sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A VIDA ÍNTIMA DE UM HOMEM PÚBLICO

Filho de imigrantes, nasci no interior de S. Paulo, onde vi minha mãe ser agredida física e verbalmente por meu pai, desde sempre.
            Um dia papai nos abandonou. Se por um lado senti alívio, por outro tive motivo para desespero. Já não havia comida na mesa, abandonamos a escola, e diversão, nem pensar.
            Mamãe foi lavar roupa de uma família que morava perto de nossa casa. E perto de nós também existia uma fabrica de fubá, de onde tirávamos o básico de nossas refeições.
            Foi nessa época difícil que jurei vencer na vida, sair daquela miséria.
            Consegui voltar à escola e terminar os estudos. Sou inteligente e não me custou grande esforço. Mas, sonhava ir mais longe.
            Brasília, a nova capital, foi inaugurada. Lá eu teria chance de ser vitorioso.  Coloquei duas mudas de roupa numa sacola, e vim em busca do meu destino. 
            Mamãe apostou em mim. Sonhava que um dia eu seria doutor. E sempre dizia: “Este meu filho será um vencedor”. E sua intuição estava certa. Só eu venci. Os outros são uns fracassados, bêbados, eternos desempregados, que vivem para me extorquir dinheiro e me causar problemas.
            Fiz vestibular, e no dia em que saiu os resultados eu não tinha dinheiro para tomar um ônibus para ver se meu nome estava na lista dos  aprovados. Mas, com a minha vontade férrea, vim caminhando de Taguatinga até o Plano Piloto. E valeu à pena. Ninguém pode imaginar a felicidade que experimentei ao me deparar com meu nome na lista dos aprovados.
            Começou minha subida.  Ainda na Faculdade, me apaixonei pelas tramas políticas. Logo me filiei ao PCB. Lógico, era o partido dos que não têm nada e querem tudo. Logo, o poder e o dinheiro, trocariam de mãos e eu chegaria ao topo. Trago nas veias, não sei de onde,  talento maquiavélico, imprescindível na política, sobretudo para os que não contam com tradição e riqueza. Esses, podem se dá ao luxo de ética, respeito à palavra dada, amor pela verdade.  Mas, aqueles como eu, a bandeira é “o fim justifica os meios.”
            Fiz discursos inflamados  e prometi qualquer coisa à cambada de gentalha que me ouvia. Ficaria com eles e deles tiraria votos para chegar a conviver com os burgueses, a quem tanto invejava. Um dia seria um deles, prometia a mim mesmo. Já cheguei até aqui, graças a minha força, chegaria até lá.
            Na faculdade só estudava o estritamente necessário para passar. Quando possível, colava. Que me importava se mais tarde não soubesse muita coisa de medicina! Afinal, precisava de um curso superior e depois só atenderia a pobres cidades satélites, para angariar votos. Partos de indigentes até parteira faz.
            O país estava um caos. Ótima ocasião para um João ninguém, como eu, aparecer. Todos insatisfeitos e eu prometendo tudo. É verdade que eu precisava ter uma disciplina rigorosa dentro do partido. Precisava do apoio deles. E ainda contribuía para o PCB. Era meu investimento.
            Os militares tomaram o poder. Fomos perseguidos, surrados e até alguns mortos.
            Aprendi  algumas técnicas de tortura, modos de machucar, maneiras de humilhar. Quando tivesse poder, devolveria tudo em dobro. Essa certeza me anestesiava e me preparava para o gozo futuro. Agora havia um preço a pagar, e eu pagaria.
            Um dia os militares deixaram o poder. Mas organizaram de tal modo com a tal anistia bilateral que não tive o prazer da vingança. Eles ficaram intocáveis e eu cheio de ódio e frustração.
            Voltei para Brasília e ainda militando em sindicato, recomecei a luta para ascender.
            No palco da vida, num palanque, conheci  uma mulher bonita e jovem que me seduziu. Descobri que era filha de um militar da repressão e pertencia a elite. Meu amor cresceu. Tinha tudo para satisfazer todos os meus anseios. Com ela aprendi como pensam e vivem os burgueses. Ela me ensinou a agir corretamente em sociedade. E ainda poderia  descontar nela, as torturas que a corja, da qual ela vinha, me fez padecer.
            Coitada, era tão ingênua, tão confiante se sem malícia! Bem feito para aqueles que criam filhos protegidos e fracos. Burguesinha fresca e mimada. Dó, inveja, amor e ódio foram se misturando nos meus sentimentos. E ela fascinada por mim e pelo que eu representava. Novos valores, um mundo diferente, inusitado.
            Ela engravidou e fomos morar juntos. Os pais dela ficaram inconformados.
 Mas, agora ela  nas minhas mãos.
Fui com ela, pela primeira vez a um motel. Ela escolheu o meu primeiro paletó, e juntos, freqüentamos lugares elegantes onde aprendi a usar talhes e taças adequadas ao momento.
Às vezes ela me irritava e comecei a agredi-la física e verbalmente. Ela chorava e corria para os braços da mãe.
Eu implorava e chorava também, jurava  nunca mais surrá-la. A imbecil acreditava.  Durante algum tempo nós viajávamos para o exterior ou eu dava um carro novo, uma jóia, e gozava.
Agora eu era uma autoridade. Tinha dinheiro e podia tudo.  Estava num cargo onde ganhava bem, e tirava dos cofres públicos mais, ainda.
Enquanto eu crescia, ela ia ficando conhecida nos hospitais de pronto socorro. Um dia ela chamou a polícia. Quando os policiais  chegaram eu estava com um facão apontado para o nosso filho. Ela se acovardou e negou que tivesse sido agredida. Justificou os hematomas e o braço quebrado, afirmando que sofrera um acidente de carro.
Ela está desmoralizada e ninguém mais atenderá o seu chamado.
Outro dia, me diverti,  fazendo com ela, as torturas que seu pai fez com meus companheiros.
Em um plantão no hospital, atendi uma mulher espancada. Chorei de pena. Todos os meus colegas acreditaram na minha sensibilidade. Nunca vão acreditar que eu seja capaz de bater na mulher que amo.
Certa madrugada, saindo de um bar, perdi o controle, e estrangulei sua carótida. Ela passou dias sem falar ou comer.  Pediu socorro a bruxa da mãe, que veio do Rio para buscá-la.
Imagina se vou deixar! Ela me pertence e posso fazer o  que quiser. Está viciada em mim e nas minhas porradas.
Soube hoje que as duas viajarão essa semana. A velha bruxa tem mantido a dondoquinha presa e incomunicável. Não consigo sequer vê-la Pensam em levar nosso filho. Não posso deixar. Ele é a minha garantia. Se estiver comigo, ela voltará.
Fui conversar com minha mulher. Ela não pôde abrir a porta porque a megera levou as chaves. Mas, de fora argumentei ter direito a uma despedida do meu filhinho.
 Hoje à noite vou provocar um acidente. Vou me suicidar e levar comigo o garoto.
Estou no carro com meu filho ao lado. Liguei para a mãe dele e disse que vou me suicidar e levar meu garoto comigo.
Meu carro está tão acelerado que ela pode ouvir, pelo telefone, o cantar dos pneus.
 Minha mulher prometeu qualquer coisa, desde que lhe devolva o garoto. Consegui. Ela voltará pra mim.
Acelero mais...
Polícia e bombeiros conseguiram resgatar, do terrível acidente, uma criança de sete anos, ainda viva.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

