quarta-feira, 4 de março de 2015

LIVRAMENTOS

                                               
Durante muitos anos, todas as terças feiras à noite, eu participava de um grupo de mulheres que estudavam tarô.
Depois de cada aula, nos reuníamos para comer uma pizza, um cachorro quente, ou apenas conversar, trocar idéias. Perdíamos a noção do tempo, e seguíamos caminhos diversos. Algumas tinham carro, outras  viajavam de ônibus e, muitas vezes, se metiam em situações de risco.
Tínhamos em comum o desejo de ler cartas, adivinhar o futuro, mas, vínhamos de religiões e crendices várias. E quando precisávamos de milagres, de uma graça, recorríamos a diferentes maneiras de buscá-las.
Germana, contadora de estórias hilariantes, embora muito simpática e espirituosa, era gorda e desleixada.
Uma noite de terça feira, voltando para Bangu, onde morava, deparou-se com um negão de um metro de largura por dois de altura, uma voz de trovão que lhe disse:
- Vai passando a bolsa, esse cordão que está no pescoço, relógio e celular. E logo, que eu não tenho tempo para perder.
Embora tremesse de medo, olhou firme nos olhos do crioulo e, disse, cheia de convicção;
- Filho de Xangô não pode roubar filha de Yansã!
O homem, assustado, respondeu:
- Você é filha de Yansã?  Segue teu caminho em paz.
Admirada, eu perguntei:
- Você é filha de Yansã?  Como sabia que o homem era filho de Xangô? .
- Eu não sou filha de santo, mas aquele negão só podia ser filho de Xangô. Todos eles são...
Sara era outra colega cheia de manhas. Judia convicta,  freqüentava outras religiões, assistia a outros ritos.
Morava em Copacabana e, talvez fosse a que primeiro a chegar á casa, depois das  aulas e das reuniões com as colegas.
Numa das noites em que estava voltando,  o ônibus em  que ele subiu foi assaltado por uma turma de moleques.
Assustada, ela começou a rezar o Pai Nosso e a Ave Maria, tão alto que um dos aproximou-se dela e disse: “Calma,  tia, nós não vamos roubar nada seu”.
E desceram logo que a condução parou.
- Você é uma judia. Porque rezou o Pai Nosso e a Ave Maria? – perguntei.
- Ora, ninguém conhece as orações da minha Igreja, em hebraico . Como  iriam saber que eu estava rezando?   
A única aluna evangélica que freqüentava as aulas de terça feira era a Tereza.  Morava em Ipanema, andava cheia de jóias no pescoço, braço,  orelhas e dedos. Nem sei se tudo era de ouro ou ela misturava com bijuteria.  O fato é que andava bem vestida e bem calçada.
Entrou no ônibus em Copacabana e não percebeu que bandidos  estavam assaltando os passageiros.
Quando percebeu que dois homens estavam tirando carteiras, celulares e jóias de todos, levantou o corpo de quase dois metros, abriu a boca e com o vozeirão que Deus lhe deu, começou a falar a língua dos anjos.
O blá-blá-blá não foi compreendido mas, os ladrões fizeram o motorista parar o ônibus e desceram apavorados.
“Jesus salvou minhas jóias, meu dinheiro e a todos que estavam no ônibus. Jesus é bom”, disse ela cheia de agradecimento e fé.

Terminamos o curso de tarô, nos perdemos de vista. E eu pergunto: “o que livrou essas mulheres dos ladrões, quando retornavam as suas casas? “.

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