segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

TRAPALHADAS

            Conhecia os dois e era confidente de ambos. Mas não sabia dizer como acabaria a sua história.
            Cada um deles fingia, e desejava a própria salvação. Acima de tudo temiam perder o que o que lhes restava da relação. E não usavam  romper o tênue fio que ainda os unia.
            Noelia estava convencida de que o marido tinha uma amante, por quem estava apaixonado.
 Numa tarde de domingo,  ela se trancou no banheiro, e gritou para todos, que ia cortar os pulsos.
            Não creio que levasse a termo essa ameaça. Se desejasse realmente suicidar-se, não pediria socorro, não avisaria a filha, sabendo que a garota me chamaria.
            Mais uma vez corri para ajudá-la e ouvir suas queixas intermináveis.           
            - Artur está me traindo com a secretária. Parece um desconhecido. Todos os fins de semana ele desaparece e  eu fico sozinha,tomando conta das crianças.
            Meus domingos são longos e solitários. E quando ele chega tarde da noite, vira de costas e dorme.
 A solidão a dois é mais doída.
            Outro dia eu estava no salão quando a desavergonhada chegou, e, quando me viu deu meia volta e fugiu.
            Quando  cheguei em casa relatando esse fato, ele riu muito,  e disse: “ Viu como a moça tem medo de você? Sua agressividade  já virou lenda.”
            Dias depois, a megera da minha sogra recebeu, em sua casa, a vagabunda.
- Sogra é sempre sogra...
            Fazer sexo tornou-se um acontecimento raro, sem emoção, quase mecânico. Usada e frustrada fico péssima.
Muitas vezes sonho que estou enfiando uma garrafa dentro de mim. Em outras ocasiões, durante o sonho parece que estou sendo estuprada por um  desconhecido.
 Já irritada de tantas lamúrias, perguntei: “amiga por que você ainda transa com ele? Será masoquista?  Teimosa? Esperança de que tudo acabe bem?  Mulher, sai logo dessa relação.
            - É você tem razão. Não tem mais jeito.  Artur vai dormir no quarto de hospede. Vou fechar a porta e as pernas.
            Já era noite,quando saí da casa deles, cheia de  tristeza. Conheci o casal feliz, harmônico e ajustado. E agora acontecer isso!
Será que o homem estava apaixonado pela secretária; ou a insegurança da minha amigas é causada pelos primeiros fios de cabelos brancos, pelas incômodas rugas na testa e nos olhos?
 Ela sempre foi tão bonita, tão elegante!
Viajei, e durante anos, não tive notícias do casal.
            Tempos depois, encontrei-me com Artur. Ele me convidou para um cafezinho que durou horas.
            Estava nostálgico e infeliz. Parecia querer desabafar.
Falamos sobre a política, a vida social e econômica do país até termos coragem de lembrar os velhos e bons tempos que passávamos férias em Petrópoles. 
Sentimos saudade das tardes de domingo, quando, depois do almoço, disputávamos no baralho, qual o casal que jogava melhor.
            - Por que tudo isso acabou?  Você tem saudade daquela época? Perguntei.
            - Muita
            - Quando começou o fim do casamento de vocês? –perguntei, tentando compreender suas mágoas.
            - Noelia mudou demais. Ficou irritada, raivosa e desleixada. Estourou todos os cartões de crédito; e não sei em quê, já que nunca tinha parecido tão desleixada.
 Não era mais  aquela moça bonita e elegantes com quem me casei. Quando eu reclamava, ela dizia que era para eu não gastar com mulheres da rua.
Imagine você, que ela cismou com a minha secretária. Quanto mais gentil a moça era, mais enraivecida ela se tornava.
Já não fazia amor comigo, reclamando sempre que eu estava com o cheiro de outra mulher.
 Mamãe, vendo nosso sofrimento, convidou a moça para oferecer um emprego em outro escritório.  Fiz birra e não deixei a secretária aceitar.  Afinal de contas, não tinha porque satisfazer o capricho de uma mulher que não confiava em mim, e parecia não me querer mais.
            Depois exigiu que eu fosse dormir no quarto de hóspede. Nas primeiras  noites esperei que ela se arrependesse, e viesse dormir ao meu lado. Faríamos amor. E tudo voltaria ao normal.
Noite após noite, sonhei e esperei por ela.
            -Por que vocês não conversavam? Não falavam dos sentimentos, mágoas e erros e cada um?
            -Como eu podia dizer qualquer coisa? Tudo que falava era mal interpretado, distorcido. Parecia que todo aquele amor e compreensão que tínhamos um pelo outro, havia terminado.
            Nossa vida era um caos.
             
 A moça meiga que adorava meus carinhos,     já não existia. Em seu lugar estava uma mulher irredutível, pedindo a separação. O fato é que a perdi para sempre.
Cheia de remorso, perguntei: - Você jura que nunca teve nada com a secretária?
-Saí com ela algumas vezes, depois da separação. Mas, não havia nenhuma atração, nenhuma afinidade entre nós.
Trocamos telefones, saímos muitas noites, fizemos passeios inesquecíveis, descobrimos afinidades, e, acabamos em motéis.
Tudo foi se transformando, e acabamos nos apaixonando.
Deixei que a  Noelia continuasse acreditando que Artur a traiu.
Sinto-me culpada, por tê-la aconselhado a optar pela separação.

Não sei como Noelia reagirá quando souber que Artur e eu estamos juntos.

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