quarta-feira, 4 de março de 2015

UM SALTO NA ESCURIDÃO

                                             

            Eu gostava dele. Juro que cheguei a amá-lo. Só não gostava quando ele se tornava inconveniente. Fazia carinhos em locais não indicados. Eu sentia irritação. Às vezes, ficava até furiosa.
            Logo na viagem de núpcias, Miguel tornou-se insuportável. Eu detestei tudo nele. Seus lábios melados e quentes sobre a minha boca, suas mãos sôfregas passeando pelo meu corpo e aquela parte dele, que entrava dentro de mim,  e, me machucava toda.
            Nunca poderia imaginar que o casamento fosse tão humilhante.
            Perdi a privacidade. Dividia tudo com aquele estranho.
Para completar meu desespero, agora vivia enjoada. A barriga crescia, os seios doíam.
            Nasceu o primeiro filho. Só  me lembro de muita dor e da voz do médico mandando eu fazer muita força. Onde poderia encontrar mais força?
            Mais um ano de submissão aos desejos de Miguel. Mais um filho. Assim foi minha vida. Coloquei no mundo quatro crianças feias e choronas.  Jamais consegui amá-las. Elas eram a lembrança viva, e constante, de minha infelicidade
            Um dia Miguel deixou-me em paz. Já não me usava. Já não colocava dentro de mim aquela gosma nojenta que se transformava em meninos que traziam dor e trabalho.
            Entretanto, paguei um preço alto por aquele alívio. Agora Miguel vivia aos gritos. Grosseiro e avaro, e me tratava, com imenso e total desprezo.
            Ele se tornou cuidadoso com sua aparência. Tomava mais banhos, perfumava-se e estava sempre trocando roupas lavadas e engomadas por mim. Todo elegante ia ao encontro daquela vagabunda. Ela ainda tinha o desplante  de telefonar para minha casa. Miguel falava todo meloso e dizia palavras de carinho jamais usadas comigo.
            Quando voltava dos encontros, eu tinha um enorme trabalho tirando as manchas das camisas e lavando as cuecas que fediam.
            Num sábado fui ao quintal  pegar uma galinha para o almoço. Encontrei o galo, trepado nela. Peguei aquele miserável e capei. Comemos galo e não galinha.
            O quintal está cheio de animais trepando uns sobre os outros. Sinto-me nervosa, mas,  olho fascinada.
            Outro dia castrei o porco. Miguel veio me perguntar por que matei aquele bicho que estava engordando para o Natal.
            Fiquei calada e ele bem que gostou de comer porco durante três dias.
            Aquele cachorro fedorento vivia a esfregar aquela tripa vermelha, que saía dele, nas minhas pernas. Um dia escorreu dela uma gosma nojenta parecida com aquela que o Miguel jogava dentro de mim. Fiquei furiosa. Corri até a cozinha, peguei o facão amolado e cortei a tripa do cão. Ele ficou ali, esvaindo-se  em sangue. Sujou toda a casa.
 Quando meus filhos chegaram, pareciam loucos gritando. Continuei na minha cadeira de balanço cantarolando aquela modinha de que tanto gosto.
Levaram-me ao médico. Ele me fez muitas perguntas. Respondi a algumas e calei-me quando quis.
Agora vivem me entupindo de remédios.  Passo a maior parte do tempo  dormindo. Estou satisfeita porque já não trabalho tanto.
O safado do Miguel arranjou dinheiro para pagar uma empregada, mas,  reclama  o tempo todo.
Meus dois filhos estão crescendo e já começam a procurar mulheres. São iguais ao pai.
As meninas não estão interessadas em homem. Parecem mais comigo.
Suspenderam os medicamentos e voltei aos trabalhos domésticos.
            Miguel está mais gentil comigo. Outro dia, até fez um carinho no meu cabelo. Disso eu gosto.
Pediu para voltar a dormir no meu quarto. Impus a condição de manter-se afastado da minha cama. Concordou, e não cumpriu.  Uma noite acordei com ele nu, deitado ao meu lado. Já estava até de pau duro.
Levantei depressa, corri até a cozinha e peguei o facão. Ele lutou comigo e conseguiu subjugar-me. Mordeu meu pescoço, mamou meus peitos e lambeu meus ouvidos. Deixou meu corpo marcado de beliscões. Depois  jogou a mesma gosma nojenta dentro de mim
Naquela noite chovia forte. Saí de casa nua, como nasci.
Andei pelas ruas desertas, até me sentir suficientemente limpa para chegar ao céu.
Nunca mais serei tocada por ninguém.

Ela subiu na mais alta torre da cidade, e saltou no imenso vazio... 

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