segunda-feira, 23 de março de 2015

                                    MEMÓRIAS DE UM PSICOPATA

            Desde menino, eu só pensava em guerra. É verdade que todas as crianças passam por essa fase. Mas, em mim, ela foi pouco a pouco se transformando numa paixão.
            Certo dia um vizinho pulou o muro e veio tirar frutos de meu quintal. Pronto, já encontrei o grande inimigo. Peguei o ladrão, montei  sobre ele e quase o esganava, não fosse meus irmãos tirarem minhas mãos que apertavam seu pescoço.
            Fui repreendido, e todos ficaram assustados com tamanha agressividade que demonstrei. Percebi, então que não seria aprovação dos familiares, se continuasse tão valente. Escondi os desejos de guerreio, sem deixá-los aflorar. Todos começaram a me tecer elogios. E eu passei a ser o filho predileto de mamãe.
            Estudei para ser militar. Acabei policial. Foi grande a minha decepção. Não era necessária muita valentia, nem havia combates, e, luta, só pela subsistência.
            Senti vontade de me alistar, como voluntário, num país que estivesse em guerra. Queria ver sangue e morte. Foi só um desejo.
            Casei, vieram os filhos e tudo parecia completo, embora, às vezes, sentisse a inutilidade da carreira e tédio na vida.
 Bom marido e um pai carinhoso, todos acreditavam ser eu uma pessoa realizada e feliz.
Um dia, os militares implantaram a Ditadura. Tomamos o poder. Entrei para o DOPS e fiz cursos com militares no exterior, me tornei um expert nessa área. Apaixonei-me pelos ensinamentos de um chinês sobre  técnicas de guerra psicológica. Foi aí que percebi ser a guerra tradicional bruta e primitiva. Para gente não civilizada, bárbaros conhecedores apenas da força física. Prefiro coisas mais sofisticadas. Tornei-me comandante de um departamento. Era importante, e, enfim encontrara uma finalidade para a vida.
Passava horas trabalhando e me deliciando com torturas aos presos. Confesso que às vezes os “homens” exorbitavam. Mas, se algo saia errado, havia médicos para atestarem e explicarem os surtos de loucura ou as mortes inesperadas.
Certo dia, fui assistir a um interrogatório fui assistir a um interrogatório fiquei de tal modo impactado que não percebi minha calça respingada de sangue. Senti náusea e vomitei.
Uma artista foi presa. Era jovem e bonita e todos a desejaram. Fui premiado. Só que a “bandida” estava com gonorréia.
Para não ser descoberto, sumi de casa durante 15 dias.
Tínhamos uma jibóia. Quando as mulheres eram colocadas em sua companhia,  ficavam histéricas e entregavam todos os seus cúmplices.
Em família, eu vivia o papel do homem calmo e afetuoso. Passeava com os filhos, ia a reuniões sociais com a mulher e acariciava as crianças. Pai de família irrepreensível, marido amantíssimo.
Excitava-me essa duplicidade que o destino me dera à chance de vivenciar. Parecia um ator de grande talento interpretando duas personagens.
Durante anos fui imensamente feliz e realizado. Tínhamos conforto, divertimento e status.  Filhos inteligentes de saudáveis. Mulher amorosa e bonita.
O regime mudou.  Demos anistia ampla geral e irrestrita, e nos salvaguardamos de possíveis represálias.
Agora eu não tinha motivação. Guerra, nem tradicional, nem psicológica. Porradas, só em pé de chinelo. Meus conhecimentos e talentos eram inúteis. Fui obrigado a ir para a burocracia.
Estava triste, desmotivado e quase sem dinheiro, quando ganhei um novo trabalho e uma secretária. Moça afoita, tornou-se o centro do meu  mundo. Outras já haviam passado por minhas mãos, mas de maneira discreta, sem nenhum conhecimento da família Jamais tivera tanta afinidade com alguém. Com ela, aprimorei aquele lado escondido da personalidade. Tivemos um entrosamento mais que perfeito. A paixão foi crescendo e todos os demais valores desapareceram.
Uma noite, ela exigiu que eu deixasse a família para vivermos juntos. Mas como jogar fora tudo aquilo que construíra durante vinte anos?
Estava nessas considerações, quando fui apanhado em flagrante por minha esposa. Ela que sempre pareceu tranqüila, teve uma reação violenta e tratou de me desmoralizar perante nossos  filhos e amigos.
Como ousava enfrentar-me?!
Fui revigorado pelo ódio. Voltaria à luta, embora minha mulher parecesse frágil e despreparada. Mas, guerra é sempre divertida. A vitória seria fácil e rápida, pois eu tinha os atributos necessários, aprendidos com o brilhante chinês. Conhecia melhor o opositor e era paciente.
