quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Receita

                                                  

             Num sábado melancólico e saudoso, amanheci pensando nos projetos não realizados, nas minhas frustrações...
           Vany, minha analista de Bagé, convidou-me para almoçar no Modern Sound, e ver um show de samba e bossa nova. Relutei mas, acabei indo.
             Logo que nos encontramos, ela me entregou um papel com essa receita:
        “Coloque num recipiente de cristal bem transparente, dois litros de ´água morna, deixe em um local iluminado pelos raios de sol. Pingue em seus olhos duas gotas de colírio VIDA do laboratório AMOR. Olhe no fundo do cristal e procure ver o sol e seus raios projetados nele.
         Respire fundo pelo nariz, prenda a respiração e solte pela boca profundamente, com a maior força que você puder.
O vento sopra suave na relva, as borboletas voam em sincronia.

         Agora respire tranquilamente, imaginando uma paisagem cheia de luz, flores coloridas, e algumas nuvens para enfeitar.
Sente-se em baixo de uma árvore frondosa, segure no seu tronco e deixe sua mão deslizar sobre os nódulos que o tempo imprimiu na sua crosta denotando a sabedoria do tempo. Preste atenção como tudo na natureza é perfeito.
Agora tire da sacola ao seu lado, um coração apertado, preso e amordaçado pelas mágoas, frustrações, erros e desencantos que estão mergulhados  num vidro cheio de pimentas ardidas, coberto com vinagre estragado, vencido, dentro de um vidro; segure a respiração, contenha o nojo e tire a tampa.  Seu aspecto é asqueroso e o cheiro insuportável. Não o jogue fora; enfie sua mão e retire, delicadamente, tudo que está dentro dele.  Olhe a sua volta, logo ali adiante há uma bica de água. Aproxime-se dela e com imensa piedade, passe delicadamente sua mão sobre o coração e lavando tudo que se agarrou nele durante toda a vida Aos poucos ele terá cores novas e vivas e se transformará e baterá mais compassado e rejuvenescido, a cada pulsação.
Pode chorar por ele; as lágrimas lavam todos os nossos sofrimentos e desencantos, que reprimidos, podem nos impedir de ver a perfeição a nossa volta.
Beba a sabedoria do tempo, liberte-se do passado. O tempo é curto. Tudo passa e a roda da fortuna gira.
Devemos usufruir de tudo que a vida nos dar agora. E, o que o amanhã os nos trará? Saberemos depois...

Tomei uma dose dupla do remédio.

 Vindo do nada, dois gaúchos chegaram até nossa mesa e pediram licença para sentarem conosco.  Eram interessantes e, com suas observações inteligentes, nos divertiram.
O conjunto bom e a bela voz da cantora nos propiciaram uma tarde excelente.
Já estávamos quase íntimos daqueles dois homens quando um deles aproximou-se mais de mim e disse: 
- Como vocês vão se sentir ao saber que estão almoçando com um casal homo-sexual?
- O problema não é meu. Cada um faz o que quer com sua sexualidade. 
Confesso que preferia não ter ouvido essa confissão.

Minha amiga rabiscava na toalha da mesa, o rosto do outro gaucho. E ele indócil, paquerava todas as mulheres.  Depois tirou um celular e ligou para a noiva.
Olhei admirada para um e outro.  O que me fizera confidência viu-se na obrigação de contar: “tínhamos um conjunto musical e o irmão dele era  eu “caso”. Imagine a minha surpresa quando ele me convidou para transar! Já foi casado três vezes e agora está noivo.

Outra surpresa ainda me esperava.
O “guloso” dirigiu-se para mim e para Vani e convidou: “vamos para um motel e fazer uma briga de aranhas”?
Zangada, olhei para minha amiga que estava rindo e disse: “vamos embora”. 
E ela ainda queria me convencer que ele estava brincando!




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