Naquele enorme prédio, no centro da
cidade, onde trabalhamos nos últimos anos, transformara-se num lugar de pavor.
Os empregados da noite estavam estressados e já não conseguiam tirar aqueles
cochilinhos de antigamente.
E quando os
funcionários diurnos chegavam, sempre ouviam a mesma história.
“ Tem alma penada aqui. Durante toda a noite ouvimos gritos e muitas
vezes gemidos até o amanhecer”.
As
reclamações seguidas fizeram com que o Diretor chamasse policiais para
vasculhar salas, corredores e banheiros.
Alguns entravam no clima de horror, outros mais durões negavam a existência de
almas penadas, embora admitissem
ouvir estranhos barulhos. Mas, não chegavam a nenhuma
conclusão.
E o
encanto, ou desencanto, continuou por todo aquele ano...
O
fato inusitado foi para a pauta da última Reunião do Conselho, naquele fim de
ano.
Causou risos de uns, preocupações de vários, mas, ninguém resolveu o problema.
Os vigias que ali estavam na noite de Natal, Ano Novo e carnaval, tiveram como
companhia aqueles sons estranhos. Alguns até, se acostumaram com os ruídos misteriosos.
No
ano seguinte um novo Diretor assumiu e outros funcionários tomaram novos cargos
em diferentes salas equipadas e, cada vez mais luxuosas.
Por
algum motivo o Diretor ficou até tarde terminando algum processo. E lá estava
quando os sons recomeçaram.
Sem
fazer alarme, sozinho, resolveu desvendar aquele enigma. Vasculhou cada sala,
sem nenhuma inibição, abriu gavetas, olhou os banheiros e armários.
Inconformado, entrou no elevador e fez vistoria em cada andar.
A
noite já invadida pela tênue clarão do dia, quando exausto ele sentou na
poltrona, descansando de sua infrutífera busca.
E,
foi mais para ver o espetáculo do nascer de um novo dia que ele saiu pelas
calçadas desertas.
Qual
não foi a surpresa, quando logo embaixo da janela da sala onde passara a noite,
dois homens sujos e mal cheirosos, em movimentos ritmados, gemiam, trocavam
beijos e palavras de amor.
O
executivo parou ao lado deles.
Como
que voltando de longe, um homem se aconchegou, enquanto o outro dizia: “calma,
eu não vou deixar que ele toque em tu. A parada é comigo”.
E
voltando-se para o intruso, como quem quer sair no soco, disse: “bata em mim. A
parada é comigo. Deixa minha mulher em paz”.
Suas próprias
satisfações os deixavam fora de qualquer intromissão. Não viam nem ouviam nada.
E foram com seu odor e suas mãos entrelaçadas em busca de um novo ninho
de amor.
Realmente, para o rico empresário, era uma situação imprevisível.
No
dia seguinte, o descobridor do mistério convocou todos os funcionários para uma
reunião extraordinária.
Decifrar e resolver o
problema dos barulhos misteriosos, foi um alívio para aqueles que sofreram
noites de pavor.
E
assim, as noites na Empresa tornaram-se silenciosas e cheias de tédio.
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