CÃO GATO
Quando voltei de Fortaleza, minha gata tinha fugido de casa em companhia de um vira-lata.
Para meu consolo, deram-me um cachorrinho peludo de uma raça desconhecida e, aconselharam: “veja no Google tudo sobre ele.”
Assim fiquei sabendo que era descendente do cão que esquentava os pés do Dalai Lama, e dava alarme quando algum estranho se aproximava. Em 1930 um americano e um inglês foram presenteados com dois casai sois casais e deles se originam todos os “Lhasa Apso” do ocidente.
Nessa época morava sozinha e namorava o Vicente Augusto e, pensando em homenageá-lo, dei ao meu cachorro o nome de Guto. A tentativa de agradá-lo foi inútil, e até causou desentendimento entre nós; era esse o apelido do seu filho.
O meu Guto, bonito e saudável, logo se tornou querido e importante para mim.
Alimentava-o com o que há de melhor, o banhava todas as semanas e me divertia vê-lo brincar com as bolas de borracha ou qualquer objeto ao seu alcance.
Estivesse eu na rede ou na cama, logo pulava e se aninhava ao meu lado, para ser acariciado.
Chegou o tempo em que precisava namorar. Se fosse vira lata, tudo correria normalmente. Mas morando em apartamento era complicado, e eu teria que encontrar a fêmea.
E, como uma alcoviteira, vivia perguntando a todos os donos de cadelas que cruzassem o meu caminho.
Deixei o retrato do Guto no pet, conversei com a manicure e a cabeleireira, e nada consegui.
Já não exigia que fosse de raça, bastava apenas uma cadela.
Meu cachorrinho ficou inconveniente, roçava nas pernas das pessoas. Bati nele com um jornal e, magoado, elegeu uma cadeira para se masturbar. E nela passava o dia ejaculando.
A família passou a chamar meu quarto de masturba tório.
Transferi a cadeira para a varanda. Virou o espetáculo que a família e as visitas estavam sempre assistindo.
Pedi ajuda ao veterinário. Ele, com cara de safado: “quer dizer que seu cachorrinho é tarado?” Aconselhou castração.
Durante algum tempo rejeitei. Mais tarde me rendi, embora tenha ficado cheia de remorso.
Hoje, mais tranquilo, ganhou o apelido de “cão-gato” por sua maneira de se enroscar e pedir carinho a todos os amigos que chegam à minha casa.
Sabe quando eu estou triste e solitária e fica ali, com a cara de sofredor, e nada o tira do meu lado. E, quando me ver alegre, pula, dá cambalhotas e me lambe.
Quando vou à rua dizendo “eu vou sair” ele percebe que irei sozinha. Se disser: “vamos descer”, ele busca a coleira e me entrega.
Quando estamos passeando fica abusado, mede forças com cachorros enormes. Já com os menores, brinca e acaricia.
Toda a sua coragem desaparece diante do escuro, do toque de um sino ou do barulho de trovão. Corre para minha cama e se aninha junto a mim, choramingando.
É o despertador que me acorda todos os dias, às sete horas. Mesmo que eu queira dormir até mais tarde não consigo, pois, primeiro ouço uns resmungos como se fosse um velho. Fico imóvel fingindo que não acordei. Ele sobe na minha cama e me lambe; eu continuo imóvel. Ele late. E para não incomodar os vizinhos, entrego os pontos e abro os olhos.
Se eu sumo alguns dias, ele vomita e urina nas camas e no sofá. Depois, se esconde de baixo da minha cama e espera até que minha raiva passe. E ai de quem tente tirá-lo de lá.
É meu companheiro e, moramos juntos há vários anos, e tenho certeza de que nos entendemos como se ele falasse a minha língua e eu compreendesse os gestos dele.
E meus filhos, com ciúmes, ou para debocharem, dizem: “é o meu irmão, e o filho predileto dela.”
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