Esperei o nosso aniversário de casamento para lhe presentear com a notícia da decisão de me separar.
Ela chorou a noite toda. Eu gozei.
Passei a deixar notas de compras suspeitas nos bolsos e quando ela os vasculhava – hábito recém adquirido – e as encontrava, gritava e  brigava comigo. E eu, olhando para os filhos, cheio de comiseração, dizia: mamãe está ficando louca. Nem sei por que esse escândalo. Talvez tenhamos que interná-la. Vocês sabem que já existem casos na família...
Realmente planejava enlouquecê-la e, assim mostrar a todos que eu continuava sendo sério e respeitável, e que o flagrante não passava de uma mente doentia.
Fazia com que ela ouvisse telefonemas meus, na extensão. Marcava encontros com meu amor e, dizia para os filhos que estivera conversando com um amigo, eles podiam até conferir.
Algumas vezes instigava a mulher a seguir meu carro. Ia ao mercado e voltava cheio de compras, rindo e comentando o comportamento doentio da mãe deles. 
Dessa maneira, pouco a pouco, ia deixando sua mente perturbada.
 Entre suas fraquezas, a que se faz mais útil foi o falar demais. E assim dizia tudo que eu precisava ouvir. Contou-me que tinha pesadelos quando fazia sexo. As noites passaram a ser divertidíssima. Começava a fazer agrados, até ver que não havia mais resistência. Depois eu dizia: “É como fazer sexo com uma prostituta qualquer. Não sinto nenhuma emoção. Ela chorava à noite toda. Em outras ocasiões eu fingia desejá-la até que ela entrasse no clima. Depois eu levantava, sem dizer uma palavra, e ia dormir na sala. Quando ela gritava e esbravejava eu, calmamente, fingia desconhecer o motivo.
Certo dia, eu murmurei, como que estivesse pensando alto: Hoje depois do expediente, vou levá-la para ver o sol se pôr.
Ela se levantou e gritou: “que expediente? Você não está no trabalho com sua vagabunda!
Numa outra vez, como se estivesse com uma pessoa que não ela, indaguei: “Você quer ou pica ou porrada?”
  Ela correu assustada.  Foi excitante.
Chamei os filhos para conversar. Chegamos à conclusão de que um “Encontro de casais com Cristo” e depois um analista, poderia ajudar. 
Eles ficaram cheios de esperança. Convenci a todos,  e principalmente a ela, dos meus bons propósitos.
Depois passei a lhe presentear com histórias de mulheres assassinadas por maridos ou por suas amantes. E os crimes nunca desvendados.
Ando aborrecido. Ultimamente venho tendo pesadelos, onde degolam minha cabeça ou me vejo o sendo fuzilado. Grito, e ela me desperta. Isso é preocupante, pois me torna frágil.
            Preciso apressar minha vitória. Chego perto dela e, baixinho, digo:  “Vá caçar! A emoção da caça é maravilhosa. Eu caço mulheres e você caça homens”.
Feri seus brios. Passou a sair à noite e voltar tarde, cheirando à bebida Pronto, a guerra está ganha. Consegui desmoralizá-la. Agora é uma alcoólatra que está envergonhando a família. Comento com os parentes e amigos. Todos acreditam em mim.
Viajei para o exterior e trouxe dez pares de meias para embelezar pernas. Ela me pediu um par. Eu disse que todas eram para a minha secretária. Ela apanhou uma tesoura e cortou todas. Apanhei os trapos e mostrei para os amigos. Ficaram impressionados com tamanha fúria.
Meu grande amor e eu tivemos a idéia de tirar os animais de estimação dela e usá-los no terreiro de magia negra. Contratamos dois caboclos para roubar um de cada vez e devolve-los sacrificados.
O primeiro seria o doberman que sempre a esperava no portão, e que ela considerava seu protetor.
Devolvemos o cão  com o corpo todo espetado e o espeto dentro do anus.
Pela manhã, ela o encontrou na escada, banhado de sangue. Ela desmaiou e chamamos o médico. Claro que não havia mais animal ali, quando ele chegou e deu um sedativo que a fez dormir muitas horas.
Dias depois, ela mais calma tiramos seu gato persa. Com esse não havia sangue. O entregamos com os ossos quebrados.
Ela teve outra crise. Novamente o médio a sedou.
Chegou à vez da pequena cadela, que vivia no seu colo. Nós a devolvemos, esquartejada, dentro de uma caixa de sapato, enrolada com papel de presente.
Conseguimos que a mulher entrasse numa histeria tal, que chamou atenção dos vizinhos.
 Mas ela reagiu. É mais forte do que eu pensava.
Mandamos fazer outra magia negra, dessa vez, no seu carro.
Aconteceu um acidente. Ela saiu sem machucado.
E se nós sabotarmos o carro? Ela está bebendo tanto!... Disse minha amada.
Enfim, mandei publicar em todos os jornais da cidade:

