BAGAÇO
De seu, só tinha a beleza. Cabelos loiros, olhos verdes,
corpo jovem, longo e bem feito.
A mãe morrera de parto, deixando o bebê
entregue a um marido inútil, cego e surdo.
Menina ainda, ela lutava pela
sobrevivência, se dividindo entre os trabalhos pesados no campo, e os afazeres
domésticos.
Mal se fez moça e, já seduzia toda a
rapaziada da pequena cidade onde morava.
Gostava de fazer amor com qualquer jovem suado e fogoso que encontrava.
Não importava o lugar, dia ou noite. Algumas vezes sob a sombra de uma árvore
frondosa, outras na sala do pai e do irmão que nada viam ou compreendiam
Achava gostoso correr até o açude tendo
um homem em seu encalço e ali, os dois transarem dentro da água.
Não havia maldade nela. Era uma
necessidade como respirar ou comer. Queria se distrair, sentir alegria, viver
feliz como um animalzinho selvagem.
Mas, naquele vilarejo não havia lugar
para ela. Todos a criticavam e os próprios rapazes que se divertiam em sua
companhia a chamavam de Bagaço.
Ficou famosa, chamou a atenção do dono
da fazenda que veio repreende-a e contar tudo ao velho pai. Ela foi castigada.
Agora, quando passava pelas ruas, ouvia
gritos: - Bagaço! Bagaço...
Ela não compreendia como algo tão
natural e agradável fosse criticado. Afinal, todos gostavam, não?
Um dia, sob pressões e repreensões, apanhou
seus poucos pertences, e fugiu de casa e
da vila onde só sabiam humilhá-la.
De carona, chegou à cidade, onde buscou
abrigo na casa de prostituição. Foi logo aceita e muito cotada. Era jovem,
bonita e experiente. Não havia muitas com tantos atributos.
Ganhava dinheiro, tinha prazer e não
mais criticada, ou humilhada.
Seria totalmente feliz se não fosse a
saudade doída do irmão e do pai.
Bagaço acabou fazendo amizade com um
velho cliente da casa. E gostava dele quando a chamava de Olhos de Hortelã. Talvez
tenha sido esse apelido, a chave que abriu seu coração.
E quando ele propôs casamento, ela aceitou e
foram morar na capital.
Olhos de Hortelã se transformou numa mulher educada e
instruída.
Mais segura, mais consciente da vida e hábitos dos homens
ditos civilizados, voltou à terra de sua infância.
Próspera, de carro e motorista, chegou à casa de onde tinha
fugido.
Os vizinhos correram para a rua e gritaram: “Bagaço?! Bagaço
voltou?...
Com ar altivo, voz firme, e, andar confiante, olhou para trás
e gritou:- Bagaço? Já era...
Pegou o pai e o irmão
pela mão e disse:
- Motorista rápido.
Já tenho tudo que vim buscar.
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