segunda-feira, 23 de março de 2015

                                    MEMÓRIAS DE UM PSICOPATA

            Desde menino, eu só pensava em guerra. É verdade que todas as crianças passam por essa fase. Mas, em mim, ela foi pouco a pouco se transformando numa paixão.
            Certo dia um vizinho pulou o muro e veio tirar frutos de meu quintal. Pronto, já encontrei o grande inimigo. Peguei o ladrão, montei  sobre ele e quase o esganava, não fosse meus irmãos tirarem minhas mãos que apertavam seu pescoço.
            Fui repreendido, e todos ficaram assustados com tamanha agressividade que demonstrei. Percebi, então que não seria aprovação dos familiares, se continuasse tão valente. Escondi os desejos de guerreio, sem deixá-los aflorar. Todos começaram a me tecer elogios. E eu passei a ser o filho predileto de mamãe.
            Estudei para ser militar. Acabei policial. Foi grande a minha decepção. Não era necessária muita valentia, nem havia combates, e, luta, só pela subsistência.
            Senti vontade de me alistar, como voluntário, num país que estivesse em guerra. Queria ver sangue e morte. Foi só um desejo.
            Casei, vieram os filhos e tudo parecia completo, embora, às vezes, sentisse a inutilidade da carreira e tédio na vida.
 Bom marido e um pai carinhoso, todos acreditavam ser eu uma pessoa realizada e feliz.
Um dia, os militares implantaram a Ditadura. Tomamos o poder. Entrei para o DOPS e fiz cursos com militares no exterior, me tornei um expert nessa área. Apaixonei-me pelos ensinamentos de um chinês sobre  técnicas de guerra psicológica. Foi aí que percebi ser a guerra tradicional bruta e primitiva. Para gente não civilizada, bárbaros conhecedores apenas da força física. Prefiro coisas mais sofisticadas. Tornei-me comandante de um departamento. Era importante, e, enfim encontrara uma finalidade para a vida.
Passava horas trabalhando e me deliciando com torturas aos presos. Confesso que às vezes os “homens” exorbitavam. Mas, se algo saia errado, havia médicos para atestarem e explicarem os surtos de loucura ou as mortes inesperadas.
Certo dia, fui assistir a um interrogatório fui assistir a um interrogatório fiquei de tal modo impactado que não percebi minha calça respingada de sangue. Senti náusea e vomitei.
Uma artista foi presa. Era jovem e bonita e todos a desejaram. Fui premiado. Só que a “bandida” estava com gonorréia.
Para não ser descoberto, sumi de casa durante 15 dias.
Tínhamos uma jibóia. Quando as mulheres eram colocadas em sua companhia,  ficavam histéricas e entregavam todos os seus cúmplices.
Em família, eu vivia o papel do homem calmo e afetuoso. Passeava com os filhos, ia a reuniões sociais com a mulher e acariciava as crianças. Pai de família irrepreensível, marido amantíssimo.
Excitava-me essa duplicidade que o destino me dera à chance de vivenciar. Parecia um ator de grande talento interpretando duas personagens.
Durante anos fui imensamente feliz e realizado. Tínhamos conforto, divertimento e status.  Filhos inteligentes de saudáveis. Mulher amorosa e bonita.
O regime mudou.  Demos anistia ampla geral e irrestrita, e nos salvaguardamos de possíveis represálias.
Agora eu não tinha motivação. Guerra, nem tradicional, nem psicológica. Porradas, só em pé de chinelo. Meus conhecimentos e talentos eram inúteis. Fui obrigado a ir para a burocracia.
Estava triste, desmotivado e quase sem dinheiro, quando ganhei um novo trabalho e uma secretária. Moça afoita, tornou-se o centro do meu  mundo. Outras já haviam passado por minhas mãos, mas de maneira discreta, sem nenhum conhecimento da família Jamais tivera tanta afinidade com alguém. Com ela, aprimorei aquele lado escondido da personalidade. Tivemos um entrosamento mais que perfeito. A paixão foi crescendo e todos os demais valores desapareceram.
Uma noite, ela exigiu que eu deixasse a família para vivermos juntos. Mas como jogar fora tudo aquilo que construíra durante vinte anos?
Estava nessas considerações, quando fui apanhado em flagrante por minha esposa. Ela que sempre pareceu tranqüila, teve uma reação violenta e tratou de me desmoralizar perante nossos  filhos e amigos.
Como ousava enfrentar-me?!
Fui revigorado pelo ódio. Voltaria à luta, embora minha mulher parecesse frágil e despreparada. Mas, guerra é sempre divertida. A vitória seria fácil e rápida, pois eu tinha os atributos necessários, aprendidos com o brilhante chinês. Conhecia melhor o opositor e era paciente.
Esperei o nosso aniversário de casamento para lhe presentear com a notícia da decisão de me separar.
