CAMARÃO ELÉTRICO
Ultimamente, minha irmã mais velha guardiã de documentos e antigos retratos, resolveu nos enviar fotos recuperadas, dos nossos ancestrais.
Esta semana chegou pelo correio um retrato da família do nosso avô. Sendo eu, a filha mais nova do filho caçula, só consegui identificar o meu avô, em pé ao lado de uma senhora gorda, bem vestida e cheia de jóias.
Senti carinho pelo menino franzino, feio e bem comportado do retrato e o comparei com o homem rebelde e aventureiro que conheci.
Não era bonito; baixo e magro, tinha a pele avermelhada e olhos azuis; sempre agitado e de bom humor, o apelidaram de “camarão elétrico”.
Tinha uma a peculiaridade de falar sem pronunciar todas as letras, mesmo assim, fez sucesso na política cearense.
Um dia, decepcionado, mudou-se com toda a família para a Amazônia onde fez fortuna com seringais.
Na mesma medida que sabia ganhar dinheiro, gastava, fazendo de sua vida uma festa.
Viajava muito á Europa, sempre em lua de mel com uma amante ou para encontrar alguma namorada em Paris ou na Itália.
E quando era descoberto, jurava que a mulher era do amigo Oliveira que levava toda a fama de ter todas as amantes do mundo. Ou então argumentava: “Maroca não é pau de sebo, não gasta; lavou tá novo.”
Às vezes, carente de carinho nos pedia para catarem piolhos imaginários nos seus cabelos grisalhos e ralos. E nós fazíamos um barulhinho nas unhas como se tivéssemos, matando os piolhos inexistentes, e ganhávamos dez centavos por cada um. Quando completava a quantidade de dinheiro que ele queria nos presentear, ele nos dizia: “chega, senão não ficará nenhum para tirar amanhã.”
Uma madrugada ao sair da casa de uma amante, viu o marido entrando e se escondeu numa moita do jardim; exatamente, aquela que o corno escolheu para esvaziar a bexiga. Tomou um banho de mijo.
Um dia chegou à casa e, ao se despir, vovó percebeu que estava sem as ceroulas, e gritou:
-Carlos, onde estão suas ceroulas?”
- Perdi! - respondeu tranquilamente.
Com quarenta e nove anos estava farreando na Europa, quando passou mal.
Levado às pressas para um hospital em Paris, ouviu do médico terrível sentença:
“Rentrez au Brèsil; ne fumez pás; ne bouvez pás ; et les femmes, jamais!”
Ao sair do hospital, convidou uma das jovens com quem se divertia para fazer uma viagem ao Brasil, comprou muito vinho e charutos e veio se divertindo no navio até o porto de Belém, onde pretendia fazer uma romântica despedida.
Já que ia morrer, que, fosse em bom estilo.
Quando o preço da borracha caiu, ele abriu no fundo de sua casa uma farmácia. E anunciando nos jornais da cidade remédios para todos os males, ganhou muito dinheiro principalmente com o leite de colônia.
Contrariando todas as previsões possíveis sobreviveu à Maroca, sua mulher e, ainda tornou-se amante da enfermeira que cuidava dela.
Na véspera de mudar-se para o Rio, foi tomar banho no Igarapé onde encontrou uma jovem cabocla lavando roupa com uma recém nascida deitada entre trapos.
Aproximou-se dela e perguntou:
- Seu marido é bom pra você?
- Não. Ele me bate e eu passo fome.
- Amanhã, nessa mesma hora esteja aqui com sua filha, que levarei você comigo para o Rio.
Mais uma vez apelou para o amigo Oliveira, que no dia seguinte, apanhou a mulher com a criança e as despachou para o Rio.
E viveu com ela, e outras também, durante um bom tempo.
Com mais de cem anos de idade, cego e lúcido, sabia de tudo que se passava, ouvindo atentamente o Repórter Esso.
Chorava de emoção e se indignava com maus da novela: ‘O Direito de Nascer’ que acompanhava com os ouvidos colados ao rádio.
E quando alguém ia visitá-lo, ele sempre passava a mão em lugares indevidos.
E as netas tinham que dizer:
- Vovô, sou sua neta.
- Desculpe, desculpe!
Numa manhã, aos cento e três anos, ele não mais se levantou para o desjejum. Como uma fotografia nos faz viajar no tempo!...
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