VOO PARA A LIBERDADE

            Nos últimos meses que passei no colégio, senti emoções contraditórias e desconhecidas.
            Saudade, medo, vontade de ficar, desejo de correr para conhecer a vida que me esperava lá fora.
            Sempre buscando um lugar para meditar, me afastei de todas as colegas e pouco falava com as freiras.
            Nas noites de lua cheia, eu me sentava no banco do pátio e ficava observando o céu, estrelado. O cheiro das flores era mais  intenso.
            Às vezes eu via a beleza e elegância da lua nova.
            Olhava para baixo e observava as luzes da cidade, como pontos de ouro brilhantes.
            Eu era a aluna mais antiga do colégio e jamais percebera beleza que estava à minha volta.
            E pensava em cada uma e no quanto  foram importantes para mim.
            Sentiria saudade das humildes Irmãs que nos serviam, cuidavam das nossas roupas e limpavam salas e dormitórios.
             Talvez sentisse falta até da Madre Superiora com aquela aparência fria e distante. Embora tivesse um bom relacionamento com algumas alunas, chamadas de “queridinhas de Nossa Madre.”
 Eu sentia ciúmes e sonhava com o dia em que eu faria parte do grupo.
 O meu sonho de casar com o irmão de alguma colega de família tradicional não  se realizou.
Pedro, rapaz simplório, tentou me conquistar acendendo e apagando  os  faróis do carro, para me provar que estaria ali sempre a minha espera. Sumiu.
Sentia-me tão melancólica, que pouco me importei com os preparativos da formatura.
Era como um passarinho que, depois de anos preso na gaiola,  encontra a porta aberta, e tem medo de voar.
Mas, quando dezembro  chegou, e com ele as festas de Natal, mamãe foi ao colégio cheia de planos e promessas.