“Marido inconsolável e filhos saudosos comunicam o falecimento, em trágico acidente, e convidam para o sepultamento da esposa e mãe inesquecível”

quarta-feira, 18 de março de 2015

ATRAÇÃO INUSITADA


Guto, meu cão, jamais teve uma cadelinha, jamais amou alguém de sua raça ou de qualquer outra.
Talvez tenha me amado, mas sempre foi rebelde e não demonstrava esse apego, tão decantado sobre cães.
Hoje está velho, os dentes caindo, os olhos cegando, e não responde as minhas  chamadas, talvez já não as ouça.
 Eu trouxe para casa duas gatinhas. A Kate, branquinha como neve, e  Kira, uma negra de pernas longas e andar elegante.
Logo que as duas chegaram, viviam se escondendo do animal grande e zangado.
Os dias correram, e pouco a pouco, elas ousaram aproximação.  Guto, muito devagar, habituou-se àquelas bichinhas.
As gatinhas comiam a comida do cão e ele ia para a vasilha delas. A água preferida delas, era a que ele bebia.
A relação de amizade foi consumada.
Kira, a negrinha sestrosa, entrou no cio.  Sua companheira Kate, sempre ao seu lado, lambia todo o corpo da amiga, enquanto as duas olhavam pela janela o mundo lá fora.
O olhar de Kira era triste, e seu miado, mais triste ainda.
Muitas vezes me perguntei se ela seria mais feliz na rua. Livre e podendo ficar com todos os machos que encontrasse!
Enquanto eu fazia elucubrações, Kira voltava sua atenção para o cachorro velho que estava ao lado.
 E o jogo de sedução era ousado. Ela levantava o rabo grande e peludo e se aproximava do Guto. Algumas vezes por trás, outras pela frente. Esfregava-se nele, mostrava-se toda, e tentava fazer carinho nele com a língua, sempre esperando retorno.  E o cachorro rosnava e ameaçava mordê-la. A gata pulava e se afastava por alguns minutos.  E ela insistia no jogo de sedução, dando cambalhotas, mostrando-se de rabo levantado, esfregando-se nele, girando o corpo no chão dando longos e melancólicos miados.
 Usava tudo que sabia por instinto ou criatividade, penso eu.
Quando  saía com o Guto, ela tentava nos seguir. Eu fechava a porta e ela miava desesperada, até meu retorno.
E o seu amor incapaz, só respondia com fugas e resmungos zangados. 








