comigo. Deixa minha mulher em paz”.
Suas próprias satisfações os deixavam fora de qualquer intromissão. Não viam nem ouviam nada. 
          E foram com seu odor e suas mãos entrelaçadas em busca de um novo ninho de amor.
         Realmente, para o rico empresário, era uma situação imprevisível.
         No dia seguinte, o descobridor do mistério convocou todos os funcionários para uma reunião extraordinária.
Decifrar e resolver o problema dos barulhos misteriosos, foi um alívio para aqueles que sofreram noites de pavor.
         E assim, as noites na Empresa tornaram-se silenciosas e cheias de tédio.