sexta-feira, 7 de agosto de 2015

RETROSPECTO

                                           RETROSPECTO

            Depois de todos aqueles anos de solidão criara para si uma rotina segura, sem grandes emoções.
            Já não pensava em amores que a fizeram passar noites sem claro, há muito não molhava o travesseiro de lágrimas, há tempos deixara de sofrer de amor, enquanto procurava outro sentido para continuar vivendo.
            Num domingo chuvoso e melancólico o celular tocou de maneira nova. Eram toques rápidos e ninguém dizia nada. E na telinha viu mensagens e o número de um celular.
            “Estou com saudade de você. Vamos tomar uma garrafa de vinho para esquentar esse dia molhado e escuro?”
            Curiosa,  e já pensando em amar outra vez,  ligou para o número que estava na tela.  E uma voz impessoal disse: “Coloque o código de longa distancia, depois o seu código e o número do telefone”
            Mas como se ela não sabia quem era quanto o código!
            Desistiu. Esqueceu.
            No dia seguinte o toque ligeiro, a tela escrita.  E todos os dias ela recebia uma mensagem carinhosa: “eu te amo, por que você não responde?”
            “Hoje é dia dos namorados, vamos sair para nos amar”.
            E no dia dos amigos: “nem como amigo você me quer?”
            Depois de tantos anos, alguém ainda sentia saudade dela! Queria recomeçar um namoro! Mas quem? Pensou já entusiasmada, já cheia de esperança.
            Os dias passavam  e as mensagens continuaram. Ela pouco a pouco sentia seu coração renovado, cheio de esperança, e a curiosidade aumentando.
            As conjecturas tomaram conta de sua mente. Será o Eduardo? Não. Ele não diria essas coisas amorosas. Falaria sobre sexo, e como ela era gostosa.
            E o Elcio? Talvez ele fosse capaz de dizer que ainda lhe amava. Mas, ela sabia que ele estava bem feliz, casado com uma jovem que tem a idade da sua filha.
            E o João? Ele não faria esse mistério. Diria logo seu nome e a que veio.
            Talvez  fosse seu irmão ou  primo fazendo gozação, chegou a pensar.
            Mais tarde, o misterioso fã, insistiu para que ela dissesse o sobrenome dele.
            Ela. Com medo de parecer ridícula, arriscou escrever o nome  de seu grande amor. Acertou.
            E a mulher voltou a sonhar. Visitou o salão de beleza, pintou os cabelos, tratou dos pés e das mãos, comprou roupas novas, sapatos e bolsas combinando.
            Sentia-se mais jovem.  Voltou a sonhar e esperar.
            Esperou muito, teve crises de ansiedade e seu coração sofreu até o homem  marcar  o primeiro encontro.
            Ela  tremula de emoção entrou no carro, jurando para si mesma que não o amava  mais, seria apenas uma diversão sem compromisso.
            Ele muito magro e sem dentes. Tirou  todos os antigos, velhos e amarelos, para implantar nova dentadura. Suas nádegas eram secas e cheias de pelanca.
            Ela parecia mais jovem, mais cuidada.
            Mesmo assim, para ele, foi  diversão
            Para ela, o renascimento de um amor, que só a fez sofrer outra vez.


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