 

            

quarta-feira, 4 de março de 2015

FORRÓ DO NEGÃO

                                                     
                Mais uma festa de aniversário da companheira do grupo de dança de salão.
 Mais uma noite rodopiando com os garotos, que complementam suas escassas economias, nos levando para dar passos acrobáticos e repetitivos, durante horas.
Pensei em telefonar para Eunice, a aniversariante,  e dar-lhe os parabéns via Embratel, me entregar aos braços de Morféu ou procurar um bom filme para ver.
Mas o sono não chegou e os filmes eram antigos e reprisados muitas vezes.
Concluí que era melhor ir cumprimentar minha amiga e tirar proveito do que me foi oferecido.
Eunice havia sido gentil ao me incluir entre suas convidadas e teve o cuidado de contratar quatro bailarinos para que nenhuma amiga tomasse chá de cadeira.
Embora esses contratos me façam lembrar que estou idosa e invisível. E sinto saudade do tempo em que eu era jovem e requisitada.  
Segui para a churrascaria, em Laranjeiras, embora soubesse que seria uma noite sem surpresa, sem jogo de sedução ou conquistas amorosas. Apenas um negócio.
No fim da noite, meu parceiro, cansado, receberia o dinheiro previamente combinado.
Quando o taxi parou no lugar indicado, fui encaminhada para um salão enorme, na parte de trás.
            Um conjunto de músicos animados, tocavam de tal maneira que  meu corpo ficou com vontade de dançar. Mas não precisei dos bailarinos contratados.
            Logo um jovem que apenas se divertia, tirou-me para dançar. Em seguida, um homem de aspecto distinto, bem vestido e educado convidou-me para outra dança.
            Nem percebi  se dava os passos certos, se tinha ritmo ou técnica. Só lembro que era cheiroso e abraçou-me forte. Perguntou meu nome. Eu disse. Ele admirado, falou: “voce  tem o nome da mamãe. Ela está velhinha, tem setenta e seis anos.” Tão elegante e tão mentiroso...
Depois foi a vez do jovem charmoso, com a cabeça raspada. Estava com um perfume gostoso, chegou mais perto e me convidou para o escurinho, fará do salão.
            Que alegria! Há quantos anos ninguém me tirava do salão para umas beijocas? Quis saber meu telefone e perguntou se eu tinha namorado. Quase morri de emoção.
            O terceiro homem que me tirou para dançar era jovem e parecia maluco. Quando falou saiu de sua boca um hálito de tigre louco. Nunca cheirei tigre, mas deve ter aquele cheiro.
            Bebi um pouco mais do que devia e já estava altinha quando percebi um afro brasileiro grande e forte, me olhando com olhar pidão. Estava longe o tempo em que me olhavam daquela maneira! Meu corpo se encheu de prazer e “encarei”.
            Aproximou-se, disfarçadamente, e me perguntou se eu queria dançar. Respondi que sim. E lá fomos nós ao som do forró arretado, com bate cocha e rala bucho.
            Quando terminou a primeira música, ele me perguntou se continuávamos
Pensando que ainda era jovem, respondi assanhada, “claro”.
Estava cansada, mas, há muito tempo não sentia tanta alegria e tão grande entusiasmo.
O forró e o negão me deixaram tão cansada que minha respiração começou a faltar.  Eu só ia parar quando a orquestra acabasse de tocar. O coração acelerou. Desejei que a letra não fosse tão longa e que aqueles músicos parassem. Teimosa, continuei dançando. Queria agüentar até o fim, embora o coração batesse descompensado, a respiração ficasse difícil e a vista escurecendo.
Quando voltei do desmaio estava sendo levada para a mesa, nos braços do crioulo. Sentou-se na cadeira ao meu lado, e zangado disse:
“Não faça mais isso. Você não tem mais idade...”
Mas, naquele momento nada que dissessem diminuiria o encantamento da noite, daquele aquele negão.
Idosas solitárias procurem...
 Ainda somos capazes de atrair homens, sermos cortejadas e dançarmos sem parar.

 E, bem agarradinhas, sem custar nada.