 Meu coração bateu forte, quando ela me entregou a passagem que me daria asas, para voar bem longe. 
TRAPALHADAS

            Conhecia os dois e era confidente de ambos. Mas não sabia dizer como acabaria a sua história.
            Cada um deles fingia, e desejava a própria salvação. Acima de tudo temiam perder o que o que lhes restava da relação. E não usavam  romper o tênue fio que ainda os unia.
            Noelia estava convencida de que o marido tinha uma amante, por quem estava apaixonado.
 Numa tarde de domingo,  ela se trancou no banheiro, e gritou para todos, que ia cortar os pulsos.
            Não creio que levasse a termo essa ameaça. Se desejasse realmente suicidar-se, não pediria socorro, não avisaria a filha, sabendo que a garota me chamaria.
            Mais uma vez corri para ajudá-la e ouvir suas queixas intermináveis.           
            - Artur está me traindo com a secretária. Parece um desconhecido. Todos os fins de semana ele desaparece e  eu fico sozinha,tomando conta das crianças.
            Meus domingos são longos e solitários. E quando ele chega tarde da noite, vira de costas e dorme.
 A solidão a dois é mais doída.
            Outro dia eu estava no salão quando a desavergonhada chegou, e, quando me viu deu meia volta e fugiu.
            Quando  cheguei em casa relatando esse fato, ele riu muito,  e disse: “ Viu como a moça tem medo de você? Sua agressividade  já virou lenda.”
            Dias depois, a megera da minha sogra recebeu, em sua casa, a vagabunda.
- Sogra é sempre sogra...
            Fazer sexo tornou-se um acontecimento raro, sem emoção, quase mecânico. Usada e frustrada fico péssima.
Muitas vezes sonho que estou enfiando uma garrafa dentro de mim. Em outras ocasiões, durante o sonho parece que estou sendo estuprada por um  desconhecido.
 Já irritada de tantas lamúrias, perguntei: “amiga por que você ainda transa com ele? Será masoquista?  Teimosa? Esperança de que tudo acabe bem?  Mulher, sai logo dessa relação.
            - É você tem razão. Não tem mais jeito.  Artur vai dormir no quarto de hospede. Vou fechar a porta e as pernas.
            Já era noite,quando saí da casa deles, cheia de  tristeza. Conheci o casal feliz, harmônico e ajustado. E agora acontecer isso!
Será que o homem estava apaixonado pela secretária; ou a insegurança da minha amigas é causada pelos primeiros fios de cabelos brancos, pelas incômodas rugas na testa e nos olhos?
 Ela sempre foi tão bonita, tão elegante!
Viajei, e durante anos, não tive notícias do casal.
            Tempos depois, encontrei-me com Artur. Ele me convidou para um cafezinho que durou horas.
            Estava nostálgico e infeliz. Parecia querer desabafar.
Falamos sobre a política, a vida social e econômica do país até termos coragem de lembrar os velhos e bons tempos que passávamos férias em Petrópoles. 
Sentimos saudade das tardes de domingo, quando, depois do almoço, disputávamos no baralho, qual o casal que jogava melhor.
            - Por que tudo isso acabou?  Você tem saudade daquela época? Perguntei.
            - Muita
            - Quando começou o fim do casamento de vocês? –perguntei, tentando compreender suas mágoas.
            - Noelia mudou demais. Ficou irritada, raivosa e desleixada. Estourou todos os cartões de crédito; e não sei em quê, já que nunca tinha parecido tão desleixada.
 Não era mais  aquela moça bonita e elegantes com quem me casei. Quando eu reclamava, ela dizia que era para eu não gastar com mulheres da rua.
Imagine você, que ela cismou com a minha secretária. Quanto mais gentil a moça era, mais enraivecida ela se tornava.
Já não fazia amor comigo, reclamando sempre que eu estava com o cheiro de outra mulher.
 Mamãe, vendo nosso sofrimento, convidou a moça para oferecer um emprego em outro escritório.  Fiz birra e não deixei a secretária aceitar.  Afinal de contas, não tinha porque satisfazer o capricho de uma mulher que não confiava em mim, e parecia não me querer mais.
            Depois exigiu que eu fosse dormir no quarto de hóspede. Nas primeiras  noites esperei que ela se arrependesse, e viesse dormir ao meu lado. Faríamos amor. E tudo voltaria ao normal.
Noite após noite, sonhei e esperei por ela.
            -Por que vocês não conversavam? Não falavam dos sentimentos, mágoas e erros e cada um?
            -Como eu podia dizer qualquer coisa? Tudo que falava era mal interpretado, distorcido. Parecia que todo aquele amor e compreensão que tínhamos um pelo outro, havia terminado.
            Nossa vida era um caos.
             
