segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

SAGRADO SEGREDO
         Catarina morreu e Umberto não sabia o que fazer de seus filhos. Ganhava pouco e estava totalmente despreparado para tomar conta de sete crianças. Assim, resolveu separá-las. As mais novas foram entregues aos tios, enquanto as mais velhas ficaram internadas em colégios do governo.
            Mudou de cidade, lutou e trabalhou muito.  Anos depois, sentiu-se capacitado para reunir os filhos numa casinha simples, mas confortável.
            Marcia, a caçula, estava então com doze anos, e foi a última a se reunir a família. Gostou de todos, mas, ficou encantada por Maurício. Ele era o mais bonito, o mais alegre e estava sempre brincando com a ela. A afinidade entre os dois foi instantânea e transformou-se um afeto cheio de cuidados e carinhos. Ela cuidava de suas roupas e tinha sempre pronto um refresco, um biscoito, quando ele chegava a casa. Ele, por sua vez, trazia sempre um chocolate, sorvete, ou qualquer objeto que pudesse agradar a uma adolescente.
Juntos, iam ver o filme mais cotado, a peça de teatro mais falada,  ou participavam de uma festinha na casa de algum amigo. A companhia de um, bastava para o outro. O mundo estava completo.
Naquela noite chuvosa, todos foram para a festa de aniversário da tia Aurora
  Ela,  no entanto, preferiu fazer companhia ao irmão predileto, que estava resfriado e febril.
Os trovões estouravam com fortes ruídos e os relâmpagos iluminavam a casa toda.
Maurício acordou assustado e chamou a irmãzinha. Ela, no seu quarto, tentava controlar o medo. 
Quando ouviu o chamado do rapaz, correu para seus braços protetores. A menina sentiu o corpo dele suado e quente. Os dois foram tomados por estranha sensação. Um arrepio subindo pelas costas, um desejo desconhecido, confusão misturada com vergonha.
            Maurício acendeu o abajur da mesa de cabeceira. Sua mão tremia diante da revelação.  Não amava apenas a irmãzinha. Estava atraído pela mulher em que ela se transformava.
            A partir dessa noite, todas as vezes que o rapaz chegava a casa, ia até a cama da irmã e afagava suas costas, subindo e descendo as mãos, numa carícia aparentemente fraterna. Ela adorava aquele toque e, quieta, fingia dormir.  Nas tardes de sábado e domingo, enquanto ele descansava, sorrateiramente, ela deitava-se ao seu lado. Ele fingia está dormindo e posicionava-se de modo a sentir seu corpo inteiro. Algumas vezes, a garota sentia parte dele, volumosa e rija, em suas coxas.
            Quando alguma colega dela  tentava se aproximar do irmã,   ficava envaidecida e cheia de poder. Ele, no entanto, zangava-se com qualquer amigo que se engraçasse pela irmã.  Falava mal de cada um e encontrava defeitos em todos. Um dia, meio acanhado, confessou que estava com ciúme.
            O tempo passou, chegou o dia em que Mauricio, já formado, teve que mudar de casa e de cidade.
 Misturado a alegria de ter conseguido um bom emprego, seu coração doía de saudade da família e, principalmente, da caçula.
            Na véspera da viagem, enquanto todos dormiam, ele padecia de uma insônia exasperante. Levantou-se, saiu do quarto em busca do  quê  fazer naquela interminável.
            Conversar com a irmã caçula era prazeroso.
 Logo a escuridão da noite daria lugar ao clarão do dia.   Foi ao quarto da irmã conversar. Ela dormia com a roupa com a saia levantada, deixando as coxas à mostra. Parecia tão abandonada em seu sono! Era comovente. Como de hábito, pegou  em seus cabelos, deslizou as mãos em suas costas, provocando prazer na garota já desperta, que agora o  olhava carinhosamente. Mauricio  beijou sua boca. Ofegante, ela  correspondeu oferecendo-se ao desejo dele. Rolaram, abraçados no estreito colchão. Junto com a dor da separação, veio a excitação incontrolável.  A razão deu lugar ao prazer imensurável. E ela, finalmente era mulher. Sua mulher. Riam, enquanto enxugavam as lágrimas de prazer.
            Amanheceu e ele partiu.
Um dia conheceu uma mulher e casou-se.
E ela viveu uma vida cheia de romances e paixões.
Muitas vezes seus caminhos se cruzam e ele sempre amigos, carinhosos e compreensivos.

Jamais falaram sobre aquela noite de amor.

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