ARTESÃO
Uma sexta feira igual a tantas
outras.
Um coquetel com o mesmo grupo de
sempre.
Os homens de um lado, conversando,
sabem-se lá o quê; as mulheres do outro, sem nada para acrescentar.
E eu, separada de todos, sozinha,
tentava passar o tempo.
Vindo não
sei de onde, um rapaz atraente me observava com aquele jeito petulante, que os
jovens assumem, quando estão caçando.
Aproximou-se sorrindo, mostrando
seus lábios sensuais e dentes perfeitos. Os olhos eram verdes como os de um gato
curioso e astuto.
- Alô! O que
faz uma bela mulher sozinha?
Sorri cautelosa. Precisava me
certificar que eu estava rindo para mim e não de mim.
Conversamos sobre amenidades tipo “a
lua está cheia e clareia o céu. Está ventando”. Sou Felipe. Eu me chamo Neila.
Ele estava alegre e eu disse logo a
minha idade.
- Jóia! –
respondeu – Não parece ter mais de trinta.
- Você me
deixa vaidosa.
- Quero
ficar com você. É misteriosa e linda! Você me quer?
- Você
também é muito bonito – respondi, ousada como jamais fora.
- Então me
de seu telefone.
- Prefiro
ficar com o seu – respondi.
Quando Marcelo, meu marido, viajou,
telefonei para Felipe e marcamos nosso primeiro encontro.
Enquanto me
preparava, pensei no ridículo da situação. Ele tinha apenas dezoito anos.
Mas tudo aconteceu de maneira rápida
e natural. No minúsculo apartamento dele, me senti à vontade, livre como jamais
fora.
Ficamos
deitados até três horas da manhã, o som ligado e uma garrafa de vinho vazia.
A partir desse encontro, a cada
viagem de Marcelo, nós ficávamos juntos. Trocamos confidências, falava sobre
minhas decepções e ele sobre planos para o futuro.
E quando deitados no tapete, suas
mãos me despiam, sua boca me beijava, depois ele me penetrava, eu me
transportava para o paraíso. E me perguntava: como ele pode saber todo que eu
gosto. Exatamente de tudo que eu preciso?
“ Te amo
tanto”. Estava sempre dizendo.
“Eu também”,
ele respondia.
E me permiti acreditar, embora
soubesse que poderia pagar um preço muito alto por esses momentos.
Agora via o mundo pelos seus olhos,
e tudo parecia acontecer à primeira vez, e sob certos aspectos, era mesmo.
Felipe
sempre fazia algo inusitado. Numa tarde, quando cheguei, ele trabalhava numa
mesa exótica, muito bonita.
Às vezes fazia colagens românticas e
me oferecia. Ele me surpreendia com entradas para concertos de rock à
meia-noite, ou insistia para irmos ver filmes antigos, que nunca vira.
Levava-me para longos passeios que me deixavam exausta, com os pés cheios de
bolhas.
Fazia tudo ao mesmo tempo, porque
era jovem, ou talvez soubesse que o nosso amor era apenas temporário.
Nenhum de nós falava sobre o futuro.
Por mais
contente que estivéssemos, eu sentia a tristeza escondida na alegria.
Dividíamos as despesas como faziam
seus amigos. Eu gostava. Não me sentia explorada.
Numa noite escura, sem lua nem
estrelas, tiramos a roupa e entramos no mar. E nessa maravilhosa noite de
inverno, fizemos planos para o verão. Senti-me segura. Pelos menos até que o
verão chegasse. Estávamos obcecados pelos nossos corpos. Ele desejava sexo e,
às vezes eu ficava exaurida, mas não me importava, não queria dormir, só
precisava dele.
Certa vez, levou-me a uma festa de
jovens e recomendou: “Não precisa se embonecar”. Todos estavam de calças jeans,
eram magros, cabeludos e fumavam maconha.
Vesti a roupa errada, fiquei enjoada
com o cheiro. Todos me olhavam como uma intrusa, pessoa de outra geração que
nada tinha a fazer no pedaço.
Senti-me constrangida, velha e feia.
No dia seguinte Felipe me presenteou
com uma calça jeans, tão apertada que, depois de vesti-la, não consegui me
sentar.
Ele pensava que a roupa era a
barreira entre nós.
Eu sabia que era algo muito mais
profundo: era toda a minha história.
No sábado seguinte, outra festa, outro
encontro de jovens. Ele insistiu em me levar. “Seu grupo não me quer”,
argumentei.
Ele respondeu: “não sei o que eles
pensam e não me importa. Não devia incomodar você. Insisti em não ir, e ele
saiu zangado.
Fui sozinha
para casa, depois de nossa primeira briga.
Durante duas semanas, Felipe
desapareceu. Telefonei, deixei recados, ouvi seus discos preferidos, bebi
vinho, vesti roupa sexy e esperei.
Numa noite fria, bêbada de álcool e
de saudade, fui esperá-lo à porta da sua casa.
Depois de meia-noite Felipe chegou.
Meu coração pulou dentro do peito, e gritei seu nome. Voltou-se para mim e, com
tranqüilidade, disse: ‘Olá, amor! Desculpe: eu estava ajudando um amigo a fazer
sua mudança. Sei que deveria ter ligado, mas esqueci o celular no apartamento.
- Você está
muito zangada, não é, amor?
- Não
acredito em você. Deve estar com uma jovem.
Suavemente,
ele respondeu: - Você sabe que sou assim. Esqueço as coisas normais e não dou
para arranjos domésticos.
Senti medo de prosseguir com a
discussão. Mas ele continuou com um sorriso meio e triste.
- Preciso
ser livre. Quero sair com outras mulheres. De vez em quando, a gente volta a se
encontrar. Gosto de você de verdade. Somos amigos, não somos?
Queria
socá-lo na boca até ver sangue.
- Amigos?!
Você sabe o que é ser amigo?
Ele
respondeu: - Serei um bom amigo. Vou fazer novas estantes para você.
Senti como
se todas as feridas, de todos os tempos, estivessem sangrando. Corri para meu
carro e gritei até o peito doer.
Jurei nunca
mais namorar um jovem.
“Ele é quase
um menino!”, pensei. Podia ser meu filho.
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