segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

    ARTESÃO

            Uma sexta feira igual a tantas outras.
            Um coquetel com o mesmo grupo de sempre.
            Os homens de um lado, conversando, sabem-se lá o quê; as mulheres do outro, sem nada para acrescentar.
            E eu, separada de todos, sozinha, tentava passar o tempo.
Vindo não sei de onde, um rapaz atraente me observava com aquele jeito petulante, que os jovens assumem, quando estão caçando.
            Aproximou-se sorrindo, mostrando seus lábios sensuais e dentes perfeitos. Os olhos eram verdes como os de um gato curioso e astuto.
- Alô! O que faz uma bela mulher sozinha?
            Sorri cautelosa. Precisava me certificar que eu estava rindo para mim e não de mim.
            Conversamos sobre amenidades tipo “a lua está cheia e clareia o céu. Está ventando”. Sou Felipe. Eu me chamo Neila.
            Ele estava alegre e eu disse logo a minha idade.
- Jóia! – respondeu – Não parece ter mais de trinta.
- Você me deixa vaidosa.
- Quero ficar com você. É misteriosa e linda! Você me quer?
- Você também é muito bonito – respondi, ousada como jamais fora.
- Então me de seu telefone.
- Prefiro ficar com o seu – respondi.
            Quando Marcelo, meu marido, viajou, telefonei para Felipe e marcamos nosso primeiro encontro.
Enquanto me preparava, pensei no ridículo da situação. Ele tinha apenas dezoito anos.
            Mas tudo aconteceu de maneira rápida e natural. No minúsculo apartamento dele, me senti à vontade, livre como jamais fora.
Ficamos deitados até três horas da manhã, o som ligado e uma garrafa de vinho vazia.
            A partir desse encontro, a cada viagem de Marcelo, nós ficávamos juntos. Trocamos confidências, falava sobre minhas decepções e ele sobre planos para o futuro.
            E quando deitados no tapete, suas mãos me despiam, sua boca me beijava, depois ele me penetrava, eu me transportava para o paraíso. E me perguntava: como ele pode saber todo que eu gosto. Exatamente de tudo que eu preciso?
“ Te amo tanto”. Estava sempre dizendo.
“Eu também”, ele respondia.
            E me permiti acreditar, embora soubesse que poderia pagar um preço muito alto por esses momentos.
            Agora via o mundo pelos seus olhos, e tudo parecia acontecer à primeira vez, e sob certos aspectos, era mesmo.
Felipe sempre fazia algo inusitado. Numa tarde, quando cheguei, ele trabalhava numa mesa exótica, muito bonita.
            Às vezes fazia colagens românticas e me oferecia. Ele me surpreendia com entradas para concertos de rock à meia-noite, ou insistia para irmos ver filmes antigos, que nunca vira. Levava-me para longos passeios que me deixavam exausta, com os pés cheios de bolhas.
            Fazia tudo ao mesmo tempo, porque era jovem, ou talvez soubesse que o nosso amor era apenas temporário.         
            Nenhum de nós falava sobre o futuro.
Por mais contente que estivéssemos, eu sentia a tristeza escondida na alegria.
            Dividíamos as despesas como faziam seus amigos. Eu gostava. Não me sentia explorada.
            Numa noite escura, sem lua nem estrelas, tiramos a roupa e entramos no mar. E nessa maravilhosa noite de inverno, fizemos planos para o verão. Senti-me segura. Pelos menos até que o verão chegasse. Estávamos obcecados pelos nossos corpos. Ele desejava sexo e, às vezes eu ficava exaurida, mas não me importava, não queria dormir, só precisava dele.
            Certa vez, levou-me a uma festa de jovens e recomendou: “Não precisa se embonecar”. Todos estavam de calças jeans, eram magros, cabeludos e fumavam maconha.
            Vesti a roupa errada, fiquei enjoada com o cheiro. Todos me olhavam como uma intrusa, pessoa de outra geração que nada tinha a fazer no pedaço.
            Senti-me constrangida, velha e feia.
            No dia seguinte Felipe me presenteou com uma calça jeans, tão apertada que, depois de vesti-la, não consegui me sentar.
            Ele pensava que a roupa era a barreira entre nós.
            Eu sabia que era algo muito mais profundo: era toda a minha história.
            No sábado seguinte, outra festa, outro encontro de jovens. Ele insistiu em me levar. “Seu grupo não me quer”, argumentei.
            Ele respondeu: “não sei o que eles pensam e não me importa. Não devia incomodar você. Insisti em não ir, e ele saiu zangado.
Fui sozinha para casa, depois de nossa primeira briga.
            Durante duas semanas, Felipe desapareceu. Telefonei, deixei recados, ouvi seus discos preferidos, bebi vinho, vesti roupa sexy e esperei.
            Numa noite fria, bêbada de álcool e de saudade, fui esperá-lo à porta da sua casa.
            Depois de meia-noite Felipe chegou. Meu coração pulou dentro do peito, e gritei seu nome. Voltou-se para mim e, com tranqüilidade, disse: ‘Olá, amor! Desculpe: eu estava ajudando um amigo a fazer sua mudança. Sei que deveria ter ligado, mas esqueci o celular no apartamento.
- Você está muito zangada, não é, amor?
- Não acredito em você. Deve estar com uma jovem.
Suavemente, ele respondeu: - Você sabe que sou assim. Esqueço as coisas normais e não dou para arranjos domésticos.
            Senti medo de prosseguir com a discussão. Mas ele continuou com um sorriso meio e triste.
- Preciso ser livre. Quero sair com outras mulheres. De vez em quando, a gente volta a se encontrar. Gosto de você de verdade. Somos amigos, não somos?
Queria socá-lo na boca até ver sangue.
- Amigos?! Você sabe o que é ser amigo?
Ele respondeu: - Serei um bom amigo. Vou fazer novas estantes para você.
Senti como se todas as feridas, de todos os tempos, estivessem sangrando. Corri para meu carro e gritei até o peito doer.
Jurei nunca mais namorar um jovem.

“Ele é quase um menino!”, pensei. Podia ser meu filho.

Nenhum comentário:

Postar um comentário