MEMÓRIAS DE
UM PSICOPATA
Desde menino, eu só pensava em
guerra. É verdade que todas as crianças passam por essa fase. Mas, em mim, ela
foi pouco a pouco se transformando numa paixão.
Certo dia um
vizinho pulou o muro e veio tirar frutos de meu quintal. Pronto, já encontrei o
grande inimigo. Peguei o ladrão, montei
sobre ele e quase o esganava, não fosse meus irmãos tirarem minhas mãos
que apertavam seu pescoço.
Fui
repreendido, e todos ficaram assustados com tamanha agressividade que demonstrei.
Percebi, então que não seria aprovação dos familiares, se continuasse tão
valente. Escondi os desejos de guerreio, sem deixá-los aflorar. Todos começaram
a me tecer elogios. E eu passei a ser o filho predileto de mamãe.
Estudei para
ser militar. Acabei policial. Foi grande a minha decepção. Não era necessária
muita valentia, nem havia combates, e, luta, só pela subsistência.
Senti
vontade de me alistar, como voluntário, num país que estivesse em guerra.
Queria ver sangue e morte. Foi só um desejo.
Casei,
vieram os filhos e tudo parecia completo, embora, às vezes, sentisse a
inutilidade da carreira e tédio na vida.
Bom marido e um pai carinhoso, todos
acreditavam ser eu uma pessoa realizada e feliz.
Um dia, os militares implantaram a
Ditadura. Tomamos o poder. Entrei para o DOPS e fiz cursos com militares no
exterior, me tornei um expert nessa área. Apaixonei-me pelos ensinamentos de um
chinês sobre técnicas de guerra
psicológica. Foi aí que percebi ser a guerra tradicional bruta e primitiva.
Para gente não civilizada, bárbaros conhecedores apenas da força física.
Prefiro coisas mais sofisticadas. Tornei-me comandante de um departamento. Era
importante, e, enfim encontrara uma finalidade para a vida.
Passava horas trabalhando e me
deliciando com torturas aos presos. Confesso que às vezes os “homens”
exorbitavam. Mas, se algo saia errado, havia médicos para atestarem e
explicarem os surtos de loucura ou as mortes inesperadas.
Certo dia, fui assistir a um
interrogatório fui assistir a um interrogatório fiquei de tal modo impactado
que não percebi minha calça respingada de sangue. Senti náusea e vomitei.
Uma artista foi presa. Era jovem e
bonita e todos a desejaram. Fui premiado. Só que a “bandida” estava com
gonorréia.
Para não ser descoberto, sumi de casa
durante 15 dias.
Tínhamos uma jibóia. Quando as
mulheres eram colocadas em sua companhia,
ficavam histéricas e entregavam todos os seus cúmplices.
Em família, eu vivia o papel do homem
calmo e afetuoso. Passeava com os filhos, ia a reuniões sociais com a mulher e
acariciava as crianças. Pai de família irrepreensível, marido amantíssimo.
Excitava-me essa duplicidade que o
destino me dera à chance de vivenciar. Parecia um ator de grande talento
interpretando duas personagens.
Durante anos fui imensamente feliz e
realizado. Tínhamos conforto, divertimento e status. Filhos inteligentes de saudáveis. Mulher
amorosa e bonita.
O regime mudou. Demos anistia ampla geral e irrestrita, e nos
salvaguardamos de possíveis represálias.
Agora eu não tinha motivação. Guerra,
nem tradicional, nem psicológica. Porradas, só em pé de chinelo. Meus
conhecimentos e talentos eram inúteis. Fui obrigado a ir para a burocracia.
Estava triste, desmotivado e quase
sem dinheiro, quando ganhei um novo trabalho e uma secretária. Moça afoita,
tornou-se o centro do meu mundo. Outras
já haviam passado por minhas mãos, mas de maneira discreta, sem nenhum
conhecimento da família Jamais tivera tanta afinidade com alguém. Com ela,
aprimorei aquele lado escondido da personalidade. Tivemos um entrosamento mais
que perfeito. A paixão foi crescendo e todos os demais valores desapareceram.
Uma noite, ela exigiu que eu deixasse
a família para vivermos juntos. Mas como jogar fora tudo aquilo que construíra
durante vinte anos?
Estava nessas considerações, quando
fui apanhado em flagrante por minha esposa. Ela que sempre pareceu tranqüila,
teve uma reação violenta e tratou de me desmoralizar perante nossos filhos e amigos.
Como ousava enfrentar-me?!
Fui revigorado pelo ódio. Voltaria à
luta, embora minha mulher parecesse frágil e despreparada. Mas, guerra é sempre
divertida. A vitória seria fácil e rápida, pois eu tinha os atributos
necessários, aprendidos com o brilhante chinês. Conhecia melhor o opositor e
era paciente.
Esperei o nosso aniversário de
casamento para lhe presentear com a notícia da decisão de me separar.
Ela chorou a noite toda. Eu gozei.
