sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A VIDA ÍNTIMA DE UM HOMEM PÚBLICO

Filho de imigrantes, nasci no interior de S. Paulo, onde vi minha mãe ser agredida física e verbalmente por meu pai, desde sempre.
            Um dia papai nos abandonou. Se por um lado senti alívio, por outro tive motivo para desespero. Já não havia comida na mesa, abandonamos a escola, e diversão, nem pensar.
            Mamãe foi lavar roupa de uma família que morava perto de nossa casa. E perto de nós também existia uma fabrica de fubá, de onde tirávamos o básico de nossas refeições.
            Foi nessa época difícil que jurei vencer na vida, sair daquela miséria.
            Consegui voltar à escola e terminar os estudos. Sou inteligente e não me custou grande esforço. Mas, sonhava ir mais longe.
            Brasília, a nova capital, foi inaugurada. Lá eu teria chance de ser vitorioso.  Coloquei duas mudas de roupa numa sacola, e vim em busca do meu destino. 
            Mamãe apostou em mim. Sonhava que um dia eu seria doutor. E sempre dizia: “Este meu filho será um vencedor”. E sua intuição estava certa. Só eu venci. Os outros são uns fracassados, bêbados, eternos desempregados, que vivem para me extorquir dinheiro e me causar problemas.
            Fiz vestibular, e no dia em que saiu os resultados eu não tinha dinheiro para tomar um ônibus para ver se meu nome estava na lista dos  aprovados. Mas, com a minha vontade férrea, vim caminhando de Taguatinga até o Plano Piloto. E valeu à pena. Ninguém pode imaginar a felicidade que experimentei ao me deparar com meu nome na lista dos aprovados.
            Começou minha subida.  Ainda na Faculdade, me apaixonei pelas tramas políticas. Logo me filiei ao PCB. Lógico, era o partido dos que não têm nada e querem tudo. Logo, o poder e o dinheiro, trocariam de mãos e eu chegaria ao topo. Trago nas veias, não sei de onde,  talento maquiavélico, imprescindível na política, sobretudo para os que não contam com tradição e riqueza. Esses, podem se dá ao luxo de ética, respeito à palavra dada, amor pela verdade.  Mas, aqueles como eu, a bandeira é “o fim justifica os meios.”
            Fiz discursos inflamados  e prometi qualquer coisa à cambada de gentalha que me ouvia. Ficaria com eles e deles tiraria votos para chegar a conviver com os burgueses, a quem tanto invejava. Um dia seria um deles, prometia a mim mesmo. Já cheguei até aqui, graças a minha força, chegaria até lá.
            Na faculdade só estudava o estritamente necessário para passar. Quando possível, colava. Que me importava se mais tarde não soubesse muita coisa de medicina! Afinal, precisava de um curso superior e depois só atenderia a pobres cidades satélites, para angariar votos. Partos de indigentes até parteira faz.
            O país estava um caos. Ótima ocasião para um João ninguém, como eu, aparecer. Todos insatisfeitos e eu prometendo tudo. É verdade que eu precisava ter uma disciplina rigorosa dentro do partido. Precisava do apoio deles. E ainda contribuía para o PCB. Era meu investimento.
            Os militares tomaram o poder. Fomos perseguidos, surrados e até alguns mortos.
            Aprendi  algumas técnicas de tortura, modos de machucar, maneiras de humilhar. Quando tivesse poder, devolveria tudo em dobro. Essa certeza me anestesiava e me preparava para o gozo futuro. Agora havia um preço a pagar, e eu pagaria.
            Um dia os militares deixaram o poder. Mas organizaram de tal modo com a tal anistia bilateral que não tive o prazer da vingança. Eles ficaram intocáveis e eu cheio de ódio e frustração.
            Voltei para Brasília e ainda militando em sindicato, recomecei a luta para ascender.
            No palco da vida, num palanque, conheci  uma mulher bonita e jovem que me seduziu. Descobri que era filha de um militar da repressão e pertencia a elite. Meu amor cresceu. Tinha tudo para satisfazer todos os meus anseios. Com ela aprendi como pensam e vivem os burgueses. Ela me ensinou a agir corretamente em sociedade. E ainda poderia  descontar nela, as torturas que a corja, da qual ela vinha, me fez padecer.
            Coitada, era tão ingênua, tão confiante se sem malícia! Bem feito para aqueles que criam filhos protegidos e fracos. Burguesinha fresca e mimada. Dó, inveja, amor e ódio foram se misturando nos meus sentimentos. E ela fascinada por mim e pelo que eu representava. Novos valores, um mundo diferente, inusitado.
            Ela engravidou e fomos morar juntos. Os pais dela ficaram inconformados.
 Mas, agora ela  nas minhas mãos.
Fui com ela, pela primeira vez a um motel. Ela escolheu o meu primeiro paletó, e juntos, freqüentamos lugares elegantes onde aprendi a usar talhes e taças adequadas ao momento.
Às vezes ela me irritava e comecei a agredi-la física e verbalmente. Ela chorava e corria para os braços da mãe.
Eu implorava e chorava também, jurava  nunca mais surrá-la. A imbecil acreditava.  Durante algum tempo nós viajávamos para o exterior ou eu dava um carro novo, uma jóia, e gozava.
Agora eu era uma autoridade. Tinha dinheiro e podia tudo.  Estava num cargo onde ganhava bem, e tirava dos cofres públicos mais, ainda.
Enquanto eu crescia, ela ia ficando conhecida nos hospitais de pronto socorro. Um dia ela chamou a polícia. Quando os policiais  chegaram eu estava com um facão apontado para o nosso filho. Ela se acovardou e negou que tivesse sido agredida. Justificou os hematomas e o braço quebrado, afirmando que sofrera um acidente de carro.
Ela está desmoralizada e ninguém mais atenderá o seu chamado.
Outro dia, me diverti,  fazendo com ela, as torturas que seu pai fez com meus companheiros.
Em um plantão no hospital, atendi uma mulher espancada. Chorei de pena. Todos os meus colegas acreditaram na minha sensibilidade. Nunca vão acreditar que eu seja capaz de bater na mulher que amo.
Certa madrugada, saindo de um bar, perdi o controle, e estrangulei sua carótida. Ela passou dias sem falar ou comer.  Pediu socorro a bruxa da mãe, que veio do Rio para buscá-la.
Imagina se vou deixar! Ela me pertence e posso fazer o  que quiser. Está viciada em mim e nas minhas porradas.
Soube hoje que as duas viajarão essa semana. A velha bruxa tem mantido a dondoquinha presa e incomunicável. Não consigo sequer vê-la Pensam em levar nosso filho. Não posso deixar. Ele é a minha garantia. Se estiver comigo, ela voltará.
Fui conversar com minha mulher. Ela não pôde abrir a porta porque a megera levou as chaves. Mas, de fora argumentei ter direito a uma despedida do meu filhinho.
 Hoje à noite vou provocar um acidente. Vou me suicidar e levar comigo o garoto.
Estou no carro com meu filho ao lado. Liguei para a mãe dele e disse que vou me suicidar e levar meu garoto comigo.
Meu carro está tão acelerado que ela pode ouvir, pelo telefone, o cantar dos pneus.
 Minha mulher prometeu qualquer coisa, desde que lhe devolva o garoto. Consegui. Ela voltará pra mim.
Acelero mais...
Polícia e bombeiros conseguiram resgatar, do terrível acidente, uma criança de sete anos, ainda viva.


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