Aristides e Durval não conheceram alegria de um lar feliz. Não se lembravam do colo do pai, dos beijos da mãe, de uma mão calorosa segurando as suas. Jamais se lembravam de um gesto que denotasse carinho ou proteção.
Só tinham um ao outro.
Suas mais remotas lembranças estavam ligadas a gritos de terror da mãe e agressões de um pai bêbado. E eles dois apavorados procurando um lugar para se esconder. Dentro dos armários, em baixo das camas, atrás de móveis ou qualquer outro lugar, desde que longe daquelas cenas angustiantes. Algumas vezes eles conseguiam pular a janela e anestesiar suas dores nas ruas. E era sempre fora de casa que encontravam pequenos prazeres, algumas diversões. Quando a chuva caía, tomavam banho nas bicas. Com os amigos jogavam futebol. Às vezes algum vizinho os levava ao cinema para ver seus heróis preferidos.
Durval estava sempre de mau humor e demonstrando sua revolta contra o mundo. Brigava com os amigos e, por ser pequeno e fraco, quase sempre saía machucado.
Já Aristides era cordato e minimizava tudo. Gostava de bichos e quando encontrava um cachorro ou gato abandonado, pegava no colo, alimentava e cuidava com carinho.
Mas o melhor de si era para o irmão mais novo. Procurava acalmá-lo, limpava suas lágrimas, e planejava um futuro de felicidade para todos. Não sabia explicar, mas conseguia ver qualidades até no pai, e adorava a mãe.
Numa das raras manhãs de domingo em que se divertiam, ao retornar para casa, encontraram uma ambulância defronte à porta. E, dentro dela, estava sua mãe morta.
Era ainda tão jovem! Não resistiu a tantos sofrimentos.
Logo, o pai livrou-se deles, mandando para casa da irmã. A velha era tão doida quanto ele.
Durval estava com cinco anos e Aristides oito. E nada melhorou em suas vidas.
Todas as manhãs, às cinco horas, a tia acordava os dois e, aos gritos, dizia: “Vão guardar um lugar bem perto do Padre. Quero assistir à missa bem na frente do altar.”
E eles chegavam numa igreja vazia, cheia de lugares disponíveis.
Ao voltar para casa tontos de fome, comiam pão de véspera amolecido no café.
Aristides sorria daquelas manias, abria um sorriso e fazia um ligeiro agrado na cabeça do irmão. Mesmo não compreendendo por que não podiam comer pão fresco, dizia: “Coma. Está gostoso.”
Com o tempo, aprenderam a tocar o sino e a incensar o altar.
Aristides chegou a pensar que tinha vocação para ser padre, enquanto Durval pensava: “Quando sair deste inferno de vida, nunca mais entrarei numa igreja, não tocarei sino, nem acenderei um incenso.”
Com temperamento rebelde e gênio forte, foi escolhido, pela tia maluca, para levar com o cinto nas costas e palmatória nas mãos, e alimentar o sadismo que existia nela.
O ódio dele era tão forte que não derramava uma lágrima sequer. Aristides, aflito, dizia: “chora, chora logo Durval. Pára com isso”. E sentia a dor do irmão.
Finalmente, foram para um colégio interno. E lá começaram a ter vida saudável.
Apesar de Durval gostar dos professores e colegas, continuava procurando briga. E, de preferência, com garotos maiores e mais fortes. Não lhe importava perder a luta. Alegrava-se em poder reagir. E quando conseguia derrubar alguém, sentia-se vitorioso, cheio de orgulho. E quando era massacrado, o irmão bem mais forte, comprava a briga.
O caçula, fraco e abusado, acabou sendo expulso do colégio. E pela primeira vez, os dois irmãos ficaram separados.
Outros distanciamentos da vida os levaram a lugares distantes.
O casamento de Aristides, sólido e feliz. O de Durval conflitado, brigas constantes e uma separação dolorosa.
E quando os dois se encontravam, falavam sobre o passado, o pai, a mãe e a tia megera.
Como sempre viam as pessoas e os acontecimentos de maneira diferente.
Em dezembro, no dia do aniversário de Durval, Aristides, tentando preencher a carência que esteve com eles a vida toda, convidou o irmão para um jantar.
- Só nós dois- exigiu Durval.
- Claro. Há quanto tempo não ficamos sós!
E como era costume, eles falaram mais sobre o passado do que sobre o presente.
As feridas se abriram, sangravam e Durval bebeu muito.
Aristides tentou falar sobre os bons tempos no colégio, e impedir o irmão de beber mais.
Um pensava nas tristezas e fracassos. O outro recordava alegrias e sucessos.
O homem amargo tentando anestesiar sua dor continuava a entornar uísque.
O outro achava tudo engraçado e insistia para Durval parar de beber.
Quando eles decidiram sair do restaurante a chuva caía forte.
Aristides queria tomar um táxi. Durval insistia em levar o irmão até sua casa.
Dois carros bateram de frente.
Aristides ficou paraplégico. E Durval apenas ferimentos leves.
E nas visitas que fazia ao irmão, jamais ouviu uma crítica ou menção ao fato de ter dirigido bêbado. Mas ele vivia se culpando.
Um dia, sem motivo aparente, Durval passou a usar cadeira de rodas.
Não conseguia ficar diferente ou indiferente à dor de Aristides.
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