TRAPALHADAS
Conhecia os
dois e era confidente de ambos. Mas não sabia dizer como acabaria a sua
história.
Cada um
deles fingia, e desejava a própria salvação. Acima de tudo temiam perder o que o
que lhes restava da relação. E não usavam romper o tênue fio que ainda os unia.
Noelia
estava convencida de que o marido tinha uma amante, por quem estava apaixonado.
Numa tarde de domingo, ela se trancou no banheiro, e gritou para
todos, que ia cortar os pulsos.
Não creio
que levasse a termo essa ameaça. Se desejasse realmente suicidar-se, não
pediria socorro, não avisaria a filha, sabendo que a garota me chamaria.
Mais uma vez
corri para ajudá-la e ouvir suas queixas intermináveis.
- Artur está
me traindo com a secretária. Parece um desconhecido. Todos os fins de semana
ele desaparece e eu fico sozinha,tomando
conta das crianças.
Meus
domingos são longos e solitários. E quando ele chega tarde da noite, vira de
costas e dorme.
A solidão a dois é mais doída.
Outro dia eu
estava no salão quando a desavergonhada chegou, e, quando me viu deu meia volta
e fugiu.
Quando cheguei em casa relatando esse fato, ele riu
muito, e disse: “ Viu como a moça tem
medo de você? Sua agressividade já virou
lenda.”
Dias depois,
a megera da minha sogra recebeu, em sua casa, a vagabunda.
- Sogra é sempre sogra...
Fazer sexo
tornou-se um acontecimento raro, sem emoção, quase mecânico. Usada e frustrada
fico péssima.
Muitas vezes sonho que estou
enfiando uma garrafa dentro de mim. Em outras ocasiões, durante o sonho parece
que estou sendo estuprada por um desconhecido.
Já irritada de tantas lamúrias, perguntei: “amiga
por que você ainda transa com ele? Será masoquista? Teimosa? Esperança de que tudo acabe bem? Mulher, sai logo dessa relação.
- É você tem
razão. Não tem mais jeito. Artur vai
dormir no quarto de hospede. Vou fechar a porta e as pernas.
Já era noite,quando
saí da casa deles, cheia de tristeza.
Conheci o casal feliz, harmônico e ajustado. E agora acontecer isso!
Será que o homem estava apaixonado
pela secretária; ou a insegurança da minha amigas é causada pelos primeiros
fios de cabelos brancos, pelas incômodas rugas na testa e nos olhos?
Ela sempre foi tão bonita, tão elegante!
Viajei, e durante anos, não tive
notícias do casal.
Tempos
depois, encontrei-me com Artur. Ele me convidou para um cafezinho que durou
horas.
Estava
nostálgico e infeliz. Parecia querer desabafar.
Falamos sobre a política, a vida
social e econômica do país até termos coragem de lembrar os velhos e bons
tempos que passávamos férias em Petrópoles.
Sentimos saudade das tardes de
domingo, quando, depois do almoço, disputávamos no baralho, qual o casal que
jogava melhor.
- Por que
tudo isso acabou? Você tem saudade
daquela época? Perguntei.
- Muita
- Quando
começou o fim do casamento de vocês? –perguntei, tentando compreender suas
mágoas.
- Noelia
mudou demais. Ficou irritada, raivosa e desleixada. Estourou todos os cartões
de crédito; e não sei em quê, já que nunca tinha parecido tão desleixada.
Não era mais aquela moça bonita e elegantes com quem me
casei. Quando eu reclamava, ela dizia que era para eu não gastar com mulheres
da rua.
Imagine você, que ela cismou com a
minha secretária. Quanto mais gentil a moça era, mais enraivecida ela se
tornava.
Já não fazia amor comigo,
reclamando sempre que eu estava com o cheiro de outra mulher.
Mamãe, vendo nosso sofrimento, convidou a moça
para oferecer um emprego em outro escritório.
Fiz birra e não deixei a secretária aceitar. Afinal de contas, não tinha porque satisfazer
o capricho de uma mulher que não confiava em mim, e parecia não me querer mais.
Depois
exigiu que eu fosse dormir no quarto de hóspede. Nas primeiras noites esperei que ela se arrependesse, e
viesse dormir ao meu lado. Faríamos amor. E tudo voltaria ao normal.
Noite após noite, sonhei e esperei
por ela.
-Por que vocês
não conversavam? Não falavam dos sentimentos, mágoas e erros e cada um?
-Como eu
podia dizer qualquer coisa? Tudo que falava era mal interpretado, distorcido.
Parecia que todo aquele amor e compreensão que tínhamos um pelo outro, havia
terminado.
Nossa vida era um caos.
A moça meiga que adorava meus carinhos, já
não existia. Em seu lugar estava uma mulher irredutível, pedindo a separação. O
fato é que a perdi para sempre.
Cheia de remorso, perguntei: - Você
jura que nunca teve nada com a secretária?
-Saí com ela algumas vezes, depois
da separação. Mas, não havia nenhuma atração, nenhuma afinidade entre nós.
Trocamos telefones, saímos muitas
noites, fizemos passeios inesquecíveis, descobrimos afinidades, e, acabamos em
motéis.
Tudo foi se transformando, e acabamos
nos apaixonando.
Deixei que a Noelia continuasse acreditando que Artur a
traiu.
Sinto-me culpada, por tê-la
aconselhado a optar pela separação.
Não sei como Noelia reagirá quando
souber que Artur e eu estamos juntos.
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