segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

DOMINGO FATÍDICO
            Naquele domingo acordei tarde, o sol batendo no meu rosto e o suor escorrendo pelo corpo. Olhei o relógio e vi que eram quase dez horas. Precisava correr senão perderia a carona do Josué.
Desci as escadas aos pulos. Ouvi mamãe me chamar. “ Marluce corra aqui”.
Gritei para a empregada: “Lucimar  mamãe está lhe chamando”.
Continuei o meu caminho, apressada.
E dançando, bebendo e comendo passei todo o domingo.
Quando voltei à tarde encontrei a casa cheia e o corpo de minha mãe sendo velado na sala.
 Soube então, que ela me pediu socorro e eu fugi. Foi a empregada que a socorreu. Foi nos braços da empregada que ela morreu, enquanto sua única filha farreava.
Durante alguns minutos  fiquei ao lado do seu corpo inerte, sem derramar uma lágrima sequer, como se tivesse sido anestesiada.
Meus irmãos tinham os olhos vermelhos e minhas irmãs choravam.
Tudo aconteceu tão rápido, tão inesperado.
Amigos e vizinhos foram chegando, nos abraçavam e depois, iam ver a mulher inerte, entregue a morte.
Eunice, sua mais querida amiga, chorava e falava: “Como  uma pessoa tão jovem, inteligente, de idéias avançadas, grande defensora dos oprimidos, pode morrer assim? Ela se foi para sempre”. E soluçava.
Quando fui, pouco à pouco, saindo daquele estado de torpor, percebi o quanto eu fui egoísta. Eu só pensava em mim e nos meus interesses.
 Ela precisou de mim e eu mandei a empregada em seu socorro. 
Se algum amor filial existia em mim era pelo meu pai. E ele estava ali  na minha frente vivo. Era com ele que eu viajava nos fins de semana, era a ele que esperava toda  tarde, no portão de casa, para receber balinhas, chocolates ou chicletes.
Mamãe me parecia distante, sempre recebendo amigos, usando jóias, vestindo roupas elegantes, cintas e sutians tão apertados, que precisava da empregada para vestir-se.
À  noite, sentada numa cadeira de balanço, ao ar livre, comentava sobre a última reunião, criticava algumas amigas, elogiava outras e meu pai,  comigo no colo, ria de tudo.
Minhas lembranças foram interrompidas pela empregada que perguntou ao meu pai se devia dar almoço aos mendigos que viam todos os dias.
 Saiu da sala para a cozinha, muito zangado, gritava :  “Seus malandros, vagabundos, essa sopa acabou com a morte da Genoveva. Se voltarem aqui, chamarei a polícia para prende vocês.”
Voltou-se para tia Luiza de dedo em riste, disse:  “E você  também  arranje para onde ir. Com a morte de sua irmã, nosso parentesco acabou.”
Aí então, lagrimas correram pelo meu rosto e soluços incontroláveis saíram da minha boca.

Chorava pela morte da minha mãe e pela perda do meu ídolo.  Chorei também por não ter percebido que ela era o anjo bom da família e eu, na minha cegueira e egoísmo, nem sequer atendi a seu último chamado.

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