quarta-feira, 18 de março de 2015

ATRAÇÃO INUSITADA


Guto, meu cão, jamais teve uma cadelinha, jamais amou alguém de sua raça ou de qualquer outra.
Talvez tenha me amado, mas sempre foi rebelde e não demonstrava esse apego, tão decantado sobre cães.
Hoje está velho, os dentes caindo, os olhos cegando, e não responde as minhas  chamadas, talvez já não as ouça.
 Eu trouxe para casa duas gatinhas. A Kate, branquinha como neve, e  Kira, uma negra de pernas longas e andar elegante.
Logo que as duas chegaram, viviam se escondendo do animal grande e zangado.
Os dias correram, e pouco a pouco, elas ousaram aproximação.  Guto, muito devagar, habituou-se àquelas bichinhas.
As gatinhas comiam a comida do cão e ele ia para a vasilha delas. A água preferida delas, era a que ele bebia.
A relação de amizade foi consumada.
Kira, a negrinha sestrosa, entrou no cio.  Sua companheira Kate, sempre ao seu lado, lambia todo o corpo da amiga, enquanto as duas olhavam pela janela o mundo lá fora.
O olhar de Kira era triste, e seu miado, mais triste ainda.
Muitas vezes me perguntei se ela seria mais feliz na rua. Livre e podendo ficar com todos os machos que encontrasse!
Enquanto eu fazia elucubrações, Kira voltava sua atenção para o cachorro velho que estava ao lado.
 E o jogo de sedução era ousado. Ela levantava o rabo grande e peludo e se aproximava do Guto. Algumas vezes por trás, outras pela frente. Esfregava-se nele, mostrava-se toda, e tentava fazer carinho nele com a língua, sempre esperando retorno.  E o cachorro rosnava e ameaçava mordê-la. A gata pulava e se afastava por alguns minutos.  E ela insistia no jogo de sedução, dando cambalhotas, mostrando-se de rabo levantado, esfregando-se nele, girando o corpo no chão dando longos e melancólicos miados.
 Usava tudo que sabia por instinto ou criatividade, penso eu.
Quando  saía com o Guto, ela tentava nos seguir. Eu fechava a porta e ela miava desesperada, até meu retorno.
E o seu amor incapaz, só respondia com fugas e resmungos zangados. 








 

            

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