LIVRAMENTOS

                                               
Durante muitos anos, todas as terças feiras à noite, eu participava de um grupo de mulheres que estudavam tarô.
Depois de cada aula, nos reuníamos para comer uma pizza, um cachorro quente, ou apenas conversar, trocar idéias. Perdíamos a noção do tempo, e seguíamos caminhos diversos. Algumas tinham carro, outras  viajavam de ônibus e, muitas vezes, se metiam em situações de risco.
Tínhamos em comum o desejo de ler cartas, adivinhar o futuro, mas, vínhamos de religiões e crendices várias. E quando precisávamos de milagres, de uma graça, recorríamos a diferentes maneiras de buscá-las.
Germana, contadora de estórias hilariantes, embora muito simpática e espirituosa, era gorda e desleixada.
Uma noite de terça feira, voltando para Bangu, onde morava, deparou-se com um negão de um metro de largura por dois de altura, uma voz de trovão que lhe disse:
- Vai passando a bolsa, esse cordão que está no pescoço, relógio e celular. E logo, que eu não tenho tempo para perder.
Embora tremesse de medo, olhou firme nos olhos do crioulo e, disse, cheia de convicção;
- Filho de Xangô não pode roubar filha de Yansã!
O homem, assustado, respondeu:
- Você é filha de Yansã?  Segue teu caminho em paz.
Admirada, eu perguntei:
- Você é filha de Yansã?  Como sabia que o homem era filho de Xangô? .
- Eu não sou filha de santo, mas aquele negão só podia ser filho de Xangô. Todos eles são...
Sara era outra colega cheia de manhas. Judia convicta,  freqüentava outras religiões, assistia a outros ritos.
Morava em Copacabana e, talvez fosse a que primeiro a chegar á casa, depois das  aulas e das reuniões com as colegas.
Numa das noites em que estava voltando,  o ônibus em  que ele subiu foi assaltado por uma turma de moleques.
Assustada, ela começou a rezar o Pai Nosso e a Ave Maria, tão alto que um dos aproximou-se dela e disse: “Calma,  tia, nós não vamos roubar nada seu”.
E desceram logo que a condução parou.
- Você é uma judia. Porque rezou o Pai Nosso e a Ave Maria? – perguntei.
- Ora, ninguém conhece as orações da minha Igreja, em hebraico . Como  iriam saber que eu estava rezando?   
A única aluna evangélica que freqüentava as aulas de terça feira era a Tereza.  Morava em Ipanema, andava cheia de jóias no pescoço, braço,  orelhas e dedos. Nem sei se tudo era de ouro ou ela misturava com bijuteria.  O fato é que andava bem vestida e bem calçada.
Entrou no ônibus em Copacabana e não percebeu que bandidos  estavam assaltando os passageiros.
Quando percebeu que dois homens estavam tirando carteiras, celulares e jóias de todos, levantou o corpo de quase dois metros, abriu a boca e com o vozeirão que Deus lhe deu, começou a falar a língua dos anjos.
O blá-blá-blá não foi compreendido mas, os ladrões fizeram o motorista parar o ônibus e desceram apavorados.
“Jesus salvou minhas jóias, meu dinheiro e a todos que estavam no ônibus. Jesus é bom”, disse ela cheia de agradecimento e fé.

Terminamos o curso de tarô, nos perdemos de vista. E eu pergunto: “o que livrou essas mulheres dos ladrões, quando retornavam as suas casas? “.

FARSA

                                                 



