sábado, 29 de outubro de 2011

UM CAMPEÃO

UM CAMPEÃO


             
         Entre oito e nove horas, quem estiver na Avenida Ataulfo de Paiva, pode ver aquele carro de rolimã, impulsionado por braços fortes, parando defronte o Empório Árabe, onde se pode comer as melhores esfirras  no Leblon.
 Moacir tira da sacola de lona, um velho tapete persa, e bem no meio da calçada, senta-se sobre ele como um árabe. E deixa ao lado, como um troféu, que lhe possibilita ir e vi para qualquer lugar. Mora no Vidigal e todos os dias ele vai  para o Leblon.
         Figura grotesca, pernas atrofiadas, um imenso calombo  nas costas, olhos escuros e cheios de revolta, encara as pessoas, que por ali passam, de modo desafiante.  Seus cabelos sempre amarrados num rabo de cavalo são pintados de três cores diferentes. Na frente é arrepiado e vermelho, parece simbolizar a rebeldia que existe nele . Nas laterais os cabelos são louros como se descendesse de europeus ricos e evoluídos. As pontas negras fazem-no parecer um cigano, conhecedor do destino de cada pessoa que passa. As orelhas estão cheias de diferentes brincos. Costas e braços cobertos por tatuagens. Dragões e sereias lembram que ele poderia ser um marinheiro singrando águas e conquistando mulheres.
         Ninguém percebe. Passam rápido e alguns deixam moedas ao seu lado, como aplacando suas consciências ou agradecendo a Deus por sua saúde e seus bens. Não lhes interessa pensamentos ou sentimentos de mendigos.
         Passa uma senhora e lhe entrega uma nota de maior valor. Ele pega com indiferença, coloca no bolso da velha camisa. Ela pergunta: “ Por que você fica sentado no meio da calçada?”  “Vivo aqui há vinte e quatro anos e gosto”.
         Eu lhe ofereço uma esfirra. Ele me olha com indiferença, pega o salgado de minha mão e guarda na mochila. Pergunto:
-Não vai comer?
          - Só na hora do almoço. Olha-me com indiferença.
          Sigo meu caminho.

É domingo e o sol brilha. As pessoas alegres, roupas coloridas, patinam, passeiam de bicicleta ou simplesmente caminham na calçada.
         No meio de todos, lá vem Moacir. As mãos fortes e sadias impulsionam o carro de rolimã. Levanta os braços de maneira harmoniosa, parecendo um campeão. Diverte-se, enquanto indiferente e altivo, baila no asfalto. E uma aura de dignidade o rodeia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário