Eu gostava dele. Juro que cheguei a
amá-lo. Só não gostava quando ele se tornava inconveniente. Fazia carinhos em
locais não indicados. Eu sentia irritação. Às vezes, ficava até furiosa.
Logo na viagem de núpcias, Miguel
tornou-se insuportável. Eu detestei tudo nele. Seus lábios melados e quentes
sobre a minha boca, suas mãos sôfregas passeando pelo meu corpo e aquela parte
dele, que entrava dentro de mim, e, me
machucava toda.
Nunca poderia imaginar que o casamento fosse tão humilhante.
Nunca poderia imaginar que o casamento fosse tão humilhante.
Perdi a privacidade. Dividia tudo
com aquele estranho.
Para
completar meu desespero, agora vivia enjoada. A barriga crescia, os seios
doíam.
Nasceu o primeiro filho. Só me lembro de muita dor e da voz do médico
mandando eu fazer muita força. Onde poderia encontrar mais força?
Mais um ano de submissão aos desejos
de Miguel. Mais um filho. Assim foi minha vida. Coloquei no mundo quatro
crianças feias e choronas. Jamais
consegui amá-las. Elas eram a lembrança viva, e constante, de minha
infelicidade
Um dia Miguel deixou-me em paz. Já
não me usava. Já não colocava dentro de mim aquela gosma nojenta que se
transformava em meninos que traziam dor e trabalho.
Entretanto, paguei um preço alto por
aquele alívio. Agora Miguel vivia aos gritos. Grosseiro e avaro, e me tratava,
com imenso e total desprezo.
Ele se tornou cuidadoso com sua
aparência. Tomava mais banhos, perfumava-se e estava sempre trocando roupas
lavadas e engomadas por mim. Todo elegante ia ao encontro daquela vagabunda.
Ela ainda tinha o desplante de telefonar
para minha casa. Miguel falava todo meloso e dizia palavras de carinho jamais
usadas comigo.
Quando voltava dos encontros, eu
tinha um enorme trabalho tirando as manchas das camisas e lavando as cuecas que
fediam.
Num sábado fui ao quintal pegar uma galinha para o almoço. Encontrei o
galo, trepado nela. Peguei aquele miserável e capei. Comemos galo e não
galinha.
O quintal está cheio de animais
trepando uns sobre os outros. Sinto-me nervosa, mas, olho fascinada.
Outro dia castrei o porco. Miguel
veio me perguntar por que matei aquele bicho que estava engordando para o
Natal.
Fiquei calada e ele bem que gostou
de comer porco durante três dias.
Aquele cachorro fedorento vivia a
esfregar aquela tripa vermelha, que saía dele, nas minhas pernas. Um dia
escorreu dela uma gosma nojenta parecida com aquela que o Miguel jogava dentro
de mim. Fiquei furiosa. Corri até a cozinha, peguei o facão amolado e cortei a
tripa do cão. Ele ficou ali, esvaindo-se
em sangue. Sujou toda a casa.
Quando meus filhos
chegaram, pareciam loucos gritando. Continuei na minha cadeira de balanço
cantarolando aquela modinha de que tanto gosto.
Levaram-me ao médico. Ele me fez muitas perguntas. Respondi a
algumas e calei-me quando quis.
Agora vivem me entupindo de remédios. Passo a maior parte do tempo dormindo. Estou satisfeita porque já não
trabalho tanto.
O safado do Miguel arranjou dinheiro para pagar uma
empregada, mas, reclama o tempo todo.
Meus dois filhos estão crescendo e já começam a procurar
mulheres. São iguais ao pai.
As meninas não estão interessadas em homem. Parecem mais
comigo.
Suspenderam os medicamentos e voltei aos trabalhos
domésticos.
Miguel está
mais gentil comigo. Outro dia, até fez um carinho no meu cabelo. Disso eu
gosto.
Pediu para voltar a dormir no meu quarto. Impus a condição de
manter-se afastado da minha cama. Concordou, e não cumpriu. Uma noite acordei com ele nu, deitado ao meu
lado. Já estava até de pau duro.
Levantei depressa, corri até a cozinha e peguei o facão. Ele
lutou comigo e conseguiu subjugar-me. Mordeu meu pescoço, mamou meus peitos e
lambeu meus ouvidos. Deixou meu corpo marcado de beliscões. Depois jogou a mesma gosma nojenta dentro de mim
Naquela noite chovia forte. Saí de casa nua, como nasci.
Andei pelas ruas desertas, até me sentir suficientemente
limpa para chegar ao céu.
Nunca mais serei tocada por ninguém.
Ela subiu na mais alta torre da cidade, e saltou no imenso
vazio...
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