 A moça meiga que adorava meus carinhos,     já não existia. Em seu lugar estava uma mulher irredutível, pedindo a separação. O fato é que a perdi para sempre.
Cheia de remorso, perguntei: - Você jura que nunca teve nada com a secretária?
-Saí com ela algumas vezes, depois da separação. Mas, não havia nenhuma atração, nenhuma afinidade entre nós.
Trocamos telefones, saímos muitas noites, fizemos passeios inesquecíveis, descobrimos afinidades, e, acabamos em motéis.
Tudo foi se transformando, e acabamos nos apaixonando.
Deixei que a  Noelia continuasse acreditando que Artur a traiu.
Sinto-me culpada, por tê-la aconselhado a optar pela separação.

Não sei como Noelia reagirá quando souber que Artur e eu estamos juntos.
SAGRADO SEGREDO
         Catarina morreu e Umberto não sabia o que fazer de seus filhos. Ganhava pouco e estava totalmente despreparado para tomar conta de sete crianças. Assim, resolveu separá-las. As mais novas foram entregues aos tios, enquanto as mais velhas ficaram internadas em colégios do governo.
            Mudou de cidade, lutou e trabalhou muito.  Anos depois, sentiu-se capacitado para reunir os filhos numa casinha simples, mas confortável.
            Marcia, a caçula, estava então com doze anos, e foi a última a se reunir a família. Gostou de todos, mas, ficou encantada por Maurício. Ele era o mais bonito, o mais alegre e estava sempre brincando com a ela. A afinidade entre os dois foi instantânea e transformou-se um afeto cheio de cuidados e carinhos. Ela cuidava de suas roupas e tinha sempre pronto um refresco, um biscoito, quando ele chegava a casa. Ele, por sua vez, trazia sempre um chocolate, sorvete, ou qualquer objeto que pudesse agradar a uma adolescente.
Juntos, iam ver o filme mais cotado, a peça de teatro mais falada,  ou participavam de uma festinha na casa de algum amigo. A companhia de um, bastava para o outro. O mundo estava completo.
Naquela noite chuvosa, todos foram para a festa de aniversário da tia Aurora
  Ela,  no entanto, preferiu fazer companhia ao irmão predileto, que estava resfriado e febril.
Os trovões estouravam com fortes ruídos e os relâmpagos iluminavam a casa toda.
Maurício acordou assustado e chamou a irmãzinha. Ela, no seu quarto, tentava controlar o medo. 
Quando ouviu o chamado do rapaz, correu para seus braços protetores. A menina sentiu o corpo dele suado e quente. Os dois foram tomados por estranha sensação. Um arrepio subindo pelas costas, um desejo desconhecido, confusão misturada com vergonha.
            Maurício acendeu o abajur da mesa de cabeceira. Sua mão tremia diante da revelação.  Não amava apenas a irmãzinha. Estava atraído pela mulher em que ela se transformava.
            A partir dessa noite, todas as vezes que o rapaz chegava a casa, ia até a cama da irmã e afagava suas costas, subindo e descendo as mãos, numa carícia aparentemente fraterna. Ela adorava aquele toque e, quieta, fingia dormir.  Nas tardes de sábado e domingo, enquanto ele descansava, sorrateiramente, ela deitava-se ao seu lado. Ele fingia está dormindo e posicionava-se de modo a sentir seu corpo inteiro. Algumas vezes, a garota sentia parte dele, volumosa e rija, em suas coxas.
            Quando alguma colega dela  tentava se aproximar do irmã,   ficava envaidecida e cheia de poder. Ele, no entanto, zangava-se com qualquer amigo que se engraçasse pela irmã.  Falava mal de cada um e encontrava defeitos em todos. Um dia, meio acanhado, confessou que estava com ciúme.
            O tempo passou, chegou o dia em que Mauricio, já formado, teve que mudar de casa e de cidade.
 Misturado a alegria de ter conseguido um bom emprego, seu coração doía de saudade da família e, principalmente, da caçula.
            Na véspera da viagem, enquanto todos dormiam, ele padecia de uma insônia exasperante. Levantou-se, saiu do quarto em busca do  quê  fazer naquela interminável.
            Conversar com a irmã caçula era prazeroso.
 Logo a escuridão da noite daria lugar ao clarão do dia.   Foi ao quarto da irmã conversar. Ela dormia com a roupa com a saia levantada, deixando as coxas à mostra. Parecia tão abandonada em seu sono! Era comovente. Como de hábito, pegou  em seus cabelos, deslizou as mãos em suas costas, provocando prazer na garota já desperta, que agora o  olhava carinhosamente. Mauricio  beijou sua boca. Ofegante, ela  correspondeu oferecendo-se ao desejo dele. Rolaram, abraçados no estreito colchão. Junto com a dor da separação, veio a excitação incontrolável.  A razão deu lugar ao prazer imensurável. E ela, finalmente era mulher. Sua mulher. Riam, enquanto enxugavam as lágrimas de prazer.
            Amanheceu e ele partiu.
Um dia conheceu uma mulher e casou-se.
E ela viveu uma vida cheia de romances e paixões.
Muitas vezes seus caminhos se cruzam e ele sempre amigos, carinhosos e compreensivos.

