quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O IRREMEDIÁVEL

                                      

 Sempre preferi escolher meus empregados domésticos entre os  homossexuais.  Meu marido não concordava e estava sempre reclamando de mim e debochando de minhas escolhas.                         
  Eles pareciam quer mostrar maior zelo e competência do que as mulheres. Sua comida era sempre mais gostosa, sua faxina perfeita e eram mais gentis e prestativos. Muitas vezes me senti amada por alguns.
Estefanio chegava a ser adulador com seus constantes e exagerados elogios. Nos fins de semana saía para farrear, embriagar-se e namorar.
 Quando voltava às segundas feiras, estava cansado e lento para o serviço.
 Mas acabava sempre arrumando um jeito para puxar conversa e me fazer confidências.
Confesso que dei boas gargalhadas e até emiti opiniões e conselhos ao meu empregado.
Numa segunda- feira Estefanio  não apareceu. Já estava aflita quando ele  telefonou me  pedindo ajuda. Parecia aflito e quase chorando disse que estava preso e precisava  sair daquele lugar horrível.
Saí imediatamente em seu socorro, e não seria difícil resolver seu problema.  Sou advogada e logo soltaria o meu  empregado favorito.
Tudo teria sido rápido e sem traumas se eu não tivesse visto e ouvido o que estavam fazendo com um homem velho, de pele tostada de sol e vincada pelas  rugas e  pelo sofrimento.
Mesmo que não quisesse participar daquele drama, era-me impossível não ouvir sua história. Teimava em repedir para qualquer um que chegasse, buscando compaixão .
“Doutora, depois de dez anos trabalhando como faxineiro de uma grande concessionária de carros, fui acusado  de roubar uma peça nova e cara que estava no armário. Juro que não fui eu.”
 Fingi não ouvir. Mas vi o policial que se aproximou dele para mais uma sessão de interrogatório.
E ali, próximo de mim assisti o pobre velho levar tapas e ponta pés. Vi lágrimas escorrendo pelo seu rosto, sua cabeça balançar negando cada acusação.
 E indiferente saí enquanto o suspeito olhou-me com olhos sofridos, insistiu que era inocente e me pediu ajuda. Pareceu-lhe que finalmente, chegara ajuda, pois eu livrara o meu empregado, seu companheiro de cela,  eu poderia  ser uma pessoa misericordiosa.
Quando saí o homem  me olhou com os olhos sofridos, e novamente sentiu-se desvalido e só.
Eu não disse nada, não fiz nada. Saí com Estefanio, entramos no carro sem olhar para trás, e o som dos seus gemidos foram comigo.
                    Tempos depois fui trabalhar na Defensoria Pública. Todos os meus clientes se pareciam com aquele velho que deixei na delegacia. Deveria ter pelo menos ter me interessado por  sua história para ver se ele era  culpado  ou inocência.
                   E sonho com ele pedindo-me ajuda, e na inércia, que fez de mim cúmplice dos policiais.                              
                   Todas as  vezes  em que aquela cena me vem à mente, a culpa me atormenta.
                          Seria inocente ou teria culpa? Sei que isso é irremediável. Jamais saberei. E minha frieza dói em mim.
                Não tem retorno e jamais saberei como essa história terminou.

                     Porém, no meu auto- veredicto, eu serei sempre culpada
.

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