Ela chorou a noite toda. Eu gozei.
Passei a deixar notas de compras suspeitas nos bolsos e quando ela os vasculhava – hábito recém adquirido – e as encontrava, gritava e  brigava comigo. E eu, olhando para os filhos, cheio de comiseração, dizia: mamãe está ficando louca. Nem sei por que esse escândalo. Talvez tenhamos que interná-la. Vocês sabem que já existem casos na família...
Realmente planejava enlouquecê-la e, assim mostrar a todos que eu continuava sendo sério e respeitável, e que o flagrante não passava de uma mente doentia.
Fazia com que ela ouvisse telefonemas meus, na extensão. Marcava encontros com meu amor e, dizia para os filhos que estivera conversando com um amigo, eles podiam até conferir.
Algumas vezes instigava a mulher a seguir meu carro. Ia ao mercado e voltava cheio de compras, rindo e comentando o comportamento doentio da mãe deles. 
Dessa maneira, pouco a pouco, ia deixando sua mente perturbada.
 Entre suas fraquezas, a que se faz mais útil foi o falar demais. E assim dizia tudo que eu precisava ouvir. Contou-me que tinha pesadelos quando fazia sexo. As noites passaram a ser divertidíssima. Começava a fazer agrados, até ver que não havia mais resistência. Depois eu dizia: “É como fazer sexo com uma prostituta qualquer. Não sinto nenhuma emoção. Ela chorava à noite toda. Em outras ocasiões eu fingia desejá-la até que ela entrasse no clima. Depois eu levantava, sem dizer uma palavra, e ia dormir na sala. Quando ela gritava e esbravejava eu, calmamente, fingia desconhecer o motivo.
Certo dia, eu murmurei, como que estivesse pensando alto: Hoje depois do expediente, vou levá-la para ver o sol se pôr.
Ela se levantou e gritou: “que expediente? Você não está no trabalho com sua vagabunda!
Numa outra vez, como se estivesse com uma pessoa que não ela, indaguei: “Você quer ou pica ou porrada?”
  Ela correu assustada.  Foi excitante.
Chamei os filhos para conversar. Chegamos à conclusão de que um “Encontro de casais com Cristo” e depois um analista, poderia ajudar. 
Eles ficaram cheios de esperança. Convenci a todos,  e principalmente a ela, dos meus bons propósitos.
Depois passei a lhe presentear com histórias de mulheres assassinadas por maridos ou por suas amantes. E os crimes nunca desvendados.
Ando aborrecido. Ultimamente venho tendo pesadelos, onde degolam minha cabeça ou me vejo o sendo fuzilado. Grito, e ela me desperta. Isso é preocupante, pois me torna frágil.
            Preciso apressar minha vitória. Chego perto dela e, baixinho, digo:  “Vá caçar! A emoção da caça é maravilhosa. Eu caço mulheres e você caça homens”.
Feri seus brios. Passou a sair à noite e voltar tarde, cheirando à bebida Pronto, a guerra está ganha. Consegui desmoralizá-la. Agora é uma alcoólatra que está envergonhando a família. Comento com os parentes e amigos. Todos acreditam em mim.
Viajei para o exterior e trouxe dez pares de meias para embelezar pernas. Ela me pediu um par. Eu disse que todas eram para a minha secretária. Ela apanhou uma tesoura e cortou todas. Apanhei os trapos e mostrei para os amigos. Ficaram impressionados com tamanha fúria.
Meu grande amor e eu tivemos a idéia de tirar os animais de estimação dela e usá-los no terreiro de magia negra. Contratamos dois caboclos para roubar um de cada vez e devolve-los sacrificados.
O primeiro seria o doberman que sempre a esperava no portão, e que ela considerava seu protetor.
Devolvemos o cão  com o corpo todo espetado e o espeto dentro do anus.
Pela manhã, ela o encontrou na escada, banhado de sangue. Ela desmaiou e chamamos o médico. Claro que não havia mais animal ali, quando ele chegou e deu um sedativo que a fez dormir muitas horas.
Dias depois, ela mais calma tiramos seu gato persa. Com esse não havia sangue. O entregamos com os ossos quebrados.
Ela teve outra crise. Novamente o médio a sedou.
Chegou à vez da pequena cadela, que vivia no seu colo. Nós a devolvemos, esquartejada, dentro de uma caixa de sapato, enrolada com papel de presente.
Conseguimos que a mulher entrasse numa histeria tal, que chamou atenção dos vizinhos.
 Mas ela reagiu. É mais forte do que eu pensava.
Mandamos fazer outra magia negra, dessa vez, no seu carro.
Aconteceu um acidente. Ela saiu sem machucado.
E se nós sabotarmos o carro? Ela está bebendo tanto!... Disse minha amada.
Enfim, mandei publicar em todos os jornais da cidade:

“Marido inconsolável e filhos saudosos comunicam o falecimento, em trágico acidente, e convidam para o sepultamento da esposa e mãe inesquecível”

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