segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

REGINALVA

                                                                         REGINALVA
       Reginalva era a  filha caçula da família. Alta, magra, tinha os cabelos claro, lisos. Andava com os pés virados para fora, o que lhe valeu o apelido de “quinze para três”. Desde pequena  denotou um comportamento estranho.         E suas duas irmãs a evitavam sempre.
              Sua mãe ficara viúva ainda jovem, com a enorme responsabilidade de criar os filhos e as duas enteadas do primeiro casamento do marido.
        Na grande casa onde moravam, montou um colégio que era o único da redondeza e, ela, a única professora.
       E devotada cristã, era admirada e respeitada por todos.
        Um dia a enteada mais velha foi vista na casa da cafetina mais famosa da cidade e, horrorizada com tamanho pecado, internou-a no hospício. Meses depois, a moça cometeu suicídio.      
       A outra foi expulsa de casa, porque ficou grávida antes do casamento.
       Seria essa mulher cristã mesmo?
        Quando as irmãs se foram, Reginalva sentiu-se só e rejeitada. A vida  parecia insuportável.
        De maneira repulsiva, descarregava sua raiva nos animais domésticos. Quebrava pescoços de galinhas e  pintos, afogava gatos, apedrejava cães.
     Procurou se aproximou dos  vizinhos e, fazer amizade com as garotas do colégio. E destilava seu veneno e, lhes tirava a inocência.
      Falava de coisas que ninguém mais contava.
            
         Acabou com fantasias sobre Papai Noel, descrevia o corpo peludo dos irmãos mais velhos, ensinava como as mulheres engravidavam, levava as amigas  preferidas para enterros, e sabia contar piadas como ninguém.
        E como conhecia a vida particular de cada vizinho! E descrevia tudo  com tanto  prazer que  alegrava algumas, e deixava outras assustadas.
        “Sabe, o Hélio estava sozinho na sala com o pau para fora. Sua mão subia e descia nele. E  gemeu, até sair dele uma gosma”.
         “Ontem Horácio chegou bêbado e deu uma surra na mulher. Depois foi para a janela com o rosto pintado, escondendo as manhas roxas e com roupas decotadas mostrando os seios. Ela gosta de apanhar...”
         “Achei muito bom! Aquela nojenta da Teresa não me convidou para a festa de aniversário.  Toda prosa. Na hora de cantar os parabéns, o pai chegou cheio de cachaça, e mandou todos os convidados saírem de sua casa.” 
          E ria muito, no fim de cada história.
         Reginalda apaixonou-se por um turco, bem mais velho do que ela, e passou a falar sobre tudo que faziam juntos.
         Por algum tempo, perdeu o interesse  pela vida alheia, e deixou a vizinhança em paz.
         Meses depois o namoro terminou e ela voltou mais venenosa do que antes. Agora usava o anonimato do telefone. Passava trotes para todos aqueles que desejava atingir.
         E muitos casamentos entraram em crise, outros terminaram. Jovens apanharam e crianças foram castigadas.
       Mas seu alvo principal era o militar e sua mulher, novos na redondeza.
Todas as tardes, à mesma hora, ela telefonava para o trabalho dele e o chamava de corno. Foi, pouco a pouco, contando histórias cheias  detalhadas  da vida de sua companheira.
 Conseguiu, finalmente atingir seu alvo.
 O homem inventou uma viagem. No meio da madrugada voltou para casa e pegou a mulher e o amante juntos.
      E a tragédia aconteceu. Ele matou os dois.
      Foi a maior vitória de Reginalda.
      Nos dois funerais, ela se comportou como uma heroína feliz.
      Sem culpa. Sem remorso.

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