Um amigo espirituoso o chamou de “Passageiro da Agonia.”
Jamais um apelido foi tão apropriado.
Nasceu de um susto. No sétimo mês de gestação, sua mãe foi assaltada, desmaiou e, sem seguida, ele nasceu.
Foi levado para uma incubadora, onde se contaminou. Era resistente a antibiótico, e, esteve por vários dias entre a vida e a morte.
Soturno e mal-humorado, viveu na infância, retraído e sempre doente.
Na escola, teve dificuldade no aprendizado e na socialização.
Apesar de pertencer a uma família de pessoas inteligentes, jamais conseguiu terminar o primeiro grau.
Quando alguém perguntava: - Como vai, Raimundo? Respondia sempre: - Sou um “fudido”, um analfabeto. Não tenho grana e sou diferente de todos os meus irmãos.
Feio e insignificante, sentia-se o menor dos homens.
No trabalho, reclamava de tudo e de todos. O país estava ruim, os políticos eram desonestos, as pessoas más e a vida insuportável.
Os colegas já nem prestavam atenção às suas lamúrias.
Um dia, apaixonou-se. A jovem alegre e saudável, retribuiu com simpatia. Durante algum tempo, ele se mostrou feliz. Rosto sem vincos, riso nos lábios, andar lépido, estava irreconhecível.
Mas, logo, seu habitual pessimismo insinuou-se entre os namorados. Aquele romance, que trouxera refrigério à sua vida, passou a ser fonte de tormento e ansiedade. Vivia a pensar: “não pode dá certo. Ela é muito bonita e inteligente. Logo surgirá outro mais interessante do que eu”. Esses pensamentos transpareciam no seu rosto. O medo tornou a voz áspera e os encontros tensos. E essa melancolia acabou afastando a moça. Cheia de esperança no futuro, percebeu que, com esse namorado, só teria dificuldades.
Raimundo dizia, com certo orgulho na voz: - Bem que falei. Não ia dar certo. Não era possível mesmo...
Sofreu, mas ninguém podia dizer que estivesse desiludido. Nunca tivera nenhuma ilusão.
Cultivando aquela dor, desleixou-se no trabalho e administrou mal seu dinheiro. As contas chegavam e eram esquecidas nas gavetas. Roupas desmazeladas, casa por limpar, sapatos rotos. Era assim a imagem do nosso herói.
Sempre que encontrava um colega, contava longas e trágicas histórias a respeito de sua vida e pedia dinheiro para tapar buracos, e auxilio para consertar erros.
A coluna tornou-se fonte de sofrimento. A azia o incomodava e a cabeça não parava de doer.
Já entrara nos quarenta, quando novamente seu coração se emocionou.
Chegando a casa, encontrou um filhote de gato, perdido, solitário e faminto.
Identificou-se de tal modo com aquele animal, que seu coração disparou quando o colocou no colo.
Passou a preocupar-se com sua alimentação, deu-lhe remédios e o limpou como pode. Fez dele um companheiro.
Quando abria a porta de casa e ouvia seu miado, era como escutar a voz de um amigo.
Certo dia, ao chegar da rua, ouviu de desesperado lamento do bichano. Procurou por todos os cantos e não conseguiu encontrá-lo. Aflito, descobriu, por fim, que ele estava preso no forro. Com muita dificuldade, subiu pela passagem que dava à laje.
A madeira sem trato apodreceu, e não resistiu ao seu peso. A queda foi fatal.
O Passageiro da Agonia viveu sua última tragédia sem, contudo, conseguir libertar o companheiro.
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