Carlos Alberto, típico militar,
cheio de regras, intransigente e autoritário, mas, tinha um jeito de fazer com
que todos em casa aceitassem o seu comando e até gostassem dele.
Qualquer atraso às refeições ou
mesmo a simples falta de modos de um neto, era trágico.
Ofélia, sua esposa, disciplinada e
valente, dividia com ele o domínio da família e dos empregados. Como se fosse
uma coronela, ela vibrava com tudo que
se referia ao quartel. Um dizia mata, o outro, esfola.
Aliados, chegaram aos trinta anos de
casamento.
Quando chegou o fim de carreira,
Carlos Alberto conseguiu um bom emprego num órgão do governo.
Tinha
três meses para deixar o apartamento funcional, e decidir onde morar.
Ele viajou para o Rio, enquanto ela ficou recebendo
homenagens e presentes de despedida dos amigos, que conquistaram.
No domingo o Coronel
telefonou para o filho mais velho, já casado e disse:
- Márcio, vá à minha casa, abra o meu armário e tire de
dentro do bolso do paletó azul, uma carta para você e outra para sua mãe. E
tome conta dela e de sua irmã. Não voltarei mais.
O rapaz pede explicações, que não são dadas. Nervoso, vai
cumprir as ordens do pai.
Pega dois envelopes. Entrega um à D. Ofélia e lê a que lhe foi destinada.
“Há dezessete anos estou apaixonado por outra mulher. Agora
que fui para a reserva, não tenho mais necessidade de bom comportamento. Vou
ser feliz, etc, etc ...
Na carta da companheira de mais de três décadas, estava
escrito:
“Lembra-se de nossa viagem a Paris, quando você descobriu que
eu tinha uma amante e obrigou-me a terminar tudo por carta? Escrevi o que você
queria e lhe entreguei para enviar pelo correio.
Chegando ao escritório, escrevi outra desdizendo tudo.
Continuei meu romance, por todos esses anos. Tive dessa mulher, um amor e uma
dedicação jamais encontrados em você.
Agora junto dela conhecerei a verdadeira felicidade.”
D. Ofélia desmaiou, a filha diabética entrou em coma, a velha
empregada ficou desmemoriada e foi para o manicômio. A nora revoltada e o filho
chocado.
Carlos Alberto, ao saber de tanto infortúnio, voltou para
casa, arrependido. Presenteou a filha com um carro novo, desmanchou-se em
desculpas para o filho e nora, e fez declarações de amor para a esposa.
Acomodaram-se na casa do filho e, tiveram uma nova e verdadeira lua de mel.
Até a velha babá saiu do hospital, equilibrada e radiante.
O Coronel foi mais paparicado do que nunca. Todo o
mimavam para que não sentisse falta
da amante e voltasse para os braços
dela.
E o marido, apaixonado como nunca, disse para a esposa:
- Querida, nossa felicidade seria completa, se eu não
guardasse um grande remorso. Durante
anos e anos, aquela mulher dedicada e amorosa ficou presa a mim, por uma
promessa que não consegui cumpri. Sempre esperou morar comigo. E vou ficar com
você.
Esse remorso seria aplacado se eu deixasse, ao menos, um
cantinho para ela morar. Você tem aquele
apartamento que seu pai lhe deixou. Não precisamos dele, pois vou comprar outro
aqui, perto, dos nossos filhos e netos.
O que você acha de passarmos o seu apartamentinho de subúrbio
para o nome dela, e aplacar esse meu remorso?
E esse capítulo da
nossa vida estará encerrado para sempre e não pensaremos nisso.
Ofélia, mais que depressa, assinou os papeis que o marido lhe
entregou.
A filha que estava noiva, logo marcou o casamento.
Tudo saiu perfeito. A
festa foi digna de uma princesa.
Quando os convidados saíram, a moça preparava-se para a
viagem de núpcias e os outros estavam prontos para dormir, quando Carlos
Alberto pediu um momento de atenção e disse:
- Graças a Deus a farsa chegou ao fim! Fiz todo esse sacrifício por você, minha
filha.
E virando-se para a mulher disse: Não te suporto, megera.
Estou com saudade da mulher a quem, verdadeiramente, amo.
Pegou a mala, que já estava pronta, se despediu dos filhos,
nora e netos e para a mulher com quem viveu
trinta anos, deu um último olhar de desprezo e um frio adeus.
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