sábado, 29 de outubro de 2011

MINHA CIDADE

                                    
         Acordei cedo e melancólica. Talvez fosse essa minha  ultima ida na cidade onde nasci e vivi minha infância e adolescência, menina protegida e amada. A casa toda em silencio e eu debruçada na janela do meu quarto, olhando sem ver, perdida em recordações. Lembrei das amigas com quem compartilhei meus sonhos de adolescente, dos sucessos e derrotas.
         Depois de adulta quando estava em crise, confusa ou  deprimida, sempre corria para ouvir os conselhos da Leda, que se tornara uma psiquiatra de renome. E ela dizia: “calma, de perto ninguém é normal. Suas neuroses são muito leves.” Mesmo assim dava-me receitas de calmante e antidepressivo. Não a encontrei. Morreu de câncer nos pulmões.
         Ludmila, antes era a gaita da turma. Sempre tinha uma piada ou uma crítica inteligente para dizer. Agora só reclama das dores, conta minuciosamente, a cirurgia que fez na coluna e enumera todos os remédios que ingere diariamente. Parece um compêndio de patologia. E suas risadas, seus pileques que a levavam a se urinar escondida nas moitas, para onde foram?
         O rapaz mais bonito e cobiçado do grupo não quis me ver. Estava numa cadeira de rodas porque perdeu uma perna por causa da diabetes.
         O mais feio, porém o mais  inteligente, voz linda e boas piadas, por quem eu pensava estar apaixonada veio me encontrar com uma garota que tinha idade de ser sua filha. Clovis olhou para mim e disse apenas e disse sem me olhar: “você está diferente!”
         Mas nada disso se compara ao choque que tive quando cheguei do aeroporto e fui abraçar minha irmã. Ela estava deitada na cama tendo ao lado um aparelho de onde saiam duas sondas para suas narinas. Quando me viu perguntou: “Quem é você?” Disse o meu nome que não representava nada para ela. Reclamava todo tempo porque a mamãe não chegava logo para levá-la para casa. Dizia sempre estar no hotel ou num hospital.
Voltou a dormir. Á noite toda ficava acordada.
         Bateram na porta avisando que o motorista chegara a fim de me levar para o aeroporto.
         Não abri mão de dar uma última olhada para o mar e ver uma jangada partindo para a pesca.
         Fui surpreendida.
         “Os verdes mares bravios” estavam azuis como o céu.
Não eram mais bravios.
         Os homens tinham comercializado as algas que lhes coloriam e construído grandes pontes de pedras que entravam de mar á dentro chamadas “quebra mar” que conseguiam impedir seu curso natural, forte.
         Procurei os valentes pescadores. Não havia nenhum.
         Minha cidade não existe mais. Tudo me é estranho ou se acabou. Onde irei buscar força quando estiver fraca?E quando perdida, onde encontrar meu porto seguro?
         Bateram à porta novamente. “você precisa embarcar e se não se apressar vai perder o vôo”
         Carregando a mala corri para o carro que me levaria ao aeroporto com um misto de saudade e alívio.
         Realmente, minha cidade não existe mais.



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