Precisando preencher minhas noites insones, procurei amigas notívagas e com elas fui conhecer as festas das noites cariocas.
Encontrei algumas mulheres inteligentes e, sobretudo, espertas, que vêem a vida sob um prisma muito especial. A linguagem, os seus valores e comportamento, totalmente desconhecido para mim. Um mundo onde aprendi uma nova maneira de encarar a vida que me ajudou a lidar com as perdas e descobrir valiosos ganhos.
Elas usavam saias muito curtas, com meias de excelente qualidade que faziam suas pernas parecer bonitas e escondiam as marcas do tempo.
Muitas já recorreram a inúmeras cirurgias plásticas.
Os homens conheciam o macete, mas não adivinhavam o quanto o tempo as enchera de varizes, estrias, rugas, gorduras na barriga e flacidez dos seios.
No primeiro baile que fui meu modo de vestir e agir eram destoantes; parecia uma caipira assustada, insegura e com total falta de jeito.
Minhas amigas foram conseguindo parceiros para dançar. Quanto mais depressa fossem convidadas, mais admiração e inveja causavam.
As mais populares naquele ambiente procuraram ajudar-me pedindo aos velhos conhecidos que me levassem para a pista. Mais tarde descobri que estavam sendo generosas, pois a competição era acirrada.
Entre uma dança e outra, tomamos diferentes tipos de drinques.
Um homem com quem dancei, acompanhou-me até a mesa e falou sobre os seus netos. Senti-me finalmente no meu mundo. Respondi mais que depressa: “Eu tenho cinco: uma menina e quatro meninos.
Imediatamente senti um baita pontapé, sob a mesa. Assustada, olhei para a companheira que estava na minha frente e ela me devolveu um olhar severo e um balançar de cabeça. Não demorou muito, chegou perto de mim e esbravejou: “Você esta doida? Na noite não se tem filho e muito menos, netos. Onde já se viu tanta burrice? Parece a Poliana!
Não sei onde ela viu semelhança, entre mim e a menina otimista do romance de nossa infância.
Assim, tive a primeira lição sobre a noite, num salão de baile: as mulheres não têm família. Aos homens é permitido falar nas esposas que ficaram em casa, nos filhos e netos e até nas mulheres que já passaram por suas vidas.
Descobri também homens de variados tipos e personalidades interessantíssimas.
Conheci alguns, sem dinheiro, que viviam em quartos alugados; os aposentados de bancos ou militares eram considerados bons partidos e ao menos dividiam as contas. Outros comiam e bebiam, depois saiam de fininho, deixando a dívida para a incauta que teve a gentileza de convidá-lo, ou aceitar sua companhia.
Alguns casados outros procurando companheiras para encostarem-se em suas casas.
Os que sabem rodopiar e rebolar no salão, com passos coreográficos, têm grande cartaz.
Na maioria das vezes trabalham em escolas de dança, são corretores de imóveis ou vendem carros. Freqüentam essas festas até especialistas como bombeiros e eletricistas.
Divertem-se toda a noite, depois convidam a mulher para ir à suas casas – quando as tem – ou se insinuam para ir ao apartamento delas. E para preencher o vazio de suas camas, contentes, elas pagam as contas e os taxis, quando não têm carro.
Na festa seguinte, aqueles mesmos homens com quem dormiram apenas as cumprimentam indiferentes ou até fingem não as conhecerem.
Existem também os românticos, que se dizem apaixonados à primeira vista e, propõem um relacionamento firme, ao perceberem que a mulher pode oferecer vantagens materiais.
Numa conversa longa e séria com um desses homens, percebi total desprezo por “essas mulheres que vivem na noite”. E eu perguntei: “com quem vocês dançariam, conversariam ou iriam para a cama, se elas não existissem?”
Alguns romances podem acontecer entre as pessoas do Single Club, mas são raríssimos.
Aqueles que estão em busca de companhia, desconfiam daqueles que são encontrados no lugar adequado.
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