Guto, meu cão, jamais teve uma cadelinha, jamais amou alguém
de sua raça ou de qualquer outra.
Talvez tenha me amado, mas sempre foi rebelde e não
demonstrava esse apego, tão decantado sobre cães.
Hoje está velho, os dentes caindo, os olhos cegando, e não responde
as minhas chamadas, talvez já não as
ouça.
Eu trouxe para casa
duas gatinhas. A Kate, branquinha como neve, e
Kira, uma negra de pernas longas e andar elegante.
Logo que as duas chegaram, viviam se escondendo do animal
grande e zangado.
Os dias correram, e pouco a pouco, elas ousaram
aproximação. Guto, muito devagar,
habituou-se àquelas bichinhas.
As gatinhas comiam a comida do cão e ele ia para a vasilha
delas. A água preferida delas, era a que ele bebia.
A relação de amizade foi consumada.
Kira, a negrinha sestrosa, entrou no cio. Sua companheira Kate, sempre ao seu lado,
lambia todo o corpo da amiga, enquanto as duas olhavam pela janela o mundo lá
fora.
O olhar de Kira era triste, e seu miado, mais triste ainda.
Muitas vezes me perguntei se ela seria mais feliz na rua.
Livre e podendo ficar com todos os machos que encontrasse!
Enquanto eu fazia elucubrações, Kira voltava sua atenção para
o cachorro velho que estava ao lado.
E o jogo de sedução era
ousado. Ela levantava o rabo grande e peludo e se aproximava do Guto. Algumas
vezes por trás, outras pela frente. Esfregava-se nele, mostrava-se toda, e
tentava fazer carinho nele com a língua, sempre esperando retorno. E o cachorro rosnava e ameaçava mordê-la. A
gata pulava e se afastava por alguns minutos. E ela insistia no jogo de sedução, dando
cambalhotas, mostrando-se de rabo levantado, esfregando-se nele, girando o
corpo no chão dando longos e melancólicos miados.
Usava tudo que sabia por
instinto ou criatividade, penso eu.
Quando saía com o
Guto, ela tentava nos seguir. Eu fechava a porta e ela miava desesperada, até
meu retorno.
E o seu amor incapaz, só respondia com fugas e resmungos
zangados.
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