Jamais falaram sobre aquela noite de amor.
DOMINGO FATÍDICO
            Naquele domingo acordei tarde, o sol batendo no meu rosto e o suor escorrendo pelo corpo. Olhei o relógio e vi que eram quase dez horas. Precisava correr senão perderia a carona do Josué.
Desci as escadas aos pulos. Ouvi mamãe me chamar. “ Marluce corra aqui”.
Gritei para a empregada: “Lucimar  mamãe está lhe chamando”.
Continuei o meu caminho, apressada.
E dançando, bebendo e comendo passei todo o domingo.
Quando voltei à tarde encontrei a casa cheia e o corpo de minha mãe sendo velado na sala.
 Soube então, que ela me pediu socorro e eu fugi. Foi a empregada que a socorreu. Foi nos braços da empregada que ela morreu, enquanto sua única filha farreava.
Durante alguns minutos  fiquei ao lado do seu corpo inerte, sem derramar uma lágrima sequer, como se tivesse sido anestesiada.
Meus irmãos tinham os olhos vermelhos e minhas irmãs choravam.
Tudo aconteceu tão rápido, tão inesperado.
Amigos e vizinhos foram chegando, nos abraçavam e depois, iam ver a mulher inerte, entregue a morte.
Eunice, sua mais querida amiga, chorava e falava: “Como  uma pessoa tão jovem, inteligente, de idéias avançadas, grande defensora dos oprimidos, pode morrer assim? Ela se foi para sempre”. E soluçava.
Quando fui, pouco à pouco, saindo daquele estado de torpor, percebi o quanto eu fui egoísta. Eu só pensava em mim e nos meus interesses.
 Ela precisou de mim e eu mandei a empregada em seu socorro. 
Se algum amor filial existia em mim era pelo meu pai. E ele estava ali  na minha frente vivo. Era com ele que eu viajava nos fins de semana, era a ele que esperava toda  tarde, no portão de casa, para receber balinhas, chocolates ou chicletes.
Mamãe me parecia distante, sempre recebendo amigos, usando jóias, vestindo roupas elegantes, cintas e sutians tão apertados, que precisava da empregada para vestir-se.
À  noite, sentada numa cadeira de balanço, ao ar livre, comentava sobre a última reunião, criticava algumas amigas, elogiava outras e meu pai,  comigo no colo, ria de tudo.
Minhas lembranças foram interrompidas pela empregada que perguntou ao meu pai se devia dar almoço aos mendigos que viam todos os dias.
 Saiu da sala para a cozinha, muito zangado, gritava :  “Seus malandros, vagabundos, essa sopa acabou com a morte da Genoveva. Se voltarem aqui, chamarei a polícia para prende vocês.”
Voltou-se para tia Luiza de dedo em riste, disse:  “E você  também  arranje para onde ir. Com a morte de sua irmã, nosso parentesco acabou.”
Aí então, lagrimas correram pelo meu rosto e soluços incontroláveis saíram da minha boca.