Passei a deixar notas de compras
suspeitas nos bolsos e quando ela os vasculhava – hábito recém adquirido – e as
encontrava, gritava e brigava comigo. E
eu, olhando para os filhos, cheio de comiseração, dizia: mamãe está ficando
louca. Nem sei por que esse escândalo. Talvez tenhamos que interná-la. Vocês
sabem que já existem casos na família...
Realmente planejava enlouquecê-la e, assim mostrar a todos que eu continuava
sendo sério e respeitável, e que o flagrante não passava de uma mente doentia.
Fazia com que ela ouvisse telefonemas
meus, na extensão. Marcava encontros com meu amor e, dizia para os filhos que
estivera conversando com um amigo, eles podiam até conferir.
Algumas vezes instigava a mulher a
seguir meu carro. Ia ao mercado e voltava cheio de compras, rindo e comentando
o comportamento doentio da mãe deles.
Dessa maneira, pouco a pouco, ia
deixando sua mente perturbada.
Entre suas fraquezas, a que se faz mais útil
foi o falar demais. E assim dizia tudo que eu precisava ouvir. Contou-me que
tinha pesadelos quando fazia sexo. As noites passaram a ser divertidíssima.
Começava a fazer agrados, até ver que não havia mais resistência. Depois eu
dizia: “É como fazer sexo com uma prostituta qualquer. Não sinto nenhuma
emoção. Ela chorava à noite toda. Em outras ocasiões eu fingia desejá-la até
que ela entrasse no clima. Depois eu levantava, sem dizer uma palavra, e ia
dormir na sala. Quando ela gritava e esbravejava eu, calmamente, fingia
desconhecer o motivo.
Certo dia, eu murmurei, como que
estivesse pensando alto: Hoje depois do expediente, vou levá-la para ver o sol
se pôr.
Ela se levantou e gritou: “que
expediente? Você não está no trabalho com sua vagabunda!
Numa outra vez, como se estivesse com
uma pessoa que não ela, indaguei: “Você quer ou pica ou porrada?”
Ela correu assustada. Foi
excitante.
Chamei os filhos para conversar.
Chegamos à conclusão de que um “Encontro de casais com Cristo” e depois um
analista, poderia ajudar.
Eles ficaram cheios de esperança.
Convenci a todos, e principalmente a
ela, dos meus bons propósitos.
Depois passei a lhe presentear com
histórias de mulheres assassinadas por maridos ou por suas amantes. E os crimes
nunca desvendados.
Ando aborrecido. Ultimamente venho
tendo pesadelos, onde degolam minha cabeça ou me vejo o sendo fuzilado. Grito,
e ela me desperta. Isso é preocupante, pois me torna frágil.
Preciso
apressar minha vitória. Chego perto dela e, baixinho, digo: “Vá caçar! A emoção da caça é maravilhosa. Eu
caço mulheres e você caça homens”.
Feri seus brios. Passou a sair à
noite e voltar tarde, cheirando à bebida. Pronto, a guerra está ganha. Consegui
desmoralizá-la. Agora é uma alcoólatra que está envergonhando a família.
Comento com os parentes e amigos. Todos acreditam em mim.
Viajei para o exterior e trouxe dez pares de meias para embelezar pernas.
Ela me pediu um par. Eu disse que todas eram para a minha secretária. Ela
apanhou uma tesoura e cortou todas. Apanhei os trapos e mostrei para os amigos.
Ficaram impressionados com tamanha fúria.
Meu grande amor e eu tivemos a idéia de tirar os animais de estimação
dela e usá-los no terreiro de magia negra. Contratamos dois caboclos para
roubar um de cada vez e devolve-los sacrificados.
O primeiro seria o doberman que sempre a esperava no portão, e que ela
considerava seu protetor.
Devolvemos o cão com o corpo todo
espetado e o espeto dentro do anus.
Pela manhã, ela o encontrou na escada, banhado de sangue. Ela desmaiou e
chamamos o médico. Claro que não havia mais animal ali, quando ele chegou e deu
um sedativo que a fez dormir muitas horas.
Dias depois, ela mais calma tiramos seu gato persa. Com esse não havia
sangue. O entregamos com os ossos quebrados.
Ela teve outra crise. Novamente o médio a sedou.
Chegou à vez da pequena cadela, que vivia no seu colo. Nós a devolvemos,
esquartejada, dentro de uma caixa de sapato, enrolada com papel de presente.
Conseguimos que a mulher entrasse numa histeria tal, que chamou atenção
dos vizinhos.
Mas ela reagiu. É mais forte do
que eu pensava.
Mandamos fazer outra magia negra, dessa vez, no seu carro.
Aconteceu um acidente. Ela saiu sem machucado.
E se nós sabotarmos o carro? Ela está bebendo tanto!... Disse minha
amada.
Enfim, mandei publicar em todos os jornais da cidade:
“Marido inconsolável e filhos saudosos comunicam o falecimento, em
trágico acidente, e convidam para o sepultamento da esposa e mãe inesquecível”