segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

ÓRFÃ

ÓRFÃ
         Não conheci meu pai, e jamais  ouvi falar dele. Quando tinha quatros anos mamãe morreu tuberculosa. Saí do casebre onde vivia, para a casa da minha madrinha.
          E tudo mudou.
          Lembro-me do primeiro copo de água gelada que bebi, da cama cheirosa e macia no quarto só meu, do armário cheio de roupas novas, dos vestidos combinando com sapatos e bolsas. As meias e  as luvas eram feitas de tricô.
         E sentada na mini-penteadeira eu me via no espelho bem diferente da menina que morava na casa de sapê, numa  praia quase deserta, fedendo a peixe e brincando com vizinhos esquálidos e famintos.
Minha madrinha deu-me tudo, mas foi ao meu padrinho que entreguei todo o meu amor.
Todas as noites, enquanto o casal conversava na enorme varanda, ele me colocava no colo e, entre uma história e outra, cantava versinhos feitos especialmente para mim. 
Como a madrinha não gostava de viajar para as fazendas,  era a mim que ele levava todos os fins de semana. 
No caminho de ida ele me dizia o nome das pequenas cidades e, na volta, mandava que eu repetisse. Acertava todos. Ele, orgulhoso, exaltava minha inteligência.
         Da madrinha ganhei roupas, festas e educação.  Dele, companhia, elogios, carinhos. E era feliz.
        
         Quando tinha treze anos percebi uma diferença sutil no padrinho. Seus olhos azuis me fitavam com estranheza. Suas mãos me pegavam com mais força ou, como sem querer, tocavam nos meus seios e no meu púbis.
        Muitas vezes, durante as viagens ele passava a mão sobre minha  coxa. E a cada novo fim de semana, ela escorregava mais para dentro do meu vestido.  E eu gostava.
         Nessa época madrinha descobriu que estava diabética e sua pressão arterial estava alta.  Era gulosa e comia tudo que não devia. Isso deixava  meu padrinho preocupado e, às vezes, zangado.
         Ela andava desconfiada com as constantes viagens do padrinho e eu a vi comentando com uma amiga que ele estava frio e já não a procurava com a mesma freqüência de antes.  E desconfiava  que ele estivesse de caso com  alguma caboclinha da fazenda.
         Eram esses os únicos motivos de alguns  desentendimentos.
         Ainda era um casal feliz. Ainda havia amor entre os dois.
         Numa sexta- feira meu padrinho chegou com um embrulho de presente e disse com  jeito misterioso: “é para você, mas, só deve abrir amanhã, na fazenda e na minha presença.”      
Apesar de curiosa,  esperei o momento em que estávamos sozinhos. Olhei, deslumbrada, para o estojo de maquilagem.
Ele disse: “Agora pinte seu rosto e coloque o batom mais escuro.” Obedeci.
        Aproximou-se de mim, olhou os meus olhos e  beijou meus lábios virgens. E eu gostei.
         Quando me levou para a cama, pensei na madrinha, mas meu corpo desejava o corpo dele. E fui.
           Fui tocada e beijada até ficar pronta. Virei mulher. E gostei.
         Vivemos  um ano de amor intenso e ele me ensinou o  gozo de diferentes  maneiras.
          Madrinha continuava a procurar a cabocla que seduziu seu marido . E eu ali, tão perto, espantada com   sua  incapacidade de perceber o que estava acontecendo entre nós.
         Traí a mulher que me acolheu carinhosamente e cuidou de mim como uma mãe.  Mas só  consigo ser feliz com ele, mesmo me sentindo um verme.

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