Chorava pela morte da minha mãe e pela perda do meu ídolo.  Chorei também por não ter percebido que ela era o anjo bom da família e eu, na minha cegueira e egoísmo, nem sequer atendi a seu último chamado.
    ARTESÃO

            Uma sexta feira igual a tantas outras.
            Um coquetel com o mesmo grupo de sempre.
            Os homens de um lado, conversando, sabem-se lá o quê; as mulheres do outro, sem nada para acrescentar.
            E eu, separada de todos, sozinha, tentava passar o tempo.
Vindo não sei de onde, um rapaz atraente me observava com aquele jeito petulante, que os jovens assumem, quando estão caçando.
            Aproximou-se sorrindo, mostrando seus lábios sensuais e dentes perfeitos. Os olhos eram verdes como os de um gato curioso e astuto.
- Alô! O que faz uma bela mulher sozinha?
            Sorri cautelosa. Precisava me certificar que eu estava rindo para mim e não de mim.
            Conversamos sobre amenidades tipo “a lua está cheia e clareia o céu. Está ventando”. Sou Felipe. Eu me chamo Neila.
            Ele estava alegre e eu disse logo a minha idade.
- Jóia! – respondeu – Não parece ter mais de trinta.
- Você me deixa vaidosa.
- Quero ficar com você. É misteriosa e linda! Você me quer?
- Você também é muito bonito – respondi, ousada como jamais fora.
- Então me de seu telefone.
- Prefiro ficar com o seu – respondi.
            Quando Marcelo, meu marido, viajou, telefonei para Felipe e marcamos nosso primeiro encontro.
Enquanto me preparava, pensei no ridículo da situação. Ele tinha apenas dezoito anos.
            Mas tudo aconteceu de maneira rápida e natural. No minúsculo apartamento dele, me senti à vontade, livre como jamais fora.
Ficamos deitados até três horas da manhã, o som ligado e uma garrafa de vinho vazia.
            A partir desse encontro, a cada viagem de Marcelo, nós ficávamos juntos. Trocamos confidências, falava sobre minhas decepções e ele sobre planos para o futuro.
            E quando deitados no tapete, suas mãos me despiam, sua boca me beijava, depois ele me penetrava, eu me transportava para o paraíso. E me perguntava: como ele pode saber todo que eu gosto. Exatamente de tudo que eu preciso?
“ Te amo tanto”. Estava sempre dizendo.
“Eu também”, ele respondia.
            E me permiti acreditar, embora soubesse que poderia pagar um preço muito alto por esses momentos.
            Agora via o mundo pelos seus olhos, e tudo parecia acontecer à primeira vez, e sob certos aspectos, era mesmo.
Felipe sempre fazia algo inusitado. Numa tarde, quando cheguei, ele trabalhava numa mesa exótica, muito bonita.
            Às vezes fazia colagens românticas e me oferecia. Ele me surpreendia com entradas para concertos de rock à meia-noite, ou insistia para irmos ver filmes antigos, que nunca vira. Levava-me para longos passeios que me deixavam exausta, com os pés cheios de bolhas.
            Fazia tudo ao mesmo tempo, porque era jovem, ou talvez soubesse que o nosso amor era apenas temporário.         
            Nenhum de nós falava sobre o futuro.
Por mais contente que estivéssemos, eu sentia a tristeza escondida na alegria.
            Dividíamos as despesas como faziam seus amigos. Eu gostava. Não me sentia explorada.
            Numa noite escura, sem lua nem estrelas, tiramos a roupa e entramos no mar. E nessa maravilhosa noite de inverno, fizemos planos para o verão. Senti-me segura. Pelos menos até que o verão chegasse. Estávamos obcecados pelos nossos corpos. Ele desejava sexo e, às vezes eu ficava exaurida, mas não me importava, não queria dormir, só precisava dele.
            Certa vez, levou-me a uma festa de jovens e recomendou: “Não precisa se embonecar”. Todos estavam de calças jeans, eram magros, cabeludos e fumavam maconha.
            Vesti a roupa errada, fiquei enjoada com o cheiro. Todos me olhavam como uma intrusa, pessoa de outra geração que nada tinha a fazer no pedaço.
            Senti-me constrangida, velha e feia.
            No dia seguinte Felipe me presenteou com uma calça jeans, tão apertada que, depois de vesti-la, não consegui me sentar.
            Ele pensava que a roupa era a barreira entre nós.
            Eu sabia que era algo muito mais profundo: era toda a minha história.
            No sábado seguinte, outra festa, outro encontro de jovens. Ele insistiu em me levar. “Seu grupo não me quer”, argumentei.
            Ele respondeu: “não sei o que eles pensam e não me importa. Não devia incomodar você. Insisti em não ir, e ele saiu zangado.
Fui sozinha para casa, depois de nossa primeira briga.
            Durante duas semanas, Felipe desapareceu. Telefonei, deixei recados, ouvi seus discos preferidos, bebi vinho, vesti roupa sexy e esperei.
            Numa noite fria, bêbada de álcool e de saudade, fui esperá-lo à porta da sua casa.
            Depois de meia-noite Felipe chegou. Meu coração pulou dentro do peito, e gritei seu nome. Voltou-se para mim e, com tranqüilidade, disse: ‘Olá, amor! Desculpe: eu estava ajudando um amigo a fazer sua mudança. Sei que deveria ter ligado, mas esqueci o celular no apartamento.
- Você está muito zangada, não é, amor?
- Não acredito em você. Deve estar com uma jovem.
Suavemente, ele respondeu: - Você sabe que sou assim. Esqueço as coisas normais e não dou para arranjos domésticos.
            Senti medo de prosseguir com a discussão. Mas ele continuou com um sorriso meio e triste.
- Preciso ser livre. Quero sair com outras mulheres. De vez em quando, a gente volta a se encontrar. Gosto de você de verdade. Somos amigos, não somos?
Queria socá-lo na boca até ver sangue.
- Amigos?! Você sabe o que é ser amigo?
Ele respondeu: - Serei um bom amigo. Vou fazer novas estantes para você.
Senti como se todas as feridas, de todos os tempos, estivessem sangrando. Corri para meu carro e gritei até o peito doer.
Jurei nunca mais namorar um jovem.