            Carlos Alberto, típico militar, cheio de regras, intransigente e autoritário, mas, tinha um jeito de fazer com que todos em casa aceitassem o seu comando e até gostassem dele.
            Qualquer atraso às refeições ou mesmo a simples falta de modos de um neto, era trágico.
            Ofélia, sua esposa, disciplinada e valente, dividia com ele o domínio da família e dos empregados. Como se fosse uma coronela, ela vibrava  com tudo que se referia ao quartel. Um dizia mata, o outro, esfola.
            Aliados, chegaram aos trinta anos de casamento.
            Quando chegou o fim de carreira, Carlos Alberto conseguiu um bom emprego num órgão do governo.
            Tinha três meses para deixar o apartamento funcional, e decidir onde morar.
Ele viajou para o Rio, enquanto ela ficou recebendo homenagens e presentes de despedida dos amigos, que conquistaram.
No domingo  o Coronel telefonou para o filho mais velho, já casado e disse:
- Márcio, vá à minha casa, abra o meu armário e tire de dentro do bolso do paletó azul, uma carta para você e outra para sua mãe. E tome conta dela e de sua irmã. Não voltarei mais.
O rapaz pede explicações, que não são dadas. Nervoso, vai cumprir as ordens do pai.
Pega dois envelopes. Entrega um à D. Ofélia e lê  a que lhe foi destinada.
“Há dezessete anos estou apaixonado por outra mulher. Agora que fui para a reserva, não tenho mais necessidade de bom comportamento. Vou ser feliz, etc, etc ...
Na carta da companheira de mais de três décadas, estava escrito:
“Lembra-se de nossa viagem a Paris, quando você descobriu que eu tinha uma amante e obrigou-me a terminar tudo por carta? Escrevi o que você queria e lhe entreguei para enviar pelo correio.
Chegando ao escritório, escrevi outra desdizendo tudo. Continuei meu romance, por todos esses anos. Tive dessa mulher, um amor e uma dedicação jamais encontrados em você.
Agora junto dela conhecerei a verdadeira  felicidade.”
D. Ofélia desmaiou, a filha diabética entrou em coma, a velha empregada ficou desmemoriada e foi para o manicômio. A nora revoltada e o filho chocado.
Carlos Alberto, ao saber de tanto infortúnio, voltou para casa, arrependido. Presenteou a filha com um carro novo, desmanchou-se em desculpas para o filho e nora, e fez declarações de amor para a esposa.
Acomodaram-se na casa do filho e, tiveram uma nova  e verdadeira lua de mel. 
Até a velha babá saiu do hospital, equilibrada e radiante.
O Coronel foi mais paparicado do que nunca. Todo o mimavam  para que não sentisse falta da  amante e voltasse para os braços dela.
E o marido, apaixonado como nunca, disse para a esposa:
- Querida, nossa felicidade seria completa, se eu não guardasse um grande  remorso. Durante anos e anos, aquela mulher dedicada e amorosa ficou presa a mim, por uma promessa que não consegui cumpri. Sempre esperou morar comigo. E vou ficar com você.
Esse remorso seria aplacado se eu deixasse, ao menos, um cantinho para ela morar.  Você tem aquele apartamento que seu pai lhe deixou. Não precisamos dele, pois vou comprar outro aqui, perto, dos nossos filhos e netos.
O que você acha de passarmos o seu apartamentinho de subúrbio para o nome dela, e aplacar esse meu remorso?
 E esse capítulo da nossa vida estará encerrado para sempre e não pensaremos nisso.
Ofélia, mais que depressa, assinou os papeis que o marido lhe entregou.
A filha que estava noiva, logo marcou o casamento. 
 Tudo saiu perfeito. A festa foi digna de uma princesa.
Quando os convidados saíram, a moça preparava-se para a viagem de núpcias e os outros estavam prontos para dormir, quando Carlos Alberto pediu um momento de atenção e disse:
- Graças a Deus a farsa chegou ao fim!  Fiz todo esse sacrifício por você, minha filha.
E virando-se para a mulher disse: Não te suporto, megera. Estou com saudade da mulher a quem, verdadeiramente, amo.

Pegou a mala, que já estava pronta, se despediu dos filhos, nora e netos e para a mulher com quem viveu  trinta anos, deu um último olhar de desprezo e um frio adeus.

