quarta-feira, 8 de abril de 2015

OS OSSOS

            OS OSSOS

Ela era uma cabocla bonita de olhos amarelos e brilhantes, sobrancelhas grossas, cabelos negros e lisos, corpo esbelto e bem feito. Gostava de conversar, cantar e dançar, e tinha talento para pintura e escultura.
Sentia-se envaidecida com sua origem e dizia, cheia de orgulho: “minha avó foi apanhada no laço e, tirada da tribo por um bandeirante famoso.”
Ele bem mais velho e experiente do que ela, e vinha de uma família tradicional e poderosa.
Não era bonito, embora fosse galante e sedutor.
 Conheceram-se na novena de Nossa Senhora Aparecida. E foi no pátio da Igreja que tiveram seus primeiros encontros, trocaram os primeiros beijos e se abraçaram.
Casaram-se no dia da festa de Nossa Senhora Aparecida.
Ela alegre e risonha, ele mal humorado, criticando todos e reclamando de tudo.
Logo ela percebeu que fizera uma escolha desastrosa.
O humor do homem era imprevisível. Num momento estava apaixonado, acariciando a mulher na frente de todos; meia hora depois se enfurecia, jogava o que tivesse a mão, ou silenciosamente se retirava cheio de ódio procurando alguém a quem culpar por sua decantada infelicidade.
            Logo a mulher ficou grávida e ele começou a espancá-la. E uma gravidez atrás da outra.
Sua vida transformou-se numa verdadeira gangorra. Altos e baixos. Lindas viagens, presentes maravilhosos, seguidos de dor e humilhação.
Muitas vezes ela se escondia no quarto enquanto tentava disfarçar hematomas, braços quebrados, cabelos repuxados e olhos roxos.
Quando o filho mais velho saiu de casa, para fazer cursos no exterior, a antiga menina risonha, se transformara numa mulher triste e envelhecida que via espíritos. Tinha medo deles e gritava. E os filhos que ficaram em casa, se agarravam uns nos outros, cheios de horror.
O marido dizia que ela precisava de um Centro Espírita para desenvolver sua mediunidade.
Uma noite eles saíram para festejar o aniversário de casamento.
Ela estava linda e ele cheio de carinho. Ninguém adivinharia o que se passava entre o casal.
Nessa madrugada os filhos foram acordados com os gritos da mulher. Correram e viram o pai enlouquecido, apertando a garganta dela, enquanto, quase desmaiada, ela tinha os lábios arroxeados. Sua carótida foi estrangulada e sua salvação espantou os médicos.
A partir dessa noite ela viveu apavorada.
E numa noite qualquer, o homem apontou a arma para a cabeça da mulher e, no último momento, desviou o tiro para um móvel cheio de vidros.
No dia seguinte ela não foi vista em lugar nenhum. Fugiu para a casa de uma tia e lá ficou escondida. Mas, levou consigo as feridas e o pânico que ficou para sempre.
Não comia mais, a empregada podia estar recebendo dinheiro do marido, para envenená-la. A cada batida na porta, ficava tremula, e se escondia.  O marido poderia ter descoberto seu esconderijo.
Os gritos noturnos, e os pesadelos, incomodavam a todos.
E os parentes acabaram por interná-la no manicômio. E lá ela viveu os últimos anos de sua curta vida.
No dia do enterro, lá estava o marido com a segunda mulher, recebendo os pêsames que deveria ser dos filhos.
Anos depois o homem foi buscar os ossos da mãe dos seus filhos.
Para espanto de todos, ele os colocou de baixo da cama de casal, onde dormia com a outra mulher.
 E não havia quem o fizesse mudar isso.
Os ossos só voltaram para o cemitério junto com o cadáver do homem.
Casados para sempre.



Nenhum comentário:

Postar um comentário