DOMINGO
FATÍDICO
Naquele domingo acordei tarde, o sol
batendo no meu rosto e o suor escorrendo pelo corpo. Olhei o relógio e vi que
eram quase dez horas. Precisava correr senão perderia a carona do Josué.
Desci as escadas aos pulos. Ouvi mamãe me chamar. “ Marluce
corra aqui”.
Gritei para a empregada: “Lucimar mamãe está lhe chamando”.
Continuei o meu caminho, apressada.
E dançando, bebendo e comendo passei todo o domingo.
Quando voltei à tarde encontrei a casa cheia e o corpo de
minha mãe sendo velado na sala.
Soube então, que ela
me pediu socorro e eu fugi. Foi a empregada que a socorreu. Foi nos braços da
empregada que ela morreu, enquanto sua única filha farreava.
Durante alguns minutos
fiquei ao lado do seu corpo inerte, sem derramar uma lágrima sequer,
como se tivesse sido anestesiada.
Meus irmãos tinham os olhos vermelhos e minhas irmãs
choravam.
Tudo aconteceu tão rápido, tão inesperado.
Amigos e vizinhos foram chegando, nos abraçavam e depois, iam
ver a mulher inerte, entregue a morte.
Eunice, sua mais querida amiga, chorava e falava: “Como uma pessoa tão jovem, inteligente, de idéias
avançadas, grande defensora dos oprimidos, pode morrer assim? Ela se foi para
sempre”. E soluçava.
Quando fui, pouco à pouco, saindo daquele estado de torpor,
percebi o quanto eu fui egoísta. Eu só pensava em mim e nos meus interesses.
Ela precisou de mim e
eu mandei a empregada em seu socorro.
Se algum amor filial existia em mim era pelo meu pai. E ele
estava ali na minha frente vivo. Era com
ele que eu viajava nos fins de semana, era a ele que esperava toda tarde, no portão de casa, para receber
balinhas, chocolates ou chicletes.
Mamãe me parecia distante, sempre recebendo amigos, usando
jóias, vestindo roupas elegantes, cintas e sutians tão apertados, que precisava
da empregada para vestir-se.
À noite, sentada numa
cadeira de balanço, ao ar livre, comentava sobre a última reunião, criticava
algumas amigas, elogiava outras e meu pai,
comigo no colo, ria de tudo.
Minhas lembranças foram interrompidas pela empregada que
perguntou ao meu pai se devia dar almoço aos mendigos que viam todos os dias.
Saiu da sala para a
cozinha, muito zangado, gritava : “Seus
malandros, vagabundos, essa sopa acabou com a morte da Genoveva. Se voltarem
aqui, chamarei a polícia para prende vocês.”
Voltou-se para tia Luiza de dedo em riste, disse: “E você
também arranje para onde ir. Com
a morte de sua irmã, nosso parentesco acabou.”
Aí então, lagrimas correram pelo meu rosto e soluços
incontroláveis saíram da minha boca.
Chorava pela morte da minha mãe e pela perda do meu
ídolo. Chorei também por não ter
percebido que ela era o anjo bom da família e eu, na minha cegueira e egoísmo,
nem sequer atendi a seu último chamado.
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