segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

                      BAGAÇO

            De seu, só tinha a beleza. Cabelos loiros, olhos verdes, corpo jovem, longo e bem feito.
         A mãe morrera de parto, deixando o bebê entregue a um marido inútil, cego e surdo.
         Menina ainda, ela lutava pela sobrevivência, se dividindo entre os trabalhos pesados no campo, e os afazeres domésticos.
         Mal se fez moça e, já seduzia toda a rapaziada da pequena cidade onde morava.  Gostava de fazer amor com qualquer jovem suado e fogoso que encontrava. Não importava o lugar, dia ou noite. Algumas vezes sob a sombra de uma árvore frondosa, outras na sala do pai e do irmão que nada viam ou compreendiam
         Achava gostoso correr até o açude tendo um homem em seu encalço e ali, os dois transarem dentro da água.
         Não havia maldade nela. Era uma necessidade como respirar ou comer. Queria se distrair, sentir alegria, viver feliz como um animalzinho selvagem.
         Mas, naquele vilarejo não havia lugar para ela. Todos a criticavam e os próprios rapazes que se divertiam em sua companhia a chamavam de Bagaço.
         Ficou famosa, chamou a atenção do dono da fazenda que veio repreende-a e contar tudo ao velho pai. Ela foi castigada.
         Agora, quando passava pelas ruas, ouvia gritos: - Bagaço! Bagaço...
         Ela não compreendia como algo tão natural e agradável fosse criticado. Afinal, todos gostavam, não?
         Um dia, sob pressões e repreensões, apanhou  seus poucos pertences, e fugiu de casa e da vila onde só sabiam humilhá-la.
         De carona, chegou à cidade, onde buscou abrigo na casa de prostituição. Foi logo aceita e muito cotada. Era jovem, bonita e experiente. Não havia muitas com tantos atributos.
         Ganhava dinheiro, tinha prazer e não mais criticada, ou humilhada.
         Seria totalmente feliz se não fosse a saudade doída do irmão e do pai.
         Bagaço acabou fazendo amizade com um velho cliente da casa. E gostava dele quando a chamava de Olhos de Hortelã. Talvez tenha sido esse apelido, a chave que abriu seu coração.
 E quando ele propôs casamento, ela aceitou e foram morar na capital.
Olhos de Hortelã se transformou numa mulher educada e instruída.
Mais segura, mais consciente da vida e hábitos dos homens ditos civilizados, voltou à terra de sua infância.
Próspera, de carro e motorista, chegou à casa de onde tinha fugido.
Os vizinhos correram para a rua e gritaram: “Bagaço?! Bagaço voltou?...
Com ar altivo, voz firme, e, andar confiante, olhou para trás e gritou:-  Bagaço? Já era...
Pegou o pai e o irmão  pela mão e disse:

- Motorista rápido.  Já tenho tudo que vim buscar.  

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