“Ele é quase um menino!”, pensei. Podia ser meu filho.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

                                      CAMINHO AVESSO

Um amigo espirituoso o chamou de “Passageiro da Agonia.”
Jamais um apelido foi tão apropriado.
            Nasceu de um susto. No sétimo mês  de gestação, sua mãe foi assaltada, desmaiou e, sem seguida, ele nasceu.
Foi levado para uma incubadora, onde se contaminou. Era resistente a antibiótico, e, esteve por vários dias entre a vida e a morte.
Soturno e mal-humorado, viveu na infância, retraído e sempre  doente.
 Na escola, teve dificuldade no aprendizado e na socialização.
Apesar de pertencer a uma família de pessoas inteligentes, jamais conseguiu terminar o primeiro grau.
Quando alguém perguntava: - Como vai, Raimundo? Respondia sempre: - Sou um “fudido”,  um analfabeto. Não  tenho grana e sou diferente de todos os meus irmãos. 
Feio e insignificante, sentia-se o menor dos homens. 
No trabalho,  reclamava de tudo e de todos. O país estava ruim, os políticos eram desonestos, as pessoas más e a vida insuportável. 
Os colegas já nem prestavam atenção às suas lamúrias.
Um dia, apaixonou-se. A jovem alegre e saudável,  retribuiu com simpatia. Durante algum tempo, ele se mostrou feliz. Rosto sem vincos, riso nos lábios, andar lépido, estava irreconhecível.
Mas, logo, seu habitual pessimismo insinuou-se entre os namorados. Aquele romance, que trouxera refrigério à sua vida, passou a ser fonte de tormento e ansiedade. Vivia a pensar: “não pode dá certo. Ela é muito bonita e inteligente. Logo surgirá outro mais interessante do que eu”. Esses pensamentos transpareciam no seu rosto. O medo tornou a voz áspera e os encontros tensos. E essa melancolia acabou afastando a moça. Cheia de esperança no futuro, percebeu que, com esse namorado, só teria dificuldades.
Raimundo dizia, com certo orgulho na voz:  - Bem que falei. Não ia dar certo. Não era possível mesmo...
Sofreu, mas ninguém podia dizer que estivesse desiludido. Nunca tivera nenhuma ilusão.
Cultivando aquela dor, desleixou-se no trabalho e administrou mal seu dinheiro. As contas chegavam e eram esquecidas nas gavetas. Roupas desmazeladas, casa por limpar, sapatos rotos. Era assim a imagem do nosso herói.
Sempre que encontrava um colega, contava longas e trágicas histórias a respeito de sua vida e pedia dinheiro para tapar buracos, e auxilio para consertar erros.
A coluna tornou-se fonte de sofrimento. A azia o incomodava e a cabeça não parava de doer.
Já entrara nos quarenta, quando novamente seu coração se emocionou.
Chegando a casa, encontrou um filhote de gato, perdido, solitário e faminto. 
Identificou-se de tal modo com aquele animal, que seu coração disparou quando o colocou no colo.
Passou a preocupar-se com sua alimentação, deu-lhe remédios e o limpou como pode. Fez dele um companheiro.
Quando abria a porta de casa e ouvia seu miado, era como escutar a voz de um amigo.
Certo dia, ao chegar da rua, ouviu de desesperado lamento do bichano. Procurou por todos os cantos e não conseguiu encontrá-lo. Aflito, descobriu,  por fim, que ele estava preso no forro. Com muita dificuldade, subiu pela passagem que dava à laje.
A madeira sem trato apodreceu, e não resistiu ao seu peso. A queda foi fatal.
O Passageiro da Agonia viveu sua última tragédia sem, contudo, conseguir libertar o companheiro.

