O PRÉDIO
Foi difícil convencer o marido a comprar um apartamento pequeno e estragado, pelo mesmo preço de um na Tijuca, novo, grande e com uma bela vista.
Não que a Tijuca a desagradasse, mas ela sentia que aqui era o seu lugar.
Fizeram a mudança e as muitas obras necessárias levou todo o dinheiro que o marido guardava para as emergências, até que a casa se transformasse no que é hoje.
À frente da janela do quarto havia uma imensa pedra, uma árvore frondosa a qual veio se encostar um contêiner e nele se aninharam um negro alto com uma sunga e seu pequeno companheiro, gritava mais do que o que ela podia suportar. Quando o Governador Brizola assumiu e ordenou que o povo de rua não fosse incomodado.
Uma noite ela telefonou para a delegacia disse o que estava acontecendo. O homem que lhe atendeu disse: “O Dr. Brizola nos mandou deixar o povo de rua em paz. Mas, se está incomodada, venha aqui, escreva, coloque seu nome, endereço, telefone e tentaremos fazer chegar sua queixa chegar ao Governador.” Claro que ela não correria riscos.
Numa silenciosa noite ela percebeu que o ninho de amor do Vavá e de seu garoto desaparecera.
Do lado direito havia um prédio muito baixo que a deixava ver a rua. E do esquerdo um terreno da policia, onde jamais fariam construção.
No fim da tarde ela sentada num banco em frente ao prédio onde não havia grades, em companhia das vizinhas e conversavam. Algumas vezes falando mal das ausentes, outras dos filhos que estavam demorando a chegar da escola.
Um dia um prédio foi levantado no terreno da polícia.
O velho edifício do outro lado foi implodido e lá subiu uma parede imensa.
Um shopping foi construído no lugar da pedra e sofreram com o barulho dos britados, anos e anos.
Colocaram grades à frente do prédio.
O banco foi conservado, mas não tinham mais crianças para esperar.
O prédio envelheceu e com ele os moradores.
Alguns morreram e seus herdeiros venderam os apartamentos ou deram para os filhos recém casados. E, herdeiros ou compradores, reformam tudo, por isso a poeira suja tudo e todos.
Mas o que a tem incomodado muito é barulho causado por gritos e sussurros dos jovens que não se cansam de fazer amor.
Tem uma jovem que grita: “me fode mais, mais!”. O parceiro murmura: “não agüento”
Outra noite uma mulher gemia que parecia sentir dor.
Domingo o barulho de tapas e gritos seguido da voz de um homem exigindo que a vítima se calasse deixou-me nervosa.
Na madrugada de sábado todos os casais do prédio fodem ao mesmo tempo.
Não conseguindo dormir, ela decidiu ligar a TV.
Estava passando um filme pornô. Ela se masturba e depois fica a se perguntar: “Será que fazíamos todo esse barulho e não ouvíamos os arrulhos dos outros? Ou será que o emparelhamento produz eco? “
E na manhã seguinte ela senta-se no mesmo banco e fica esperando as moças saíam para seus trabalhos ou para levar seus bebês a passear. Tenta identificar quem é qual.
E nostálgica se pergunta: “será que eu já fiz parte dessa grande suruba?”
o uma enorme pedra a nossa frente, um terreno cheio de sujeiras de um lado e um velho prédio do outro.
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