Durante muitos anos, todas as terças feiras à noite, eu
participava de um grupo de mulheres que estudavam tarô.
Depois de cada aula, nos reuníamos para comer uma pizza, um
cachorro quente, ou apenas conversar, trocar idéias. Perdíamos a noção do
tempo, e seguíamos caminhos diversos. Algumas tinham carro, outras viajavam de ônibus e, muitas vezes, se metiam
em situações de risco.
Tínhamos em comum o desejo de ler cartas, adivinhar o futuro,
mas, vínhamos de religiões e crendices várias. E quando precisávamos de
milagres, de uma graça, recorríamos a diferentes maneiras de buscá-las.
Germana, contadora de estórias hilariantes, embora muito
simpática e espirituosa, era gorda e desleixada.
Uma noite de terça feira, voltando para Bangu, onde morava,
deparou-se com um negão de um metro de largura por dois de altura, uma voz de
trovão que lhe disse:
- Vai passando a bolsa, esse cordão que está no pescoço,
relógio e celular. E logo, que eu não tenho tempo para perder.
Embora tremesse de medo, olhou firme nos olhos do crioulo e,
disse, cheia de convicção;
- Filho de Xangô não pode roubar filha de Yansã!
O homem, assustado, respondeu:
- Você é filha de Yansã?
Segue teu caminho em paz.
Admirada, eu perguntei:
- Você é filha de Yansã?
Como sabia que o homem era filho de Xangô? .
- Eu não sou filha de santo, mas aquele negão só podia ser
filho de Xangô. Todos eles são...
Sara era outra colega cheia de manhas. Judia convicta, freqüentava outras religiões, assistia a
outros ritos.
Morava em Copacabana e, talvez fosse a que primeiro a chegar á
casa, depois das aulas e das reuniões
com as colegas.
Numa das noites em que estava voltando, o ônibus em
que ele subiu foi assaltado por uma turma de moleques.
Assustada, ela começou a rezar o Pai Nosso e a Ave Maria, tão
alto que um dos aproximou-se dela e disse: “Calma, tia, nós não vamos roubar nada seu”.
E desceram logo que a condução parou.
- Você é uma judia. Porque rezou o Pai Nosso e a Ave Maria? –
perguntei.
- Ora, ninguém conhece as orações da minha Igreja, em
hebraico . Como iriam saber que eu
estava rezando?
A única aluna evangélica que freqüentava as aulas de terça
feira era a Tereza. Morava em Ipanema,
andava cheia de jóias no pescoço, braço,
orelhas e dedos. Nem sei se tudo era de ouro ou ela misturava com
bijuteria. O fato é que andava bem
vestida e bem calçada.
Entrou no ônibus em Copacabana e não percebeu que
bandidos estavam assaltando os
passageiros.
Quando percebeu que dois homens estavam tirando carteiras,
celulares e jóias de todos, levantou o corpo de quase dois metros, abriu a boca
e com o vozeirão que Deus lhe deu, começou a falar a língua dos anjos.
O blá-blá-blá não foi compreendido mas, os ladrões fizeram o
motorista parar o ônibus e desceram apavorados.
“Jesus salvou minhas jóias, meu dinheiro e a todos que
estavam no ônibus. Jesus é bom”, disse ela cheia de agradecimento e fé.
Terminamos o curso de tarô, nos perdemos de vista. E eu
pergunto: “o que livrou essas mulheres dos ladrões, quando retornavam as suas
casas? “.
Nenhum comentário:
Postar um comentário