                      BAGAÇO

            De seu, só tinha a beleza. Cabelos loiros, olhos verdes, corpo jovem, longo e bem feito.
         A mãe morrera de parto, deixando o bebê entregue a um marido inútil, cego e surdo.
         Menina ainda, ela lutava pela sobrevivência, se dividindo entre os trabalhos pesados no campo, e os afazeres domésticos.
         Mal se fez moça e, já seduzia toda a rapaziada da pequena cidade onde morava.  Gostava de fazer amor com qualquer jovem suado e fogoso que encontrava. Não importava o lugar, dia ou noite. Algumas vezes sob a sombra de uma árvore frondosa, outras na sala do pai e do irmão que nada viam ou compreendiam
         Achava gostoso correr até o açude tendo um homem em seu encalço e ali, os dois transarem dentro da água.
         Não havia maldade nela. Era uma necessidade como respirar ou comer. Queria se distrair, sentir alegria, viver feliz como um animalzinho selvagem.
         Mas, naquele vilarejo não havia lugar para ela. Todos a criticavam e os próprios rapazes que se divertiam em sua companhia a chamavam de Bagaço.
         Ficou famosa, chamou a atenção do dono da fazenda que veio repreende-a e contar tudo ao velho pai. Ela foi castigada.
         Agora, quando passava pelas ruas, ouvia gritos: - Bagaço! Bagaço...
         Ela não compreendia como algo tão natural e agradável fosse criticado. Afinal, todos gostavam, não?
         Um dia, sob pressões e repreensões, apanhou  seus poucos pertences, e fugiu de casa e da vila onde só sabiam humilhá-la.
         De carona, chegou à cidade, onde buscou abrigo na casa de prostituição. Foi logo aceita e muito cotada. Era jovem, bonita e experiente. Não havia muitas com tantos atributos.
         Ganhava dinheiro, tinha prazer e não mais criticada, ou humilhada.
         Seria totalmente feliz se não fosse a saudade doída do irmão e do pai.
         Bagaço acabou fazendo amizade com um velho cliente da casa. E gostava dele quando a chamava de Olhos de Hortelã. Talvez tenha sido esse apelido, a chave que abriu seu coração.
 E quando ele propôs casamento, ela aceitou e foram morar na capital.
Olhos de Hortelã se transformou numa mulher educada e instruída.
Mais segura, mais consciente da vida e hábitos dos homens ditos civilizados, voltou à terra de sua infância.
Próspera, de carro e motorista, chegou à casa de onde tinha fugido.
Os vizinhos correram para a rua e gritaram: “Bagaço?! Bagaço voltou?...
Com ar altivo, voz firme, e, andar confiante, olhou para trás e gritou:-  Bagaço? Já era...
Pegou o pai e o irmão  pela mão e disse:

- Motorista rápido.  Já tenho tudo que vim buscar.