UM SALTO NA ESCURIDÃO

                                             

            Eu gostava dele. Juro que cheguei a amá-lo. Só não gostava quando ele se tornava inconveniente. Fazia carinhos em locais não indicados. Eu sentia irritação. Às vezes, ficava até furiosa.
            Logo na viagem de núpcias, Miguel tornou-se insuportável. Eu detestei tudo nele. Seus lábios melados e quentes sobre a minha boca, suas mãos sôfregas passeando pelo meu corpo e aquela parte dele, que entrava dentro de mim,  e, me machucava toda.
            Nunca poderia imaginar que o casamento fosse tão humilhante.
            Perdi a privacidade. Dividia tudo com aquele estranho.
Para completar meu desespero, agora vivia enjoada. A barriga crescia, os seios doíam.
            Nasceu o primeiro filho. Só  me lembro de muita dor e da voz do médico mandando eu fazer muita força. Onde poderia encontrar mais força?
            Mais um ano de submissão aos desejos de Miguel. Mais um filho. Assim foi minha vida. Coloquei no mundo quatro crianças feias e choronas.  Jamais consegui amá-las. Elas eram a lembrança viva, e constante, de minha infelicidade
            Um dia Miguel deixou-me em paz. Já não me usava. Já não colocava dentro de mim aquela gosma nojenta que se transformava em meninos que traziam dor e trabalho.
            Entretanto, paguei um preço alto por aquele alívio. Agora Miguel vivia aos gritos. Grosseiro e avaro, e me tratava, com imenso e total desprezo.
            Ele se tornou cuidadoso com sua aparência. Tomava mais banhos, perfumava-se e estava sempre trocando roupas lavadas e engomadas por mim. Todo elegante ia ao encontro daquela vagabunda. Ela ainda tinha o desplante  de telefonar para minha casa. Miguel falava todo meloso e dizia palavras de carinho jamais usadas comigo.
            Quando voltava dos encontros, eu tinha um enorme trabalho tirando as manchas das camisas e lavando as cuecas que fediam.
            Num sábado fui ao quintal  pegar uma galinha para o almoço. Encontrei o galo, trepado nela. Peguei aquele miserável e capei. Comemos galo e não galinha.
            O quintal está cheio de animais trepando uns sobre os outros. Sinto-me nervosa, mas,  olho fascinada.
            Outro dia castrei o porco. Miguel veio me perguntar por que matei aquele bicho que estava engordando para o Natal.
            Fiquei calada e ele bem que gostou de comer porco durante três dias.
            Aquele cachorro fedorento vivia a esfregar aquela tripa vermelha, que saía dele, nas minhas pernas. Um dia escorreu dela uma gosma nojenta parecida com aquela que o Miguel jogava dentro de mim. Fiquei furiosa. Corri até a cozinha, peguei o facão amolado e cortei a tripa do cão. Ele ficou ali, esvaindo-se  em sangue. Sujou toda a casa.
 Quando meus filhos chegaram, pareciam loucos gritando. Continuei na minha cadeira de balanço cantarolando aquela modinha de que tanto gosto.
Levaram-me ao médico. Ele me fez muitas perguntas. Respondi a algumas e calei-me quando quis.
Agora vivem me entupindo de remédios.  Passo a maior parte do tempo  dormindo. Estou satisfeita porque já não trabalho tanto.
O safado do Miguel arranjou dinheiro para pagar uma empregada, mas,  reclama  o tempo todo.
Meus dois filhos estão crescendo e já começam a procurar mulheres. São iguais ao pai.
As meninas não estão interessadas em homem. Parecem mais comigo.
Suspenderam os medicamentos e voltei aos trabalhos domésticos.
            Miguel está mais gentil comigo. Outro dia, até fez um carinho no meu cabelo. Disso eu gosto.
Pediu para voltar a dormir no meu quarto. Impus a condição de manter-se afastado da minha cama. Concordou, e não cumpriu.  Uma noite acordei com ele nu, deitado ao meu lado. Já estava até de pau duro.
Levantei depressa, corri até a cozinha e peguei o facão. Ele lutou comigo e conseguiu subjugar-me. Mordeu meu pescoço, mamou meus peitos e lambeu meus ouvidos. Deixou meu corpo marcado de beliscões. Depois  jogou a mesma gosma nojenta dentro de mim
Naquela noite chovia forte. Saí de casa nua, como nasci.
Andei pelas ruas desertas, até me sentir suficientemente limpa para chegar ao céu.
Nunca mais serei tocada por ninguém.

Ela subiu na mais alta torre da cidade, e saltou no imenso vazio...