Mais uma festa de aniversário da
companheira do grupo de dança de salão.
Mais uma noite
rodopiando com os garotos, que complementam suas escassas economias, nos
levando para dar passos acrobáticos e repetitivos, durante horas.
Pensei em telefonar para Eunice, a aniversariante, e dar-lhe os parabéns via Embratel, me
entregar aos braços de Morféu ou procurar um bom filme para ver.
Mas o sono não chegou e os filmes eram antigos e reprisados muitas
vezes.
Concluí que era melhor ir cumprimentar minha amiga e tirar
proveito do que me foi oferecido.
Eunice havia sido gentil ao me incluir entre suas convidadas
e teve o cuidado de contratar quatro bailarinos para que nenhuma amiga tomasse chá
de cadeira.
Embora esses contratos me façam lembrar que estou idosa e
invisível. E sinto saudade do tempo em que eu era jovem e requisitada.
Segui para a churrascaria, em Laranjeiras, embora soubesse
que seria uma noite sem surpresa, sem jogo de sedução ou conquistas amorosas.
Apenas um negócio.
No fim da noite, meu parceiro, cansado, receberia o dinheiro
previamente combinado.
Quando o taxi parou no lugar indicado, fui encaminhada para
um salão enorme, na parte de trás.
Um conjunto de músicos animados,
tocavam de tal maneira que meu corpo
ficou com vontade de dançar. Mas não precisei dos bailarinos contratados.
Logo um jovem que apenas se
divertia, tirou-me para dançar. Em seguida, um homem de aspecto distinto, bem
vestido e educado convidou-me para outra dança.
Nem percebi se dava os passos certos, se tinha ritmo ou
técnica. Só lembro que era cheiroso e abraçou-me forte. Perguntou meu nome. Eu
disse. Ele admirado, falou: “voce tem o
nome da mamãe. Ela está velhinha, tem setenta e seis anos.” Tão elegante e tão
mentiroso...
Depois foi a
vez do jovem charmoso, com a cabeça raspada. Estava com um perfume gostoso,
chegou mais perto e me convidou para o escurinho, fará do salão.
Que alegria!
Há quantos anos ninguém me tirava do salão para umas beijocas? Quis saber meu
telefone e perguntou se eu tinha namorado. Quase morri de emoção.
O terceiro
homem que me tirou para dançar era jovem e parecia maluco. Quando falou saiu de
sua boca um hálito de tigre louco. Nunca cheirei tigre, mas deve ter aquele
cheiro.
Bebi um
pouco mais do que devia e já estava altinha quando percebi um afro brasileiro
grande e forte, me olhando com olhar pidão. Estava longe o tempo em que me
olhavam daquela maneira! Meu corpo se encheu de prazer e “encarei”.
Aproximou-se,
disfarçadamente, e me perguntou se eu queria dançar. Respondi que sim. E lá
fomos nós ao som do forró arretado, com bate cocha e rala bucho.
Quando
terminou a primeira música, ele me perguntou se continuávamos
Pensando que ainda era jovem, respondi assanhada, “claro”.
Estava cansada, mas, há muito tempo não sentia tanta alegria
e tão grande entusiasmo.
O forró e o negão me deixaram tão cansada que minha
respiração começou a faltar. Eu só ia
parar quando a orquestra acabasse de tocar. O coração acelerou. Desejei que a
letra não fosse tão longa e que aqueles músicos parassem. Teimosa, continuei
dançando. Queria agüentar até o fim, embora o coração batesse descompensado, a
respiração ficasse difícil e a vista escurecendo.
Quando voltei do desmaio estava sendo levada para a mesa, nos
braços do crioulo. Sentou-se na cadeira ao meu lado, e zangado disse:
“Não faça mais isso. Você não tem mais idade...”
Mas, naquele momento nada que dissessem diminuiria o
encantamento da noite, daquele aquele negão.
Idosas solitárias procurem...
Ainda somos capazes de
atrair homens, sermos cortejadas e dançarmos sem parar.
E, bem agarradinhas,
sem custar nada.
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