sábado, 29 de outubro de 2011

O SURDO MUDO

                        O SURDO E MUDO

Há anos moro num prédio pequeno, muito antigo e meus vizinhos, em sua maioria, já estavam aqui há décadas.
Um pequeno morro de pedra era a nossa vista. Um dia uma máquina britadeira chegou e nos deixou enlouquecidos.
Todos os moradores da vizinhança assinaram um documento pedindo as autoridades competentes providência, imediata, contra a poluição sonora.
A obra foi embargada durante quase cinco anos. Tempo suficiente para alguns velhinhos morrerem, em confortável silêncio.
Finalmente, a empresa construtora conseguiu terminar sua obra, fazendo acordo de não mais quebrar a pedreira e sim mudar o projeto.
Para alegria de muitos e irritação de alguns velhos sobreviventes do prédio, o grande Shopping Leblon foi inaugurado.
Alguns apartamentos foram ocupados por herdeiros ou vendidos a estranhos.
Assim fiquei morando entre desconhecidos, em frente ao shopping, com rua cheia de gente e, com ponto de táxi, onde os motoristas brigam tanto que, muitas vezes, me acordam  no meio da noite.
O mais estranho, de todas essas novidades, é que um surdo-mudo se fez dono do pedaço e guardador de carros.
Anda sempre imundo, com os pés descalços e as pernas formam uma tesoura, dificultando sua locomoção. Dizem alguns que foi resultado de um atropelamento, quando estava bêbado.

Cada novo proprietário, ou inquilino, foge dele assustado.
Seu aspecto não é dos melhores, mas o medo que as pessoas sentem dele é exagerado.

Um dia, vi uma nova moradora chegando  à porta do edifício com o carro cheio de compras. Ele, solícito tentou ajudá-la a levar os pacotes para o prédio.
Ela se trancou e, do celular pediu socorro ao marido.
Interferi: “Ele é inofensivo. Apenas quer lhe ajudar para ganhar um trocado”.
Quando algum dono de carro que ele vigiou ousa sair sem lhe dar a merecida gorjeta, ele grita e corre, na medida em que as pernas permitem.

Uma vez, usando a linguagem dos sinais, pediu-me dinheiro. Eu dei
Agora, todas as vezes que nos encontramos, ele segura, com suas grossas e sujas mãos a minha, para sacudi-la, num cumprimento exagerado, ou beijá-la.
 E, claro, dou um risinho amarelo e tiro da bolsa algum trocado. 
Na tentativa de expressão, seus grunhidos são horríveis; mas a alegria que ilumina seu rosto feio e sujo me comove.

Nem sei se ele me compreende, mas sempre repito com jeito de quem está de zangada: “Nunca vi um mudo tão barulhento!
Ele ri e se afasta.
Acho que nessas horas, o surdo - mudo escuta muito bem.

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